segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Medo e o Macaco, de William S. Burroughs

Coceira irritante e o perfume da morte
No sussurrante vento sul
Cheiro de abismo e nada
O Anjo Vil dos vagabundos uiva pelo apartamento
Como um sono cheirando a doença
Sonho matutino de um macaco perdido
Nascido e sufocado por velhas fantasias
Com pétalas de rosa em frascos fechados
Medo e o macaco
Gosto amargo de fruta verde ao amanhecer
O ar lácteo e picante da brisa marinha
Carne branca denuncia
Teus jeans tão desbotados
Perna sob sombras do mar
Luz da manhã
No néon celeste de um armazém
No cheiro do vinho barato no bairro dos marujos
Na fonte soluçante do patío da polícia
Na estátua de pedra embolorada
No molequinho assobiando para vira-latas.
Vagabundos agarram suas casa imaginárias
Um trem perdido apita vago e abafado
No apartamento noite gosto d'água
Luz da manhã em carne láctea
Coceira irritante mão fantasma
Triste como a morte dos macacos
Teu pai uma estrela cadente
Osso de cristal no ar fino
Céu noturno
Dispersão e vazio.



Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça


via: http://estudiorealidade.blogspot.com.br/2006/09/medo-e-o-macaco-poema-de-william-s_14.html

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Declaração, de António José Forte

Eu de barba branca a tiracolo
rodeado de fumo por todos os lados vadios
menos pelo lado do mar
como um incêndio à ilharga
e dois artelhos clandestinos
eu salvo miraculosamente para te amar e curar
e esperar o teu regresso glacial e escarlate
que escrevo poemas desde que um rato
me entrou prós pulmões e só por causa disso
eu que disse: há um cancro no mapa universal
e engenheiros, geógrafos, doutores se apressaram a negá-lo
eu da cintura pra cima de alcatrão e terror
e do umbigo pra baixo de quiosque chinês
eu não espero piedade obrigado


via: Modo de Usar https://www.facebook.com/165781520116872/photos/a.172076606154030.41436.165781520116872/1746118595416482/?type=3&theater

quinta-feira, 27 de julho de 2017

trecho de Ana Cristina Cesar

I
Enquanto leio meus seios estão a descoberto. É difícil concentrar-me ao ver seus bicos. Então rabisco as folhas deste álbum. Poética quebrada pelo meio.

II
Enquanto leio meus textos se fazem descobertos. É difícil escondê-los no meio dessas letras. Então me nutro das tetas dos poetas pensados no meu seio.



via: Abigail pelo face

domingo, 23 de julho de 2017

Bestiário, de Jussara Salazar

a minha guerra será a tua guerra
não a guerra dos homens
mas a dos pássaros desgarrados

o nosso bestiário será esse
o do contrário nunca jamais
e a minha casa será a tua guerra

o nosso bestiário será esse
o do contrário e dos urubus diários
e a minha carne será a tua guerra

o nosso bestiário será esse
o dos monstros submersos que eunoé lembrará
quando a minha cruz for a tua guerra

então o nosso bestiário será esse
canto perdido sem prumo retalhado
sem dor sem beleza nem terra

e então a minha guerra será a tua guerra


via: Benedito

Tiradeira de leite, de Everardo Norões

entre os dedos
o fulgor do leite
filtra a desordem solar
o curral aprisiona
o sossego dos bichos
o negro viscoso do olho
a refletir vasilhas
o ramo da árvore
a sombra do regaço
cedo a manhã cheira
e tudo se acorda
na precisão do mato
ou do alento
que chega do açude
no remanso das entranhas
dessas nuvens lentas
lentas
lentas
lentas


via: Benedito no facebook

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Recordação do país infantil, de Oswald de Andrade

A estação da estrela d'alva. Uma lanterna de hotel. O mar cheiinho de siris.
Um camisolão. Conchas.
Vamos à praia das Tartarugas!
O menino foi pegado dando, atrás do monte de areia.
O carro plecpleca nas ruas.
O trem vai vendo o Brasil.
O Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e de gente dizendo adeus.
Depois todos morrem.

sábado, 1 de julho de 2017