domingo, 27 de setembro de 2015

Susana Thénon (Buenos Aires, 1935 - 1991), dois poemas

isso que se chamava aquilo
agora é "isto"
aliás "algo"
aliás "a coisa"
e no lapso que vai da segunda linha à anterior
trocou-se o mesmo pelo mesmo
e "isto" continua com mais
com peróxido

um monte ululante de não sei o quê
se juntou
na frente da igreja
isso que se chamava aquilo
agora é "isto"
e no fim era o Nome

***

bem
estou morta
e quero me divertir
vamos
onde está tudo?
não tem ninguém?
sim
sim
passa um brilho pela janela
estou do lado de fora
você do lado de dentro
brinca com o espelho
me tapa um olho com sol
bem feito
porque estou morta
e quero me divertir
já posso entrar?
ainda não?
que espere?
como antes?
um pouco mais?
como antes
os espelhos
o sol
eu do lado de fora
você do lado de dentro
não ainda?



via: facebook

terça-feira, 25 de agosto de 2015

A Flauta Vértebra, de Maiakóvski

A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.






Via Maurício. Pelo whatsapp.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

algumas poesias de Patrizia Cavalli

§

Se você batesse agora à minha porta
e tirasse os seus óculos
e eu tirasse os meus que são iguais
e então você entrasse na minha boca
sem temer beijos desiguais
e me dissesse: "Meu bem,
mas o que aconteceu?", seria a peça
um acontecimento teatral.

§

Quantas tentações atravesso
no percurso entre o quarto
e a cozinha, entre a cozinha
e o banheiro. Uma mancha
na parede, um pedaço de papel
caído no chão, um copo d´água,
um olhar pela janela,
oi para a vizinha,
um cafuné na gata.
Assim esqueço-me sempre
da ideia principal, me perco
no caminho, me quebro
dia após dia e é inútil
tentar qualquer volta.



via: http://revistamododeusar.blogspot.de/2014/02/patrizia-cavalli.html
traduzido por Ricardo Domeneck

Feitio de Oração, de Waly Salomão

Arenga da agonia, de Waly Salomão

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Poema Abraço, de Murilo Mendes

Sim: letra e nuvem
lutam com os sonhos
Pela posse do poema.

O sino da tempestade
Convida a criação às núpcias,
O véu da ternura desce
Sobre a carne inconformada.

A página aberta do livro
Mostra a inicial de Altair.
Responde o clarim augusto:

_Vestida de água e céu
Voas acima do tempo.
No espelho do futuro
Te assisto refletida.
Serás tu mesma? Ou sou eu.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

michel serres

Aí, começa, verdadeiramente, a história. Como dois labirintos tão complicados podem se encontrar, se sobrepor, se complementar? Ariadne se perde no Teseu. Teseu não se encontra nas avenidas e entroncamentos traçados no monte de Ariadne. Seria preciso conceber a relação de duas espécies, dois gêneros, dois reinos, tigre e pavão, zebra e jaguar, joaninha e papoula, centopéia e calcedônia, um camaleão em mármore. Acontecem milagres, alguns tigres ou tiglões sobrevivem a duras penas. Ou melhor, é preciso que Ariadne se torne branca, que Teseu reenrole em sua roca todos os fios que embaraçam e dividem o corpo multicor de Ariadne. Nossa alma de superfície, salvo milagre, cria obstáculo a nossos amores, como se tivéssemos uma couraça de tatuagens. É preciso depor a couraça, fundir os mapas dos caminhos e das encruzilhadas, descobrir a alma ou fazê-la arder de outra maneira, para que as chamas se misturem.  Quando a alma entra em um órgão, ele adquire consciência e a perde. Se o dedo toca o lábio e se diz eu, a boca torna-se objeto, mas na verdade o dedo se perde [...] A alma, como poças, forma a tatuagem, o conjunto dessas linhas cruzadas desenha um campo de forças: o espaço da pressão extraordinária da alma para apagar docemente as sombras do corpo, e os recursos máximos do corpo para resistir a esse esforço. Na pele, a alma e o objeto se avizinham, avançam, ganham ou perdem terreno, mistura demorada e vaporosa do eu e do corpo negro, de onde sai, em um dado momento, a cauda de pavão de cores misturadas. A luta termina com o corpo místico branco de alabastro. Não sou mais nada. Ou com o corpo cibernético, caixa-preta, outro nada. A transfiguração extática, perda do corpo na alma, retira a tatuagem. O descascamento obtido, o autômato perfeito também a retiram da caixa-preta total. Assim, o corpo misturado, encontra-se no meio, entre o céu e o inferno: no espaço cotidiano.


fonte: http://bdtd.bce.unb.br/tedesimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=6099 pg 113