É porque recolho o vário
no aviário das vértebras
e me há um silo de células
e me há um quase-aquário,
que o poema se me chega,
estuário.
Que me importa
a sina jugular das fases,
a vida conjugal das frases
e o semblante cínico
das fezes,
se não faço poemas
como quem defende teses.
Faço poemas
para que passem os dias
e pascem os rebanhos
e os oceanos pasmem
ante o naufrágio
de todas as datas
no calendário-lanho.
Ou seja, faço-os
como quem viceja
os laços do arremesso
como quem vislumbra
silêncio nos entulhos
e aprendeu a estrutura ideal
para montar barulhos
sob a língua mais banal.
Faço-os
como quem lambe oásis no planalto,
deixado pelas bases
de um simples sobressalto.
É como se o ego
coubesse inteiro
na determinação de um prego
que me fixa exílios sob a carne
mas que também aciona
os gatilhos do alarme.
via: abigail pelo face
quinta-feira, 8 de junho de 2017
o poeta é mãe das armas, de Torquato Neto
O Poeta é a mãe das armas
& das Artes em geral -
alô, poetas: poesia
no país do carnaval;
Alô, malucos: poesia
não tem nada a ver com os versos
dessa estação muito fria.
O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral:
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval
(alô, malucos), é traidor
da poesia: não vale nada, lodal.
A poesia é o pai da ar
timanha de sempre: quent
ura no forno quente
do lado de cá, no lar
das coisas malditíssimas;
alô poetas: poesia!
O poeta não se cuida ao ponto
de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo
já sabe: não está cortando nada
além da MINHA bandeira ////////// =
sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar.
Isso: ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.a
r: em primeiríssimo, o lugar
poetemos pois
torquato neto / 8 nov. / 1971 & sempre
(Os últimos dias de Paupéria / 1973)
via: abigail pelo face
& das Artes em geral -
alô, poetas: poesia
no país do carnaval;
Alô, malucos: poesia
não tem nada a ver com os versos
dessa estação muito fria.
O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral:
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval
(alô, malucos), é traidor
da poesia: não vale nada, lodal.
A poesia é o pai da ar
timanha de sempre: quent
ura no forno quente
do lado de cá, no lar
das coisas malditíssimas;
alô poetas: poesia!
O poeta não se cuida ao ponto
de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo
já sabe: não está cortando nada
além da MINHA bandeira ////////// =
sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar.
Isso: ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.ar.a
r: em primeiríssimo, o lugar
poetemos pois
torquato neto / 8 nov. / 1971 & sempre
(Os últimos dias de Paupéria / 1973)
via: abigail pelo face
quinta-feira, 23 de março de 2017
Bacanal, de Manuel Bandeira
Quero beber! Cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco…
Evoé Baco!
Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em douro assomo…
Evoé Momo!
Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos…
Evoé Vênus!
Se perguntarem: Que mais queres,
além de versos e mulheres?
– Vinhos!… o vinho que é o meu fraco!…
Evoé Baco!
O alfange rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que não domo!…
Evoé Momo!
A Lira etérea, a grande Lira!…
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoé Vênus!
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco…
Evoé Baco!
Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em douro assomo…
Evoé Momo!
Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos…
Evoé Vênus!
Se perguntarem: Que mais queres,
além de versos e mulheres?
– Vinhos!… o vinho que é o meu fraco!…
Evoé Baco!
O alfange rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que não domo!…
Evoé Momo!
A Lira etérea, a grande Lira!…
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoé Vênus!
Sétimo Céu, de Patti Smith
Ó Rafael. Anjo guardião. No amor e no crime
todas as coisas movem-se em setes. sete compartimentos
no coração. as sete elaboradas tentações.
sete demônios lançados sobre Maria Madalena prostituta
de Cristo. as sete maravilhosas viagens de Sinbad.
sin/bad*. E o número sete marcado para sempre
na fronte de Caim. O primeiro homem inspirado.
O pai do desejo e assassinato. Mas o dele não foi
o primeiro êxtase. Considere a mãe dele.
Eva praticou o crime da curiosidade. É como o ditado
diz: matou pela buceta. Uma maçã ruim estragou
o tiro inteiro. Mas tenha certeza que não foi a maçã.
Uma maçã parece com uma bunda. É a fruta dos maricas.
