domingo, 19 de junho de 2016

Amavisse VIII, de Hilda Hilst

AMAVISSE

VIII

Guardo-vos manhãs de terracota e azul
Quando o meu peito tingido de vermelho
Vivia a dissolvência da paixão.
O capim calcinado das queimadas
Tinha o cheiro da vida, e os atalhos
Estreitos tinham tudo a ver com o desmedido
E as águas do universo se faziam parcas
Para afogar meu verso. Guardo-vos, iluminadas
Recendentes manhãs tão irreais no hoje
Como fazer nascer girassóis no topázio
E dos rubis, romãs.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Razões adicionais para os poetas mentirem, de Hans Magnus Enzensberger

Porque o momento
no qual a palavra feliz
é pronunciada,
jamais é o momento feliz.
Porque quem morre de sede
não pronuncia sua sede
Porque na boca da classe operária
não existe a palavra classe operária.
Porque quem desespera
não tem vontade de dizer:
“Sou um desesperado”.
Porque orgasmo e orgasmo
não são conciliáveis.
Porque o moribundo em vez de alegar:
“Estou morrendo”
só deixa perceber um ruído surdo
que não compreendemos.
Porque são os vivos
que chateiam os mortos
com suas notícias catastróficas.
Porque as palavras chegam tarde demais,
ou cedo demais
Porque, portanto, é sempre um outro,
sempre um outro
quem fala por aí,
e porque aquele
do qual se fala
se cala.


Via Aline do Carmo

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Quadrilha, de Lívia Maria Natália

Maria não amava João.
Apenas idolatrava seus pés escuros.
Quando João morreu,
assassinado pela PM,
Maria guardou todos seus sapatos.


Mais da poeta em http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2016/02/livia-natalia.html

Rudyard Kipling

"Quando o rubor de um sol nascente caiu pela primeira vez no verde e no dourado do Eden,]
Nosso pai Adão sentou-se sob a Árvore e, com um graveto, riscou na argila;
E o primeiro e tosco desenho que o mundo viu foi um júbilo para o coração vigoroso desse homem,]
Até o Diabo cochichar, por trás da folhagem: "É bonito, mas será Arte?"

terça-feira, 15 de março de 2016

Oração, de Gregório de Matos

Na oração, que desaterra a terra,
Quer Deus que a quem está o cuidado dado,
Pregue que a vida é emprestado estado,
Mistérios mil, que desenterra enterra.

Quem não cuida de si, que é terra, erra,
Que o alto Rei, por afamado amado,
É quem assiste ao desvelado lado,
Da morte ao ar não desaferra, aferra.

Quem do mundo a mortal loucura cura,
A vontade de Deus sagrada agrada,
Firma-lhe a vida em atadura dura.

Ó voz zelosa que dobrada brada,
Já sei que a flor da formosura, usura,
Será no fim desta jornada nada.



fonte e vários outros trabalhos do poeta: http://www.elsonfroes.com.br/sonetario/matos.htm

domingo, 31 de janeiro de 2016

divina violência, de William Zeytounlian

O CINISMO PEDE AOS DESPOSSUÍDOS QUE ACEITEM O ULTRAJE COMO UM DEVER MORAL. O ÚNICO DEVER MORAL DOS DESPOSSUIDOS É DESTRUIR O CINISMO COM ULTRAJE.

haveria –
ode ou elogio –
senda sutil
ou suportável –
em que eu pudesse
ponderar o indizível,
em que eu pudesse
inscrever o que é
execrado;
                     para que um
                     entendimento
                     transtornado
                     se tornasse,
                     enfim,
                     inteligível?




via: http://revistamododeusar.blogspot.de/2014/01/william-zeytounlian.html

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

POEMA DE WINGSTON GONZÁLEZ, tradução de Ricardo Domeneck

RETRATO COM MADONNA, SANTOS E CELEIRO você encontra
câmera na mão, abraça o sal do universo
a reproduz, a reescreve, desconstroi
o som da água quando o corpo se desespera

emas correm por tundra assombrosa
destruição de peitos, presenças fixas, perguntas
coisas óbvias, lugar exato, sentido, palavra limpa
folhas de joio, exaltada, uma voz pergunta
por que uma ema correria pela tundra se mal
sei o que é tundra, se mal imaginei a ema, se mal
sua imagem incompleta, seu traço de praga, esse
retrato que rompe este poema, a pequena hermenêutica
da plenitude difícil dos beijos, das fotografias
na parede de seu quarto, suas lembranças
cheias de ressonâncias mortas, o quê
que significa estar cheio
se há que quebrar tudo, o que significa o verdor
detrás de porta e nuvem de cigarros a dois centímetros do teto
desenhando um corpo, secando pele que sua
sombra do nosferatu, jovens britânicos
pub fantasma de Yorkshire, periferia maldita
possibilidade monstruosa, debruçada
no frontispício de um cinema que abandonamos
a fantasmas que nunca vieram a estas vilas, dentro
do ventre de uma batalha contra imagem afundada
em sofás baratos, tv technicolor, do lado da herança
a miséria de parente estrangeiro cuja caveira prende-se
ao zíper da calça enquanto a água golpeia
suas lembranças, dispersas, o tempo atípico
o leve simulacro de tradução que soa nas palavras
escrevo para você, animal intraduzível
quando em O brother where art thou brilha ajoelhado
esse mesmo menino, dentro da canção
dos três coveiros negros cavando chuva muito longe
longe
do lugar em que o encontra, redundante, inútil
bar alegre e piedade escura, insolação adolescente irritável
você lança
o laço, telefonema, tela plasma
a ele que não é valente, que não é bravo, que jamais
arruma coragem para embebedar-se e perder
o controle que resta da vida; vaso ao oceano
ou hipopótamo que fala de amor diante dum ataúde
já não sei, a vida, já não sei onde erguer
o garoto ensebado que às duas da tarde
acorda um domingo e pensa
no fundo ofendido desta cidade, nesta marcha
que exibe o espectro imantado
do meu cabelo água, cabelo luz, cabelo placidez municipal
nota fiscal incendiária que dança como o mar

como uma prancha de felicidade numa vila
que não fala bem
da felicidade

(tradução de Ricardo Domeneck)

original e fonte: http://revistamododeusar.blogspot.de/2014/01/wingston-gonzalez.html