No Pão de Açúcar
De Cada Dia
Dai-nos Senhor
A Poesia
De Cada Dia
via: Caê
quarta-feira, 6 de julho de 2016
sábado, 2 de julho de 2016
Canção da infância, de Peter Handke, tradução de Júlia Frate Bolliger
Quando a criança era criança
Andava com os braços soltos balançando,
Queria que o riacho fosse um rio,
Que o rio fosse uma correnteza,
E essa poça, o mar.
Quando a criança era criança,
ela não sabia que era criança,
Tudo, para ela, tinha alma
E todas as almas eram uma.
Quando a criança era criança,
Não tinha opinião sobre nada,
Não tinha hábito nenhum,
sentava muito de pernas cruzadas,
saía correndo,
tinha um redemoinho no cabelo
e não fazia cara alguma quando fotografada.
Quando a criança era criança,
Era o tempo das seguintes perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que eu estou aqui e não lá?
Quando começa o tempo e onde termina o espaço?
Não é a vida debaixo do sol um mero sonho?
Não é o que eu vejo, escuto e cheiro,
apenas o brilho de um mundo antes do mundo?
Existe realmente o Mal e pessoas
que realmente são as pessoas más?
Como pode ser que eu, que eu sou,
antes de ser, não era,
e que uma hora eu, que eu sou,
não mais serei o que eu sou?
Quando a criança era criança,
Engasgava com espinafre, ervilhas e arroz-doce
e com couve-flor no vapor
e come agora isso tudo e não só porque precisa.
Quando a criança era criança,
acordou uma vez em uma cama estranha
e agora isso acontece sempre,
muitas pessoas se mostravam belas para ela,
e agora só num acaso feliz,
ela tinha uma imagem clara do paraíso
e pode agora, no máximo, ter um pressentimento,
podia não pensar para si o nada
e hoje se arrepia ante isso.
Quando a criança era criança,
brincava com entusiasmo
e agora, tem tanto gosto pelo que faz, como antes, mas só
quando se trata de trabalho.
Quando a criança era criança,
pão, maçã, eram alimento suficiente,
e ainda é assim.
Quando a criança era criança,
caíam-lhe as frutinhas na mão como apenas frutinhas
e agora ainda caem,
nozes frescas faziam sua língua ficar áspera
e ainda fazem,
teve em cima de cada montanha,
a ansiedade pela montanha sempre mais alta,
e em cada cidade,
a ansiedade pela cidade ainda maior,
e ainda é assim sempre,
agarrava a árvore no topo atrás da cereja em euforia
como ainda hoje também,
uma vergonha na frente de cada estranho
e ela, toda vez,
esperou pela primeira neve,
e ainda sempre espera.
Quando a criança era criança,
jogou um pedaço de pau como uma lança contra a árvore,
e ela ainda hoje trepida lá.
Izaac Augusto me apresentou, mas a tradução que achei foi:
http://economia.estadao.com.br/blogs/joao-villaverde/domingo-2/
Andava com os braços soltos balançando,
Queria que o riacho fosse um rio,
Que o rio fosse uma correnteza,
E essa poça, o mar.
Quando a criança era criança,
ela não sabia que era criança,
Tudo, para ela, tinha alma
E todas as almas eram uma.
Quando a criança era criança,
Não tinha opinião sobre nada,
Não tinha hábito nenhum,
sentava muito de pernas cruzadas,
saía correndo,
tinha um redemoinho no cabelo
e não fazia cara alguma quando fotografada.
Quando a criança era criança,
Era o tempo das seguintes perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que eu estou aqui e não lá?
Quando começa o tempo e onde termina o espaço?
Não é a vida debaixo do sol um mero sonho?
Não é o que eu vejo, escuto e cheiro,
apenas o brilho de um mundo antes do mundo?
Existe realmente o Mal e pessoas
que realmente são as pessoas más?
Como pode ser que eu, que eu sou,
antes de ser, não era,
e que uma hora eu, que eu sou,
não mais serei o que eu sou?
Quando a criança era criança,
Engasgava com espinafre, ervilhas e arroz-doce
e com couve-flor no vapor
e come agora isso tudo e não só porque precisa.
Quando a criança era criança,
acordou uma vez em uma cama estranha
e agora isso acontece sempre,
muitas pessoas se mostravam belas para ela,
e agora só num acaso feliz,
ela tinha uma imagem clara do paraíso
e pode agora, no máximo, ter um pressentimento,
podia não pensar para si o nada
e hoje se arrepia ante isso.
Quando a criança era criança,
brincava com entusiasmo
e agora, tem tanto gosto pelo que faz, como antes, mas só
quando se trata de trabalho.
Quando a criança era criança,
pão, maçã, eram alimento suficiente,
e ainda é assim.
Quando a criança era criança,
caíam-lhe as frutinhas na mão como apenas frutinhas
e agora ainda caem,
nozes frescas faziam sua língua ficar áspera
e ainda fazem,
teve em cima de cada montanha,
a ansiedade pela montanha sempre mais alta,
e em cada cidade,
a ansiedade pela cidade ainda maior,
e ainda é assim sempre,
agarrava a árvore no topo atrás da cereja em euforia
como ainda hoje também,
uma vergonha na frente de cada estranho
e ela, toda vez,
esperou pela primeira neve,
e ainda sempre espera.
Quando a criança era criança,
jogou um pedaço de pau como uma lança contra a árvore,
e ela ainda hoje trepida lá.
