terça-feira, 23 de abril de 2019

VÍNCULO, de Júlia de Carvalho Hansen

Vem por baixo da base a tua presença.
A tua presença me ativa a kundalini
alcançando a elevada onisciência
de uma cota quente
até a lombar pulsando.
Eu te sinto como um reforço
caído do céu pra me ajudar a ser quem sou.
Eu poderia me esforçar e te chamar de verão
mas você é a magia do vento combinado com o calor
rangendo o zinco dos telhados velhos desse bairro.
É o anjo de fogo que você desata em mim
o gatilho é o incêndio seu olhar, a vespa
zunindo em cima do capim.
O corpo todo intencionado
arrepio na coluna ondulando
pra dentro do casulo
só consegui me acalmar o suficiente
escrevendo 30 páginas
na primeira pessoa do plural
que se enrola de muitos modos
e se atém a tantos
nós.


via: facebook da autora

domingo, 21 de abril de 2019

Poema dum Funcionário Cansado, de António Ramos Rosa

A noite trocou-me os sonhos e as mãos 
dispersou-me os amigos 
tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo 
as casas engolem-nos 
sumimo-nos, 
estou num quarto só num quarto só 
com os sonhos trocados 
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado 
um funcionário triste 
a minha alma não acompanha a minha mão 
Débito e Crédito Débito e Crédito 
a minha alma não dança com os números tento escondê-la envergonhado 
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente 
e debitou-me na minha conta de empregado 
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar 
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever? 
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas 
Flor rapariga amigo menino 
irmão beijo namorada 
mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho 
palavras soterradas na prisão da minha vida 
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida 
num quarto só



via: Arthur Moura Campos

[não quero ter você], de Rupi Kaur

não quero ter você
para preencher minhas partes
vazias
quero ser plena sozinha
quero ser tão completa
que poderia iluminar a cidade
e só aí
quero ter você
porque nós dois juntos
botamos fogo em tudo

In: “Outros jeitos de usar a boca”, p. 59



via Kamilly

[se humanos fossem insetos], de Janaina Tokitaka

se humanos fossem insetos
não tenho dúvidas que seríamos
o besouro rola-esterco
arrastando eternamente
uma meticulosa esfera
moldada a partir de restos


do livro Pequenas armaduras
via Maria Luiza Rodrigues Souza

trecho de Donne,"O Êxtase", tradução de Augusto de Campos

“But as all several souls contain
Mixture of things, they know not what,
Love, these mixed souls, doth mix again,
And makes both one, each this and that”.

“Mas assim como as almas são misturas
Ignoradas, o amor reamalgama
A misturada alma de quem ama,
Compondo duas numa e uma em duas”.


in: Donne, Augusto de Campos e a tradução criativa
de Ana Helena Souza

segunda-feira, 4 de março de 2019

Rainer Maria Rilke (A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristovão Rilke)

Cavalgar, cavalgar, cavalgar, pela noite, pelo dia, pela noite.
Cavalgar, cavalgar, cavalgar.
E a coragem tornou-se tão lassa e a saudade tão grande. Não há mais montanhas, apenas uma árvore. Nada ousa levantar-se. Cabanas estrangeiras agacham-se sequiosas à beira de fontes lamacentas. Em nenhum lugar uma torre. E sempre o mesmo aspecto. É demais, ter dois olhos.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

[não pisaremos as fronteiras], de Carla Diacov

não pisaremos as fronteiras
amor dos ombros meus
pisaremos ladeiras clarinetes e balas de goma
mas não as fronteiras
dê cá tua palma esquerda
não pisaremos aqui e nem aqui
não pisaremos o pescoço
mas pisaremos o dorso
nunca a virilha
mas as pernas
dê cá tua blusa
dê cá tua casa
dê cá teu idioma
dê cá tuas paixões
não pisaremos as páginas mas pisaremos os números
amor dos ombros meus
pisaremos as armadilhas o sexo das sombras
a explosão roxa das jabuticabas
sentimentais
pisaremos as jabuticabas
descalços
as jabuticabas


via: Ricardo Domeneck no facebook