segunda-feira, 13 de junho de 2011

Há doenças piores que as doenças, por Fernando Pessoa

Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.

Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

trecho do capítulo 66 de O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar

A página contém uma só frase:  "No fundo, já sabia que não se pode ir mais além, porque não existe." A frase repete-se ao longo de toda a página, dando a impressão de um muro, de um impedimento. Não tem pontos, nem vírgulas, nem margens. Trata-se, de fato, de um muro de palavras ilustrando o sentido da frase, o choque contra uma barreira por trás da qual nada existe. Todavia, embaixo, à direita, numa das frases, falta a palavra "existe", um olho sensível depressa pode descobrir o vazio entre os ladrilhos, a luz que passa.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

trecho do capítulo 65 de O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar

Tendências a se vestir de de preto, de cinza, de pardo. Nunca foi visto com um terno completo. Há quem diga que tem três, mas que combina, invariavelmente, as calças de um com o paletó de outro. Não seria difícil verificar isso.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

He Wishes for the Cloths of Heaven, de W.B. Yeats

Had I the heavens' embroidered cloths,
Enwrought with the golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and half-light,
I would spread the cloths under your feet
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams beneath your feet;
Tread softly because you tread on my dreams...

sexta-feira, 3 de junho de 2011

dois trechos de: Duas notas, segunda nota: A arte de injuriar, HISTÓRIA DA ETERNIDADE, J L Borges

Cabe aqui certa réplica varonil a que alude De Quincey (Writings, tomo XI, p. 226). Numa discussão teológica ou literária, lançaram um copo de vinho ao rosto de um cavalheiro. O agredido não se alterou e disse ao ofensor: "Isto, senhor, é uma digressão; aguardo seu argumento". (O protagonista dessa réplica, um tal doutor Henderson, faleceu em Oxford por volta de 1787, sem deixar-nos nenhuma lembrança a não ser essas exatas palavras: suficiente e bela imortalidade.)

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Vinte e cinco pauzinhos
Tem uma cadeira.
Queres que a quebre
Nas tuas costelas?

(uma quadra da Andaluzia)

segunda-feira, 30 de maio de 2011

início da Quinta Elegia das Elegias de Duíno, R.M. Rilke

Mas quem são eles, dizei-me, os saltimbancos, um pouco 
mais efêmeros que nós mesmos, desde a infância 
por alguém torcidos — por amor 
de que vontade jamais saciada? Entretanto ela os torce, 
curva-os, entretece-os, vibra-os, 
atira-os e os toma de volta!
Do ar untado 
e mais liso, eles resvalam 
sobre o tapete gasto (adelgaçado 
pelo eterno salto), esse tapete 
perdido no universo. 
Emplastro aderido lá, onde o céu 
do subúrbio feriu a terra.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A Confissão de um Vagabundo, de Siérguei Iessiênin

Nem todos sabem cantar
Não é dado a todos ser maçã
Para cair aos pés dos outros.

Esta é a maior confissão
Que jamais fez um vagabundo.

Não é à toa que eu ando despenteado,
Cabeça como lâmpada de querosene sobre os ombros.
Me agrada iluminar na escuridão
O outono sem folhas de vossas almas,
Me agrada, quando as pedras dos insultos
Voam sobre mim, granizo vomitado pelo vento.
Então limito-me a apertar mais com as mãos
A bolha oscilante dos cabelos.

Como eu me lembro bem então
Do lago cheio de erva e do som rouco do amieiro
E que nalgum lugar vivem meu pai e minha mãe,
Que pouco se importam com meus versos,
Que me amam como a um campo, como a um corpo,
Como à chuva que na primavera amolece o capim.
Eles, com seus forcados, viriam aferrar-vos
A cada injúria lançada contra mim.

Pobres, pobres camponeses,
Por certo, estão velhos e feios,
E ainda temem a Deus e aos espíritos do pântano.
Ah, se pudessem compreender
Que o seu filho é, em toda a Rússia,
O seu melhor poeta!
Seus corações não temiam por ele
Quando molhava os pés nos charcos outonais?
Agora ele anda de cartola
E sapatos de verniz.

Mas sobrevive nele o antigo fogo
De aldeão travesso.
A cada vaca, no letreiro dos açougues,
Ele saúda à distância.
E quando cruza com um coche numa praça,
Lembrando o odor de esterco dos campos nativos,
Lhe dá vontade de suster o rabo dos cavalos
Como a cauda de um vestido de nooiva.

Amo a terra.
Amo demais a minha terra!
Embora a entristeça o mofo dos salgueiros,
Me agradam os focinhos sujos dos porcos
E, no silêncio das noites, a voz alta dos sapos.
Fico doente de ternura com as recordações da infância.
Sonho com a névoa e a umidade das tardes de abril,
Quando o nosso bordo se acocorava
Para aquecer os ossos no ocaso.
Ah, quantos ovos nos ninhos das gralhas,
Trepando nos seus galhos, não roubei!
Será ainda o mesmo, com a copa verde?
Sua casca será rija como antes?

E tu, meu caro
E fiel cachorro malhado?!
A velhice te fez cego e resmungão.
Cauda caída, vagueias no quintal,
Teu faro não distingue o estábulo da casa.
Como recordo as nossas travessuras,
Quando eu furtava o pão de minha mãe
E mordíamos, um de cada vez,
Sem nojo um do outro.

Sou sempre o mesmo.
Meu coração é sempre o mesmo.
Como as centáureas no trigo, florem no rosto os olhos.
Estendendo as esteiras douradas de meus versos
Quero falar-vos com ternura.

Boa noite!
Boa noite a todos!
Terminou de soar na relva a foice do crepúsculo...
Eu sinto hoje uma vontade louca
De mijar, da janela, para a lua.

Luz azul, luz tão azul!
Com tanto azul, até morrer é zero.
Que importa que eu tenha o ar de um cínico
Que pendurou uma lanterna no traseiro!
Velho, bravo Págaso exausto,
De que me serve o teu trote delicado?
Eu vim, um mestre rigoroso,
Para cantar e celebrar os ratos,
Minha cabeça, como agosto,
Verte o vinho espumante dos cabelos.

Eu quero ser a vela amarela
Rumo ao país para o qual navegamos.

(tradução de Augusto de Campos)
in: Poesia Russa Moderna