Deve de ter sido um tomate.
Ou melhor ainda. Uma manga.
Ela mordeu. Temos que culpa-la. abusar dela.
pobre doce puta. talvez haja mais para a história.
pense em Satã como algum garanhão.
talvez seus joelhos estivessem abertos.
cobras de satã no meio delas.
elas abrem mais.
cobras em suas coxas
esfregando-se contra ela por um tempo
mais do que a árvore do conhecimento era sobre
ser comido… ela estremece seu primeiro estremecimento
prazer jardim do prazer
ela estava arrependida
somos sempre meninas
ela era uma boa leiga
só deus sabe
(in: http://guarita.tumblr.com/post/158600171470/uma-seleta-dos-primeiros-poemas-da-patti-smith)
todas as coisas movem-se em setes. sete compartimentos
no coração. as sete elaboradas tentações.
sete demônios lançados sobre Maria Madalena prostituta
de Cristo. as sete maravilhosas viagens de Sinbad.
sin/bad*. E o número sete marcado para sempre
na fronte de Caim. O primeiro homem inspirado.
O pai do desejo e assassinato. Mas o dele não foi
o primeiro êxtase. Considere a mãe dele.
Eva praticou o crime da curiosidade. É como o ditado
diz: matou pela buceta. Uma maçã ruim estragou
o tiro inteiro. Mas tenha certeza que não foi a maçã.
Uma maçã parece com uma bunda. É a fruta dos maricas.
Deve de ter sido um tomate.
Ou melhor ainda. Uma manga.
Ela mordeu. Temos que culpa-la. abusar dela.
pobre doce puta. talvez haja mais para a história.
pense em Satã como algum garanhão.
talvez seus joelhos estivessem abertos.
cobras de satã no meio delas.
elas abrem mais.
cobras em suas coxas
esfregando-se contra ela por um tempo
mais do que a árvore do conhecimento era sobre
ser comido… ela estremece seu primeiro estremecimento
prazer jardim do prazer
ela estava arrependida
somos sempre meninas
ela era uma boa leiga
só deus sabe
(in: http://guarita.tumblr.com/post/158600171470/uma-seleta-dos-primeiros-poemas-da-patti-smith)
quarta-feira, 22 de março de 2017
Ofício de amar, de Al Berto
já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna de animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras galáxias, e o remorso
um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas
ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo
tenho a companhia nocturna de animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras galáxias, e o remorso
um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas
ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo
Uma flor num buraco da calçada, de Henrique do Valle
quando soltaram os cachorros loucos
eu estava fazendo chá
de ervas do campo
e de repente o espanto
tremendo a chaleira
e bombeando medo
larguei as ervas e danado
precipitei-me à janela
de onde vi
enormes matilhas
com olhos cheios de negra espuma
a espuma invadia a rua
e abraçava os postes, que caíam
cheios de óleo e náusea
engolia as pessoas
que alucinadas
enchiam o ar de berros
depois os cachorros foram embora
eu voltei ao meu chá
e lá fora a solidão
e uma flor quase despercebida
via: http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2017/01/henrique-do-valle-1958-1971.html
eu estava fazendo chá
de ervas do campo
e de repente o espanto
tremendo a chaleira
e bombeando medo
larguei as ervas e danado
precipitei-me à janela
de onde vi
enormes matilhas
com olhos cheios de negra espuma
a espuma invadia a rua
e abraçava os postes, que caíam
cheios de óleo e náusea
engolia as pessoas
que alucinadas
enchiam o ar de berros
depois os cachorros foram embora
eu voltei ao meu chá
e lá fora a solidão
e uma flor quase despercebida
via: http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2017/01/henrique-do-valle-1958-1971.html
terça-feira, 21 de março de 2017
Autobiografia, de Henrique do Valle
Na hora morta do entardecer
eu recolho meus pedaços
pendurados no arco-íris
E quando a noite desce
eu rolo em meu leito
sonhando um sonho agreste
Depois, de manhã eu me acordo
berrando essa minha puta vida
que passa em brancas nuvens
via Lidia
eu recolho meus pedaços
pendurados no arco-íris
E quando a noite desce
eu rolo em meu leito
sonhando um sonho agreste
Depois, de manhã eu me acordo
berrando essa minha puta vida
que passa em brancas nuvens
via Lidia
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