Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.
Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,
(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta-
mento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.
De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.
Não te perdi a ti,
perdi o mundo.
tradução de Judite Berkemeier e João Barrento
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De uso comum: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as xícaras de chá, a cesta de pão, lençóis de linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados, gastos.
Uma ordem doméstica respeitada. Dito. Feito. E sempre a mão estendida.
Apaixonei-me por invernos, por um septeto vienense e por verões.
Por mapas, por um canto na montanha, por uma praia e por uma cama.
Mantive um culto a datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei um algo e fui devota de um nada,
(- do jornal dobrado, das cinzas frias, do papel com uma anotação)
sem temer a religião, pois a igreja era essa cama.
Minha inesgotável pintura surgiu de olhar o mar.
Da varanda saudava os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, meus cabelos tinham sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme para minha alegria.
Não foste tu que perdi,
mas o mundo.
tradução de Claudia Cavalcanti
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
From the House of Yemanjá, de Audre Lorde, tradução de Thamires Zabotto
From the House of Yemanjá
My mother had two faces and a frying pot
where she cooked up her daughters
into girls
before she fixed our dinner.
My mother had two faces
and a broken pot
where she hid out a perfect daughter
who was not me
I am the sun and moon and forever hungry
for her eyes.
I bear two women upon my back
one dark and rich and hidden
in the ivory hungers of the other mother
pale as a witch
yet steady and familiar
brings me bread and terror
in my sleep
her breasts are huge exciting anchors
in the midnight storm.
All this has been
before
in my mother’s bed
time has no sense
I have no brothers
and my sisters are cruel.
Mother I need
mother I need
mother I need your blackness now
as the august earth needs rain.
I am
the sun and moon and forever hungry
the sharpened edge
where day and night shall meet
and not be
one.
Da casa de Iemanjá
Minha mãe tinha duas faces e uma frigideira
onde ela cozinhava suas filhas
para serem garotas
antes de fazer nossa janta.
Minha mãe tinha duas faces
e uma panela quebrada
onde escondeu a filha perfeita
que não era eu
Eu sou o sol e a lua e para sempre faminta
de seus olhos.
Carrego duas mulheres nas minhas costas
uma negra e rica e escondida
nas fomes ebúrneas da outra
mãe
pálida como uma bruxa
mas estável e familiar
me traz pão e terror
no meu sono
seus seios são enormes fascinantes âncoras
na tempestade da meia-noite.
Tudo isto foi
antes
na cama da minha mãe
o tempo não tem sentido
não tenho irmãos
e minhas irmãs são cruéis.
Mãe eu preciso
mãe eu preciso
mãe eu preciso de sua negritude agora
como a terra de agosto precisa de chuva.
Eu sou
o sol e a lua e para sempre faminta
a faca aguçada
onde dia e noite se encontrarão
e não serão
um.
fonte: https://escamandro.wordpress.com/2015/01/14/a-invocacao-dos-orixas-na-poesia-de-audre-lorde-por-thamires-zabotto/
My mother had two faces and a frying pot
where she cooked up her daughters
into girls
before she fixed our dinner.
My mother had two faces
and a broken pot
where she hid out a perfect daughter
who was not me
I am the sun and moon and forever hungry
for her eyes.
I bear two women upon my back
one dark and rich and hidden
in the ivory hungers of the other mother
pale as a witch
yet steady and familiar
brings me bread and terror
in my sleep
her breasts are huge exciting anchors
in the midnight storm.
All this has been
before
in my mother’s bed
time has no sense
I have no brothers
and my sisters are cruel.
Mother I need
mother I need
mother I need your blackness now
as the august earth needs rain.
I am
the sun and moon and forever hungry
the sharpened edge
where day and night shall meet
and not be
one.
Da casa de Iemanjá
Minha mãe tinha duas faces e uma frigideira
onde ela cozinhava suas filhas
para serem garotas
antes de fazer nossa janta.
