Eu não sei, olhe, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechado e cinza, aqui contra a sacada com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um atrás do outro, que tédio. Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu que esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair e não cai, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e se vê que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que pende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore.
Mas há as que se suicidam e logo se entregam, brotam na esquadria e de lá mesmo se jogam, parece-me ver a vibração do salto, suas perninhas desprendendo-se e o grito que as embriaga nesse nada do cair e aniquilar-se. Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adeus gotas. Adeus.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
terça-feira, 14 de setembro de 2010
de barros, again
Quando o mundo abandonar o meu olho.
Quando o meu olho furado de belezas for esquecido pelo mundo.
Que hei de fazer?
Quando o silêncio que grita do meu olho não for mais escutado.
Que hei de fazer?
Que hei de fazer se de repente a manhã voltar?
Que hei de fazer?
– Dormir, talvez chorar.
Quando o meu olho furado de belezas for esquecido pelo mundo.
Que hei de fazer?
Quando o silêncio que grita do meu olho não for mais escutado.
Que hei de fazer?
Que hei de fazer se de repente a manhã voltar?
Que hei de fazer?
– Dormir, talvez chorar.
trecho de In On It (peça de Daniel MacIvor)
Uma palavra em minha própria defesa,
na qual eu luto contra clichês enquanto
procuro metáforas e me vem à mente
um casaco e algo que de repente se apaga.
Um casaco largado no chão
e algo que de repente…
Não é como uma vela – não é
como uma brisa curta e rápida
ou um brilho que se apaga
devagar e, depois, fumaça.
É súbito.
E não deixa traços.
Só um vazio inominável – um nome
daria muito peso – causado por algo que
de repente se apaga e não
deixa nada pra trás.
Nada, nem mesmo um nada
pra sustentar o nada.
E um casaco largado no chão.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Permanência, drummond
Permanência
Agora me lembra um, antes me lembrava outro.
Dia virá em que nenhum será lembrado.
Então no mesmo esquecimento se fundirão.
Mais uma vez a carne unida, e as bodas
cumprindo-se em si mesmas, como ontem e sempre.
Pois eterno é o amor que une e separa, e eterno o fim
(já começara, antes de ser), e somos eternos,
frágeis, nebulosos, tartamudos, frustados: eternos.
E o esquecimento ainda é memória, e lagoas de sono
selam em seu negrume o que amamos e fomos um dia,
ou nunca fomos, e contudo arde em nós
à maneira da chama que dorme nos paus de lenha jogados no galpão.
Carlos Drummond de Andrade
em: http://leaoramos.blogspot.com/2008/08/no-lindo-poema-de-carlos-drummond-de.html
Agora me lembra um, antes me lembrava outro.
Dia virá em que nenhum será lembrado.
Então no mesmo esquecimento se fundirão.
Mais uma vez a carne unida, e as bodas
cumprindo-se em si mesmas, como ontem e sempre.
Pois eterno é o amor que une e separa, e eterno o fim
(já começara, antes de ser), e somos eternos,
frágeis, nebulosos, tartamudos, frustados: eternos.
E o esquecimento ainda é memória, e lagoas de sono
selam em seu negrume o que amamos e fomos um dia,
ou nunca fomos, e contudo arde em nós
à maneira da chama que dorme nos paus de lenha jogados no galpão.
Carlos Drummond de Andrade
em: http://leaoramos.blogspot.com/2008/08/no-lindo-poema-de-carlos-drummond-de.html
terça-feira, 24 de agosto de 2010
algumas chaves de ouro de K. Mansfield
"Mas a pereira permanecia adorável, cheia de flores e tão imóvel como sempre."
(do conto Felicidade)
conto completo:
http://www.releituras.com/kmansfield_menu.asp
obs: a tradução do link é diferente da que aqui postei. avaliando pelo fim do texto, prefiro a minha tradução. vale a pena, se pá, ler no original. http://www.eastoftheweb.com/short-stories/UBooks/Blis.shtml
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"_ Não - soluçou Laura - foi simplesmente maravilhoso. Mas, Laurie... - Ela se deteve, e olhou para o irmão. - A vida não é - gaguejou -, a vida não é... - Mas o que a vida era, foi incapaz de explicar. Não importava. Ele compreendeu.
