Nunca se sabe
quando estamos num lugar
pela última vez. Numa casa
que vai ser demolida, numa sala
provisória que vai encerrar, num velho
café que mudará de ramo, como
página virada jamais reaberta, como
canção demasiada gasta, como
abraço tornado irrepetível, numa
porta a que não voltaremos.
via opoemaensinaacair
sábado, 6 de junho de 2020
Sá de Miranda Carneiro, de Alexandre O'Neill
comigo me desavim
eu não sou eu nem sou o outro
sou posto em todo perigo
sou qualquer coisa de intermédio
não posso viver comigo
pilar da ponte de tédio
não posso viver sem mim
que vai de mim para o Outro
via opoemaensinaacair
eu não sou eu nem sou o outro
sou posto em todo perigo
sou qualquer coisa de intermédio
não posso viver comigo
pilar da ponte de tédio
não posso viver sem mim
que vai de mim para o Outro
via opoemaensinaacair
sábado, 30 de maio de 2020
Não aquele que diz, de Mary Oliver, tradução de Jorge Sousa Braga
Não aquele que diz “Vou ser
cauteloso e inteligente em matéria de amor”
Não aquele que diz ”Vou escolher lentamente”
mas aqueles que não escolheram
e foram escolhidos
por algo invisível e poderoso e incontrolável
e belo e possivelmente mesmo
inadequado—
aqueles que sabem do que falo
quando falo de amor
via opoemaensinaacair
cauteloso e inteligente em matéria de amor”
Não aquele que diz ”Vou escolher lentamente”
mas aqueles que não escolheram
e foram escolhidos
por algo invisível e poderoso e incontrolável
e belo e possivelmente mesmo
inadequado—
aqueles que sabem do que falo
quando falo de amor
via opoemaensinaacair
quarta-feira, 27 de maio de 2020
Manifesto, de Nicanor Parra, Tradução de Joana Barossi e Cide Piquet
Senhoras e senhores
Esta é nossa última palavra
- Nossa primeira e última palavra -
Os poetas baixaram do Olimpo.
Para os mais velhos
A poesia foi um objeto de luxo
Mas para nós
É um artigo de primeira necessidade:
Não podemos viver sem poesia.
Diferentemente dos mais velhos
- E digo isso com todo respeito -
Nós sustentamos
Que o poeta não é um alquimista
O poeta é um homem qualquer
Um pedreiro que constrói seu muro:
Um construtor de portas e janelas.
Nós conversamos
Na linguagem do dia a dia
Não acreditamos em signos cabalísticos.
E tem mais:
O poeta está aí
Para que a árvore não cresça torta.
Esta é a nossa mensagem.
Nós denunciamos o poeta demiurgo
O poeta Barata
O poeta Rato de Biblioteca.
Todos esses senhores
- E digo isso com muito respeito -
Devem ser processados e julgados
Por construir castelos no ar
Por desperdiçar espaço e tempo
Escrevendo sonetos à lua
Por agrupar palavras ao acaso
À última moda de Paris.
Para nós, não:
O pensamento não nasce na boca
Nasce no coração do coração.
Nós repudiamos
A poesia de óculos escuros
A poesia de capa e espada
A poesia de chapéu de aba larga.
Por outro lado, propiciamos
A poesia de olhos abertos
A poesia de peito aberto
A poesia de cabeça descoberta.
Não acreditamos em ninfas nem tritões.
A poesia tem que ser isto:
Uma garota rodeada de espigas
Ou não ser absolutamente nada.
Agora sim, no plano político
Eles, nossos avós imediatos,
Nossos bons avós imediatos!
Se refrataram e se dispersaram
Ao passar pelo prisma de cristal.
Uns poucos se tornaram comunistas.
Bom, não sei se o foram de fato.
Suponhamos que foram comunistas
O que sei é o seguinte:
Não foram poetas populares
Foram veneráveis poetas burgueses.
Há que dizer as coisas como são:
Apenas um ou outro
Soube chegar ao coração do povo.
Cada vez que puderam
Se declararam em palavras e ações
Contra a poesia engajada
Contra a poesia do presente
Contra a poesia proletária.
Aceitemos que foram comunistas
Mas a poesia foi um desastre
Surrealismo de segunda mão
Decadentismo de terceira mão
Tábuas velhas devolvidas pelo mar.
Poesia adjetiva
Poesia nasal e gutural
Poesia arbitrária
Poesia copiada dos livros
Poesia baseada
Na revolução da palavra
Quando deveria se fundar
Na revolução das ideias.
Poesia de círculo vicioso
Para meia dúzia de eleitos:
“Liberdade absoluta de expressão”.
Hoje nos persignamos perguntando
Para que escreveriam essas coisas -
Para assustar o pequeno-burguês?
Tempo perdido miseravelmente!
O pequeno-burguês não reage
Senão quando se trata do estômago.
Como vão assustá-lo com poesias!
A situação é esta:
Enquanto eles defendiam
Uma poesia do crepúsculo
Uma poesia da noite
Nós propugnamos
A poesia do amanhecer.
