quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

trecho de Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez

"- Ah! - disse - então o senhor também não acredita.
- Em quê?
- Que o Coronel Aureliano Buendía fez trinta e duas guerras civis e perdeu todas - respondeu Aureliano - Que o exército encurralou e metralhou três mil trabalhadores e que levou os cadáveres para jogá-los no mar num trem de duzentos vagões.
O pároco mediu-o com um olhar de pena.
- Ai, filho - suspirou. - Para mim bastaria estar certo de que você e eu existimos nesse momento."

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O Pássaro Azul, de Charles Bukowski, tradução de Lucas Nicolato

o pássaro azul

há um pássaro azul no meu peito que
quer sair
mas eu sou duro demais pra ele
eu digo, fica aí, não vou
deixar ninguém te
ver
há um pássaro azul no meu peito que
quer sair
mas eu meto uísque nele e dou um
trago no meu cigarro
e as putas e os garçons
e os balconistas dos mercados
nunca percebem que
ele está
aqui dentro

há um pássaro azul no meu peito que
quer sair
mas eu sou duro demais pra ele
eu digo,
fica quieto, você quer zoar
comigo?
quer ferrar com meu
trabalho?
quer acabar com a venda dos meus livros na
Europa?

há um pássaro azul no meu peito que
quer sair
mas eu sou esperto demais, só o deixo sair
à noite, às vezes
enquanto todo mundo está dormindo
eu digo, eu sei que você está aí
não fique
chateado
então o ponho de volta
mas ele canta um pouco
aqui dentro, não o deixei realmente
morrer
e dormimos juntos
assim
no nosso
pacto secreto
e isso é o bastante pra
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, você
chora?




the bluebird

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pur whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?



em: http://lucasnicolato.blogspot.com.br/2008/07/charles-bukowski-o-pssaro-azul.html

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

trecho de "Os Frutos da Terra", de André Gide

Erguei-vos frontes inclinadas! Olhares voltados para os túmulos, erguei-vos. Não para o céu vazio, mas para o horizonte da terra. Para onde te conduzirão teus passos, Camarada, regenerado, valente, disposto a sair desses lugares empestados pelos mortos; deixa tua Esperança transportar-te para a frente. Não permitas que nenhum amor ao passado te retenha... Lança-te para o Futuro! A poesia, cessa de transferí-la para o sonho; saibas vê-la na realidade. E se não estiver nela ainda, coloca-a lá!




extraído da publicação revista Encontro Teatro nº 2, editada pelo Grupo Sonhus Teatro Ritual, Goiânia - GO.

outros excertos: http://jardimdeepicuro-apollonivs.blogspot.com.br/2011/02/andre-gide-os-frutos-da-terra.html

domingo, 27 de setembro de 2015

Susana Thénon (Buenos Aires, 1935 - 1991), dois poemas

isso que se chamava aquilo
agora é "isto"
aliás "algo"
aliás "a coisa"
e no lapso que vai da segunda linha à anterior
trocou-se o mesmo pelo mesmo
e "isto" continua com mais
com peróxido

um monte ululante de não sei o quê
se juntou
na frente da igreja
isso que se chamava aquilo
agora é "isto"
e no fim era o Nome

***

bem
estou morta
e quero me divertir
vamos
onde está tudo?
não tem ninguém?
sim
sim
passa um brilho pela janela
estou do lado de fora
você do lado de dentro
brinca com o espelho
me tapa um olho com sol
bem feito
porque estou morta
e quero me divertir
já posso entrar?
ainda não?
que espere?
como antes?
um pouco mais?
como antes
os espelhos
o sol
eu do lado de fora
você do lado de dentro
não ainda?



via: facebook

terça-feira, 25 de agosto de 2015

A Flauta Vértebra, de Maiakóvski

A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.






Via Maurício. Pelo whatsapp.