Izaac Augusto me apresentou, mas a tradução que achei foi:
http://economia.estadao.com.br/blogs/joao-villaverde/domingo-2/
domingo, 19 de junho de 2016
Amavisse VIII, de Hilda Hilst
AMAVISSE
VIII
Guardo-vos manhãs de terracota e azul
Quando o meu peito tingido de vermelho
Vivia a dissolvência da paixão.
O capim calcinado das queimadas
Tinha o cheiro da vida, e os atalhos
Estreitos tinham tudo a ver com o desmedido
E as águas do universo se faziam parcas
Para afogar meu verso. Guardo-vos, iluminadas
Recendentes manhãs tão irreais no hoje
Como fazer nascer girassóis no topázio
E dos rubis, romãs.
VIII
Guardo-vos manhãs de terracota e azul
Quando o meu peito tingido de vermelho
Vivia a dissolvência da paixão.
O capim calcinado das queimadas
Tinha o cheiro da vida, e os atalhos
Estreitos tinham tudo a ver com o desmedido
E as águas do universo se faziam parcas
Para afogar meu verso. Guardo-vos, iluminadas
Recendentes manhãs tão irreais no hoje
Como fazer nascer girassóis no topázio
E dos rubis, romãs.
quarta-feira, 11 de maio de 2016
Razões adicionais para os poetas mentirem, de Hans Magnus Enzensberger
Porque o momento
no qual a palavra feliz
é pronunciada,
jamais é o momento feliz.
Porque quem morre de sede
não pronuncia sua sede
Porque na boca da classe operária
não existe a palavra classe operária.
Porque quem desespera
não tem vontade de dizer:
“Sou um desesperado”.
Porque orgasmo e orgasmo
não são conciliáveis.
Porque o moribundo em vez de alegar:
“Estou morrendo”
só deixa perceber um ruído surdo
que não compreendemos.
Porque são os vivos
que chateiam os mortos
com suas notícias catastróficas.
Porque as palavras chegam tarde demais,
ou cedo demais
Porque, portanto, é sempre um outro,
sempre um outro
quem fala por aí,
e porque aquele
do qual se fala
se cala.
Via Aline do Carmo
no qual a palavra feliz
é pronunciada,
jamais é o momento feliz.
Porque quem morre de sede
não pronuncia sua sede
Porque na boca da classe operária
não existe a palavra classe operária.
Porque quem desespera
não tem vontade de dizer:
“Sou um desesperado”.
Porque orgasmo e orgasmo
não são conciliáveis.
Porque o moribundo em vez de alegar:
“Estou morrendo”
só deixa perceber um ruído surdo
que não compreendemos.
Porque são os vivos
que chateiam os mortos
com suas notícias catastróficas.
Porque as palavras chegam tarde demais,
ou cedo demais
Porque, portanto, é sempre um outro,
sempre um outro
quem fala por aí,
e porque aquele
do qual se fala
se cala.
Via Aline do Carmo
quinta-feira, 7 de abril de 2016
Quadrilha, de Lívia Maria Natália
Maria não amava João.
Apenas idolatrava seus pés escuros.
Quando João morreu,
assassinado pela PM,
Maria guardou todos seus sapatos.
Mais da poeta em http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2016/02/livia-natalia.html
Apenas idolatrava seus pés escuros.
Quando João morreu,
assassinado pela PM,
Maria guardou todos seus sapatos.
Mais da poeta em http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2016/02/livia-natalia.html
Rudyard Kipling
"Quando o rubor de um sol nascente caiu pela primeira vez no verde e no dourado do Eden,]
Nosso pai Adão sentou-se sob a Árvore e, com um graveto, riscou na argila;
E o primeiro e tosco desenho que o mundo viu foi um júbilo para o coração vigoroso desse homem,]
Até o Diabo cochichar, por trás da folhagem: "É bonito, mas será Arte?"
Nosso pai Adão sentou-se sob a Árvore e, com um graveto, riscou na argila;
E o primeiro e tosco desenho que o mundo viu foi um júbilo para o coração vigoroso desse homem,]
Até o Diabo cochichar, por trás da folhagem: "É bonito, mas será Arte?"
terça-feira, 15 de março de 2016
Oração, de Gregório de Matos
Na oração, que desaterra a terra,
Quer Deus que a quem está o cuidado dado,
Pregue que a vida é emprestado estado,
Mistérios mil, que desenterra enterra.
Quem não cuida de si, que é terra, erra,
Que o alto Rei, por afamado amado,
É quem assiste ao desvelado lado,
Da morte ao ar não desaferra, aferra.
Quem do mundo a mortal loucura cura,
A vontade de Deus sagrada agrada,
Firma-lhe a vida em atadura dura.
Ó voz zelosa que dobrada brada,
Já sei que a flor da formosura, usura,
Será no fim desta jornada nada.
fonte e vários outros trabalhos do poeta: http://www.elsonfroes.com.br/sonetario/matos.htm
Quer Deus que a quem está o cuidado dado,
Pregue que a vida é emprestado estado,
Mistérios mil, que desenterra enterra.
Quem não cuida de si, que é terra, erra,
Que o alto Rei, por afamado amado,
É quem assiste ao desvelado lado,
Da morte ao ar não desaferra, aferra.
Quem do mundo a mortal loucura cura,
A vontade de Deus sagrada agrada,
Firma-lhe a vida em atadura dura.
Ó voz zelosa que dobrada brada,
Já sei que a flor da formosura, usura,
Será no fim desta jornada nada.
fonte e vários outros trabalhos do poeta: http://www.elsonfroes.com.br/sonetario/matos.htm
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