_ Não é mesmo, querida? - disse Laurie."
(do conto A Festa Ao Ar Livre)
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"Até o realejo parar de tocar, Constantia ficou de pé diante do Buda, cismando, mas não como usualmente, não vagamente. desta vez sua surpresa foi como um anseio. Ela se lembrou das vezes em que fora até ali, esgueirando-se da cama de camisola, quando havia lua cheia, e se deitara no chão com os braços esticados, como se estivesse crucificada. Por quê? A grande, pálida lua levara-a a fazê-lo. As horríveis figuras dançantes na tela esculpida olharam para ela de soslaio e ela não se incomodou. Ela se lembrou também de como, sempre que estiveram à beira-mar, ela saía sozinha e se aproximava o máximo possível do mar, cantando algo, algo que inventara, enquanto olhava toda aquela extensão de água inquieta. Houve aquela outra vida, saindo apressada, trazendo coisas para casa em sacolas, aprovando coisas, discutindo-as com Jug, e levando-as de volta para trazer mais coisas para serem aprovadas, e arrumando as bandejas de papai e tentando não aborrecê-lo. Mas tudo parecia ter acontecido dentro de uma espécie de tunel. Não era real. Só quando saía do túnel para o luar ou perto do mar ou sob uma tempestade é que realmente se sentia ela mesma. O que significava isso? O que era isso que ela estava sempre querendo? A que levava tudo isso? E agora? E agora?
Ela se afastou do Buda com um dos seus gestos vagos. Dirigiu-se para onde Josephine estava parada, de pé. Queria dizer uma coisa para Josephine, uma coisa terrivelmente importante, sobre... sobre o futuro e o que...
_Você não acha que talvez... - começou.
Mas Josephine a interrompeu.
_Eu estava me perguntando se agora...- ela murmurou. Detiveram-se; esperaram uma pela outra.
_Prossiga, Con - disse Josephine.
_Não, não, Jug; falo depois - disse Constantia.
_Não, diga o que você ia dizer. Como você - disse Josephine.
_Eu... eu preferia ouvir o que você tinha a dizer primeiro - disse Constantia.
_Não seja absurda, Con.
_Realmente, Jug.
_Connie!
_Oh, Jug!
Uma pausa. Então Constantia disse debilmente:
_Não posso dizer o que ia dizer, Jug, porque esqueci o que era... que ia dizer.
Josephine ficou em silêncio por um momento. Fixou uma grande nuvem onde antes estiveram o sol. Depois respondeu brevemente:
_Eu também esqueci."
(do conto As filhas do Falecido Coronel)
(do conto Felicidade)
conto completo:
http://www.releituras.com/kmansfield_menu.asp
obs: a tradução do link é diferente da que aqui postei. avaliando pelo fim do texto, prefiro a minha tradução. vale a pena, se pá, ler no original. http://www.eastoftheweb.com/short-stories/UBooks/Blis.shtml
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"_ Não - soluçou Laura - foi simplesmente maravilhoso. Mas, Laurie... - Ela se deteve, e olhou para o irmão. - A vida não é - gaguejou -, a vida não é... - Mas o que a vida era, foi incapaz de explicar. Não importava. Ele compreendeu.
_ Não é mesmo, querida? - disse Laurie."
(do conto A Festa Ao Ar Livre)
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"Estragado sua noite! Estragado o momento deles a sós! Nunca mais teriam momentos a sós, novamente."