Esta é a nossa mensagem
Os resplendores da poesia
Devem chegar a todos igualmente
A poesia é bastante para todos.
É isso, companheiros
Nós condenamos
- E isto, sim, digo com respeito -
A poesia de pequeno deus
A poesia de vaca sagrada
A poesia de touro furioso.
Contra a poesia das nuvens
Nós opomos
A poesia da terra firme
- Cabeça fria, coração quente
Somos terrafirmistas convictos -
Contra a poesia dos cafés
A poesia da natureza
Contra a poesia de salão
A poesia da praça pública
A poesia de protesto social.
Os poetas baixaram do Olimpo.
Esta é nossa última palavra
- Nossa primeira e última palavra -
Os poetas baixaram do Olimpo.
Para os mais velhos
A poesia foi um objeto de luxo
Mas para nós
É um artigo de primeira necessidade:
Não podemos viver sem poesia.
Diferentemente dos mais velhos
- E digo isso com todo respeito -
Nós sustentamos
Que o poeta não é um alquimista
O poeta é um homem qualquer
Um pedreiro que constrói seu muro:
Um construtor de portas e janelas.
Nós conversamos
Na linguagem do dia a dia
Não acreditamos em signos cabalísticos.
E tem mais:
O poeta está aí
Para que a árvore não cresça torta.
Esta é a nossa mensagem.
Nós denunciamos o poeta demiurgo
O poeta Barata
O poeta Rato de Biblioteca.
Todos esses senhores
- E digo isso com muito respeito -
Devem ser processados e julgados
Por construir castelos no ar
Por desperdiçar espaço e tempo
Escrevendo sonetos à lua
Por agrupar palavras ao acaso
À última moda de Paris.
Para nós, não:
O pensamento não nasce na boca
Nasce no coração do coração.
Nós repudiamos
A poesia de óculos escuros
A poesia de capa e espada
A poesia de chapéu de aba larga.
Por outro lado, propiciamos
A poesia de olhos abertos
A poesia de peito aberto
A poesia de cabeça descoberta.
Não acreditamos em ninfas nem tritões.
A poesia tem que ser isto:
Uma garota rodeada de espigas
Ou não ser absolutamente nada.
Agora sim, no plano político
Eles, nossos avós imediatos,
Nossos bons avós imediatos!
Se refrataram e se dispersaram
Ao passar pelo prisma de cristal.
Uns poucos se tornaram comunistas.
Bom, não sei se o foram de fato.
Suponhamos que foram comunistas
O que sei é o seguinte:
Não foram poetas populares
Foram veneráveis poetas burgueses.
Há que dizer as coisas como são:
Apenas um ou outro
Soube chegar ao coração do povo.
Cada vez que puderam
Se declararam em palavras e ações
Contra a poesia engajada
Contra a poesia do presente
Contra a poesia proletária.
Aceitemos que foram comunistas
Mas a poesia foi um desastre
Surrealismo de segunda mão
Decadentismo de terceira mão
Tábuas velhas devolvidas pelo mar.
Poesia adjetiva
Poesia nasal e gutural
Poesia arbitrária
Poesia copiada dos livros
Poesia baseada
Na revolução da palavra
Quando deveria se fundar
Na revolução das ideias.
Poesia de círculo vicioso
Para meia dúzia de eleitos:
“Liberdade absoluta de expressão”.
Hoje nos persignamos perguntando
Para que escreveriam essas coisas -
Para assustar o pequeno-burguês?
Tempo perdido miseravelmente!
O pequeno-burguês não reage
Senão quando se trata do estômago.
Como vão assustá-lo com poesias!
A situação é esta:
Enquanto eles defendiam
Uma poesia do crepúsculo
Uma poesia da noite
Nós propugnamos
A poesia do amanhecer.
Esta é a nossa mensagem
Os resplendores da poesia
Devem chegar a todos igualmente
A poesia é bastante para todos.
É isso, companheiros
Nós condenamos
- E isto, sim, digo com respeito -
A poesia de pequeno deus
A poesia de vaca sagrada
A poesia de touro furioso.
Contra a poesia das nuvens
Nós opomos
A poesia da terra firme
- Cabeça fria, coração quente
Somos terrafirmistas convictos -
Contra a poesia dos cafés
A poesia da natureza
Contra a poesia de salão
A poesia da praça pública
A poesia de protesto social.
Os poetas baixaram do Olimpo.
[Prometi a mim mesmo], excerto de Ron Padgett
Prometi a mim mesmo
explorar o meu vazio
o espaço que ocupo
e não ocuparei
mas continuo à espera
à espera
via opoemaensinaacair
explorar o meu vazio
o espaço que ocupo
e não ocuparei
mas continuo à espera
à espera
via opoemaensinaacair
Poema de Amor, de Jorge Sousa Braga
Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que não
te coubesse no dedo
via opoemaensinaacair
e quase ia morrendo com o receio de que não
te coubesse no dedo
via opoemaensinaacair
[não é de dor], trecho de Maria Velho da Costa
Não é de dor que se enlouquece,
é de não querer lembrar a dor.
via opoemaensinaacair
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