sexta-feira, 31 de julho de 2015

algumas poesias de Patrizia Cavalli

§

Se você batesse agora à minha porta
e tirasse os seus óculos
e eu tirasse os meus que são iguais
e então você entrasse na minha boca
sem temer beijos desiguais
e me dissesse: "Meu bem,
mas o que aconteceu?", seria a peça
um acontecimento teatral.

§

Quantas tentações atravesso
no percurso entre o quarto
e a cozinha, entre a cozinha
e o banheiro. Uma mancha
na parede, um pedaço de papel
caído no chão, um copo d´água,
um olhar pela janela,
oi para a vizinha,
um cafuné na gata.
Assim esqueço-me sempre
da ideia principal, me perco
no caminho, me quebro
dia após dia e é inútil
tentar qualquer volta.



via: http://revistamododeusar.blogspot.de/2014/02/patrizia-cavalli.html
traduzido por Ricardo Domeneck

Feitio de Oração, de Waly Salomão

Arenga da agonia, de Waly Salomão

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Poema Abraço, de Murilo Mendes

Sim: letra e nuvem
lutam com os sonhos
Pela posse do poema.

O sino da tempestade
Convida a criação às núpcias,
O véu da ternura desce
Sobre a carne inconformada.

A página aberta do livro
Mostra a inicial de Altair.
Responde o clarim augusto:

_Vestida de água e céu
Voas acima do tempo.
No espelho do futuro
Te assisto refletida.
Serás tu mesma? Ou sou eu.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

michel serres

Aí, começa, verdadeiramente, a história. Como dois labirintos tão complicados podem se encontrar, se sobrepor, se complementar? Ariadne se perde no Teseu. Teseu não se encontra nas avenidas e entroncamentos traçados no monte de Ariadne. Seria preciso conceber a relação de duas espécies, dois gêneros, dois reinos, tigre e pavão, zebra e jaguar, joaninha e papoula, centopéia e calcedônia, um camaleão em mármore. Acontecem milagres, alguns tigres ou tiglões sobrevivem a duras penas. Ou melhor, é preciso que Ariadne se torne branca, que Teseu reenrole em sua roca todos os fios que embaraçam e dividem o corpo multicor de Ariadne. Nossa alma de superfície, salvo milagre, cria obstáculo a nossos amores, como se tivéssemos uma couraça de tatuagens. É preciso depor a couraça, fundir os mapas dos caminhos e das encruzilhadas, descobrir a alma ou fazê-la arder de outra maneira, para que as chamas se misturem.  Quando a alma entra em um órgão, ele adquire consciência e a perde. Se o dedo toca o lábio e se diz eu, a boca torna-se objeto, mas na verdade o dedo se perde [...] A alma, como poças, forma a tatuagem, o conjunto dessas linhas cruzadas desenha um campo de forças: o espaço da pressão extraordinária da alma para apagar docemente as sombras do corpo, e os recursos máximos do corpo para resistir a esse esforço. Na pele, a alma e o objeto se avizinham, avançam, ganham ou perdem terreno, mistura demorada e vaporosa do eu e do corpo negro, de onde sai, em um dado momento, a cauda de pavão de cores misturadas. A luta termina com o corpo místico branco de alabastro. Não sou mais nada. Ou com o corpo cibernético, caixa-preta, outro nada. A transfiguração extática, perda do corpo na alma, retira a tatuagem. O descascamento obtido, o autômato perfeito também a retiram da caixa-preta total. Assim, o corpo misturado, encontra-se no meio, entre o céu e o inferno: no espaço cotidiano.


fonte: http://bdtd.bce.unb.br/tedesimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=6099 pg 113

terça-feira, 26 de maio de 2015

Stela do Patrocínio, em diagramação de sua fala por Viviane Mosé

Não sou eu que gosto de nascer
Eles é que me botam para nascer todo dia
E sempre que eu morro me ressuscitam
Me encarnam me desencarnam me reencarnam
Me formam em menos de um segundo
Se eu sumir desaparecer eles me procuram onde eu estiver
Pra estar olhando pro gás pras paredes pro teto
Ou pra cabeça deles e pro corpo deles


fonte: http://revistamododeusar.blogspot.de/2013/05/stela-do-patrocinio-1941-1997.html

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Beasts Bounding Through Time, por Charles Bukowski

Van Gogh writing his brother for paints
Hemingway testing his shotgun
Celine going broke as a doctor of medicine
the impossibility of being human
Villon expelled from Paris for being a thief
Faulkner drunk in the gutters of his town
the impossibility of being human
Burroughs killing his wife with a gun
Mailer stabbing his
the impossibility of being human
Maupassant going mad in a rowboat
Dostoyevsky lined up against a wall to be shot
Crane off the back of a boat into the propeller
the impossibility
Sylvia with her head in the oven like a baked potato
Harry Crosby leaping into that Black Sun
Lorca murdered in the road by Spanish troops
the impossibility
Artaud sitting on a madhouse bench
Chatterton drinking rat poison
Shakespeare a plagiarist
Beethoven with a horn stuck into his head against deafness
the impossibility the impossibility
Nietzsche gone totally mad
the impossibility of being human
all too human
this breathing
in and out
out and in
these punks
these cowards
these champions
these mad dogs of glory
moving this little bit of light toward us
impossibly.


fonte: http://allpoetry.com/poem/10257717-Beasts-Bounding-Through-Time-by-Charles-Bukowski