(do conto O Estranho)
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"Até o realejo parar de tocar, Constantia ficou de pé diante do Buda, cismando, mas não como usualmente, não vagamente. desta vez sua surpresa foi como um anseio. Ela se lembrou das vezes em que fora até ali, esgueirando-se da cama de camisola, quando havia lua cheia, e se deitara no chão com os braços esticados, como se estivesse crucificada. Por quê? A grande, pálida lua levara-a a fazê-lo. As horríveis figuras dançantes na tela esculpida olharam para ela de soslaio e ela não se incomodou. Ela se lembrou também de como, sempre que estiveram à beira-mar, ela saía sozinha e se aproximava o máximo possível do mar, cantando algo, algo que inventara, enquanto olhava toda aquela extensão de água inquieta. Houve aquela outra vida, saindo apressada, trazendo coisas para casa em sacolas, aprovando coisas, discutindo-as com Jug, e levando-as de volta para trazer mais coisas para serem aprovadas, e arrumando as bandejas de papai e tentando não aborrecê-lo. Mas tudo parecia ter acontecido dentro de uma espécie de tunel. Não era real. Só quando saía do túnel para o luar ou perto do mar ou sob uma tempestade é que realmente se sentia ela mesma. O que significava isso? O que era isso que ela estava sempre querendo? A que levava tudo isso? E agora? E agora?
Ela se afastou do Buda com um dos seus gestos vagos. Dirigiu-se para onde Josephine estava parada, de pé. Queria dizer uma coisa para Josephine, uma coisa terrivelmente importante, sobre... sobre o futuro e o que...
_Você não acha que talvez... - começou.
Mas Josephine a interrompeu.
_Eu estava me perguntando se agora...- ela murmurou. Detiveram-se; esperaram uma pela outra.
_Prossiga, Con - disse Josephine.
_Não, não, Jug; falo depois - disse Constantia.
_Não, diga o que você ia dizer. Como você - disse Josephine.
_Eu... eu preferia ouvir o que você tinha a dizer primeiro - disse Constantia.
_Não seja absurda, Con.
_Realmente, Jug.
_Connie!
_Oh, Jug!
Uma pausa. Então Constantia disse debilmente:
_Não posso dizer o que ia dizer, Jug, porque esqueci o que era... que ia dizer.
Josephine ficou em silêncio por um momento. Fixou uma grande nuvem onde antes estiveram o sol. Depois respondeu brevemente:
_Eu também esqueci."
(do conto As filhas do Falecido Coronel)
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Convite Triste, drummond
Meu amigo, vamos sofrer,
vamos beber, vamos ler jornal,
vamos dizer que a vida é ruim,
meu amigo, vamos sofrer.
Vamos fazer um poema
ou qualquer outra besteira,
Fitar por exemplo uma estrela
por muito tempo, muito tempo
e dar um suspiro fundo
ou qualquer outra besteira.
Vamos beber uísque, vamos
beber cerveja preta e barata,
beber, gritar e morrer,
ou, quem sabe? beber, apenas.
Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios
e tem um embigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que é dele
e que nunca será alma.
Meu amigo, vamos cantar,
vamos chorar de mansinho
e ouvir muita vitrola,
depois embriagados vamos
beber mais outros seqüestros
(o olhar obsceno e a mão idiota)
depois vomitar e cair
e dormir.
vamos beber, vamos ler jornal,
vamos dizer que a vida é ruim,
meu amigo, vamos sofrer.
Vamos fazer um poema
ou qualquer outra besteira,
Fitar por exemplo uma estrela
por muito tempo, muito tempo
e dar um suspiro fundo
ou qualquer outra besteira.
Vamos beber uísque, vamos
beber cerveja preta e barata,
beber, gritar e morrer,
ou, quem sabe? beber, apenas.
Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios
e tem um embigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que é dele
e que nunca será alma.
Meu amigo, vamos cantar,
vamos chorar de mansinho
e ouvir muita vitrola,
depois embriagados vamos
beber mais outros seqüestros
(o olhar obsceno e a mão idiota)
depois vomitar e cair
e dormir.
sábado, 7 de agosto de 2010
Eu, de Maiakóvski
Eu
Nas calçadas pisadas
de minha alma
passadas de loucos estalam
calcâneos de frases ásperas
Onde
forcas
esganam cidades
e em nós de nuvens coagulam
pescoços de torres
oblíquas
só
soluçando eu avanço por vias que se encruz-
ilham
à vista
de cruci-
fixos
polícias
Nas calçadas pisadas
de minha alma
passadas de loucos estalam
calcâneos de frases ásperas
Onde
forcas
esganam cidades
e em nós de nuvens coagulam
pescoços de torres
oblíquas
só
soluçando eu avanço por vias que se encruz-
ilham
à vista
de cruci-
fixos
polícias
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