Minha mãe tinha duas faces
e uma panela quebrada
onde escondeu a filha perfeita
que não era eu
Eu sou o sol e a lua e para sempre faminta
de seus olhos.
Carrego duas mulheres nas minhas costas
uma negra e rica e escondida
nas fomes ebúrneas da outra
mãe
pálida como uma bruxa
mas estável e familiar
me traz pão e terror
no meu sono
seus seios são enormes fascinantes âncoras
na tempestade da meia-noite.
Tudo isto foi
antes
na cama da minha mãe
o tempo não tem sentido
não tenho irmãos
e minhas irmãs são cruéis.
Mãe eu preciso
mãe eu preciso
mãe eu preciso de sua negritude agora
como a terra de agosto precisa de chuva.
Eu sou
o sol e a lua e para sempre faminta
a faca aguçada
onde dia e noite se encontrarão
e não serão
um.
fonte: https://escamandro.wordpress.com/2015/01/14/a-invocacao-dos-orixas-na-poesia-de-audre-lorde-por-thamires-zabotto/
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
A Drinking Song de W. B. Yeats
Wine comes in at the mouth
And love comes in at the eye;
That’s all we shall know for truth
Before we grow old and die.
I lift the glass to my mouth,
I look at you, and I sigh
And love comes in at the eye;
That’s all we shall know for truth
Before we grow old and die.
I lift the glass to my mouth,
I look at you, and I sigh
domingo, 14 de dezembro de 2014
Vietnã, de Wislawa Szymborska
Mulher, como você se chama? – Não sei.
Quando você nasceu, de onde você vem? – Nao sei.
Para que cavou uma toca na terra? – Não sei.
Desde quanto está aqui escondida? – Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? – Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? – Não sei.
De que lado você está? – Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. – Não sei.
Esses são teus filhos? – São.
fonte: http://ronaldocostafernandes.blogspot.com.br/2014/04/vietna-poema-de-wislawa-szymborska.html
Quando você nasceu, de onde você vem? – Nao sei.
Para que cavou uma toca na terra? – Não sei.
Desde quanto está aqui escondida? – Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? – Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? – Não sei.
De que lado você está? – Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. – Não sei.
Esses são teus filhos? – São.
fonte: http://ronaldocostafernandes.blogspot.com.br/2014/04/vietna-poema-de-wislawa-szymborska.html
Carta, de C. Drummond
Bem quisera escrevê-la
com palavras sabidas,
as mesmas, triviais,
embora estremecessem
a um toque de paixão.
Perfurando os obscuros
canais de argila e sombra,
ela iria contando
que vou bem, e amo sempre
e amo cada vez mais
a essa minha maneira
torcida e reticente,
e espero uma resposta
mas que não tarde: e peço
um objeto minúsculo
só para dar prazer
e quem pode ofertá-lo;
diria ela do tempo
que faz do nosso lado;
as chuvas já secaram,
as crianças estudam,
uma última invenção
(inda não é perfeita)
faz ler nos corações,
mas todos esperamos
rever-nos bem depressa.
Muito depressa, não.
Vai-se tornando o tempo
estranhamente longo
à medida que encurta.
O que ontem disparava,
desbordado alazão,
hoje se paralisa
em esfinge de mármore,
e até o sono, o sono
que era grato e era absurdo
é um dormir acordado
numa planície grave.
Rápido é o sono, apenas,
que se vai, de mandar
notícias amorosas
quando não há amor
a dar ou receber;
quando só há lembrança,
ainda menos, pó,
menos ainda, nada,
nada de nada em tudo,
em mim mais do que em tudo,
e não vale acordar
quem acaso repousa
na colina sem árvores.
Contudo, esta é uma carta.
com palavras sabidas,
as mesmas, triviais,
embora estremecessem
a um toque de paixão.
