segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Poema vertigem, de Roberto Piva

Eu sou a viagem de ácido
nos barcos da noite
Eu sou o garoto que se masturba
na montanha
Eu sou o tecno pagão
Eu sou o Reich, Ferenczi & Jung
Eu sou o Eterno Retorno
Eu sou o espaço cibernético
Eu sou a floresta virgem
das garotas convulsivas
Eu sou o disco-voador tatuado
Eu sou o garoto e a garota
Casa Grande & Senzala
Eu sou a orgia com o
garoto loiro e sua namorada
de vagina colorida
(ele vestia a calcinha dela
& dançava feito Shiva
no meu corpo)
Eu sou o nômade de Orgônio
Eu sou a Ilha de Veludo
Eu sou a Invenção de Orfeu
Eu sou os olhos pescadores
Eu sou o Tambor do Xamã
(& o Xamã coberto
de peles e andrógino)
Eu sou o beijo de Urânio
de Al Capone
Eu sou uma metralhadora em
estado de graça
Eu sou a pomba-gira do Absoluto

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Medusa, de Sylvia Plath, Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo

Longe dessa península de bocais pétreos,
Olhos revirados por varetas brancas,
Orelhas absorvendo as incoerências marinhas,
Você abriga sua cabeça débil — globo de Deus,
Lente de piedades,

Seus parasitas
Oferecem suas células selvagens à sombra de minha quilha,
Empurrando como corações,
Estigmas vermelhos bem no centro,
Cavalgando a contracorrente até o ponto de partida mais próximo.

Arrastando seus cabelos de Jesus.
Escapei, me pergunto?
Minha mente sopra até você
Umbigo de velhos mariscos, cabo Atlântico,
Se mantendo, parece, em estado de milagrosa conservação.

Em todo caso, você está sempre ali,
Respiração trêmula no fim da minha linha,
Curva d’água pulando
Em meu caniço, ofuscante e agradecida,
Tocando e sugando.

Não chamei você.
Não chamei você mesmo.
No entanto, no entanto
Você veio a vapor em minha direção,
Obesa e vermelha, uma placenta

Paralisando amantes impetuososos.
Luz de naja
Espremendo o hálito das rubras campânulas
Da fúcsia. Sem poder respirar,
Morta e sem dinheiro,


Superexposta, como num raio-x.
Quem você pensa que é?
Hóstia de comunhão? Maria Carpideira?
Não vou tirar nenhum pedaço desse seu corpo,
Garrafa aonde vivo,

Vaticano espectral.
O sal quente me mata de enjôo.
Imaturos como eunucos, seus desejos
Sibilam para meus pecados.
Fora, fora, coleante tentáculo!

Não há mais nada entre nós.





fonte: http://estudiorealidade.blogspot.com.br/2007/09/medusa-de-sylvia-plath.html

um trecho de pierre michon

 “Cada bebedeira era para mim como um ensaio geral, uma retomada das formas decaídas da Graça; pois a Escrita, pensava eu, viria em sua hora assim, exógena e prodigiosa, indubitável e transubstancial, transformando meu corpo em palavras como a embriaguez o transformava em puro amor de si, sem que segurar a pena me custasse mais do que levantar o cotovelo; o prazer da primeira página me seria como o arrepio ligeiro do primeiro copo; a amplidão sinfônica da obra acabada ressoaria como os cobres e os címbalos da embriaguez maciça, quando copos e páginas são inumeráveis. Arcaico meio, grosseiro subterfúgio de um xamã camponês!”

sábado, 15 de junho de 2013

Carme A Cornificio, de Catullo

Malest, Cornifici, tuo Catullo
malest, me hercule, et laboriose,
et magis magis in dies et horas.
Quem tu, quod minimum facillimumque est,
qua solatus es allocutione?
Irascor tibi. Sic meos amores?
Paulum quid lubet allocutionis,
maestius lacrimis Simonideis.

Vai mal, Cornifício, o teu Catulo,
vai mal e - por Hércules -, padece demais, muito
mais, a cada dia, a cada hora.
E tu - se era nuga, se era nada -
que consolo deste, que palavras?
Sinto ódio. Assim, és meus amores?
Só poucas palavras, certas, mais
tristes que o lamento de Simônides.

Malest Cornifici Tuo Catullo, de Allen Ginsberg

I'm happy, Kerouac, your madman Allen's
finally made it: discovered a new young cat,
and my imagination of an eternal boy
walks on the streets of San Francisco,
handsome, and meets me in cafeterias
and loves me. Ah don't think I'm sickening.
You're angry aat me. for all of my lovers?
It's hard to eat shit, without having visions;
when they have eyes for me it's like Heaven.

San Francisco, 1955

domingo, 18 de novembro de 2012

Ausência, de Wislawa Szymborska


Por pouco
e a minha mãe teria se casado com o senhor Zbigniew B. de Zdu´nska Wola.
Se tivessem uma filha -- não seria eu.
Talvez com a memória para nomes, rostos
e canções ouvidas uma só vez -- melhor que a minha.
Distinguindo sem erro um pássaro do outro.
Com excelentes notas de física e química,
de polonês nem tanto,
mas escrevendo poemas às escondidas,
logo muito melhores que os meus.

Por pouco
e naquela mesma época meu pai teria casado
com a senhorita Jadwiga R. Zakopane.
Se tivessem uma filha -- não seria eu.
Talvez mais teimosa e intransigente.
Saltando sem medo na água funda.
Suscetível ao que comove as massas.
Vista em vários lugares ao mesmo tempo,
poucas vezes com um livro, muito mais com a bola,
jogando com os meninos nos pátios e ruas.

As duas poderiam ter se encontrado
na mesma escola e na mesma classe,
mas sem afinidades,
nenhum parentesco,
e na foto da turma, bem afastadas entre si

Fiquem aqui, meninas
-- diz o fotógrafo --,
as pequenas na frente, as mais altas atrás.
E sorrisos bonitos quando eu der o sinal.
Verifiquem ainda,
não falta ninguém?

- Sim, senhor, estamos todas aqui.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

The Divide, de Edwin Morgan


I keep thinking of you - which is ridiculous.
These years between us like a sea.
and dignity that came with growing older
would stop my pencil on the paper.
The player was open; you asked for the Stones;
got that, got steaming coffee, conversation.
The heavy curtains kept a wild night out.
I keep thinking of your eyes, your hands.
There is no reason for it, none at all.
You would say I can't be what I'm not,
yet I can't not be what I am.
Where does that leave us? What can we do?
The silence after Jagger was like a cloak
I'd have thrown over you - only the wind
was left, and the clock ticked as you sipped,
clutching the green mug in both hands.
Don't look up suddenly like that!
How hard is not to watch you.
We had got to the stage of not talking
and not worrying, and that
was almost happy. Then, late,
When you lay on one elbow on the carpet
I could feel nothing but that hot knife
of pain telling me what it was
and I can't tell you about it, not one word.