Perfurando os obscuros
canais de argila e sombra,
ela iria contando
que vou bem, e amo sempre
e amo cada vez mais
a essa minha maneira
torcida e reticente,
e espero uma resposta
mas que não tarde: e peço
um objeto minúsculo
só para dar prazer
e quem pode ofertá-lo;
diria ela do tempo
que faz do nosso lado;
as chuvas já secaram,
as crianças estudam,
uma última invenção
(inda não é perfeita)
faz ler nos corações,
mas todos esperamos
rever-nos bem depressa.
Muito depressa, não.
Vai-se tornando o tempo
estranhamente longo
à medida que encurta.
O que ontem disparava,
desbordado alazão,
hoje se paralisa
em esfinge de mármore,
e até o sono, o sono
que era grato e era absurdo
é um dormir acordado
numa planície grave.
Rápido é o sono, apenas,
que se vai, de mandar
notícias amorosas
quando não há amor
a dar ou receber;
quando só há lembrança,
ainda menos, pó,
menos ainda, nada,
nada de nada em tudo,
em mim mais do que em tudo,
e não vale acordar
quem acaso repousa
na colina sem árvores.
Contudo, esta é uma carta.
sábado, 11 de janeiro de 2014
eu durmo comigo, de Angélica Freitas
eu durmo comigo
deitada de bruços eu durmo comigo
virada para a direita eu durmo comigo
eu durmo comigo abraçada comigo
não há noite tão longa em que não durma comigo
como um trovador eu durmo comigo
agarrado ao alaúde eu durmo comigo
debaixo da noite estrelada eu durmo comigo
eu durmo comigo enquanto os outros fazem aniversários
eu durmo comigo às vezes de óculos
e mesmo no escuro sei que estou dormindo comigo
e quem quiser dormir comigo
vai ter que dormir do lado.
deitada de bruços eu durmo comigo
virada para a direita eu durmo comigo
eu durmo comigo abraçada comigo
não há noite tão longa em que não durma comigo
como um trovador eu durmo comigo
agarrado ao alaúde eu durmo comigo
debaixo da noite estrelada eu durmo comigo
eu durmo comigo enquanto os outros fazem aniversários
eu durmo comigo às vezes de óculos
e mesmo no escuro sei que estou dormindo comigo
e quem quiser dormir comigo
vai ter que dormir do lado.
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
As cidades e a memória, 3, em As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino
Inutlimente, magnânimo Kublai, tentarei descrever a cidade de Zaíra dos altos bastiões. Poderia falar de quantos degraus são feitas as ruas em forma de escada, da circunferência dos arcos dos pórticos, de quais lâminas de zinco são recobertos os tetos; mas sei que seria o mesmo que não dizer nada. A cidade não é feita disso, mas das relações entre as medidas de seu espaço e os acontecimentos do passado: a distância do solo até um lampião e os pés pendentes de um usurpador enforcado; o fio esticado do lampião à balaustrada em frente e os festões que empavesavam o percurso do cortejo nupcial da rainha; a altura daquela balaustrada e o salto do adúltero que foge de madrugada; a inclinação de um canal que escoa a água das chuvas e o passo majestoso de um gato que se introduz numa janela; a linha de tiro da canhoneira que surge inesperadamente atrás do cabo e a bomba que destrói o canal; os rasgos nas redes de pesca e os três velhos remendando as redes que, sentados no molhe, contam pela milésima vez a história da canhoneira do usurpador, que dizem ser o filho ilegítimo da rainha, abandonado de cueiro ali sobre o molhe.
A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata. Uma descrição de Zaíra como é atualmente deveria conter todo o passado de Zaíra. Mas a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grandes das janelas, nos corrimão das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras.
tradução de Diogo Mainardi
A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata. Uma descrição de Zaíra como é atualmente deveria conter todo o passado de Zaíra. Mas a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grandes das janelas, nos corrimão das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras.
tradução de Diogo Mainardi
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