segunda-feira, 4 de março de 2019

Rainer Maria Rilke (A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristovão Rilke)

Cavalgar, cavalgar, cavalgar, pela noite, pelo dia, pela noite.
Cavalgar, cavalgar, cavalgar.
E a coragem tornou-se tão lassa e a saudade tão grande. Não há mais montanhas, apenas uma árvore. Nada ousa levantar-se. Cabanas estrangeiras agacham-se sequiosas à beira de fontes lamacentas. Em nenhum lugar uma torre. E sempre o mesmo aspecto. É demais, ter dois olhos.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

[não pisaremos as fronteiras], de Carla Diacov

não pisaremos as fronteiras
amor dos ombros meus
pisaremos ladeiras clarinetes e balas de goma
mas não as fronteiras
dê cá tua palma esquerda
não pisaremos aqui e nem aqui
não pisaremos o pescoço
mas pisaremos o dorso
nunca a virilha
mas as pernas
dê cá tua blusa
dê cá tua casa
dê cá teu idioma
dê cá tuas paixões
não pisaremos as páginas mas pisaremos os números
amor dos ombros meus
pisaremos as armadilhas o sexo das sombras
a explosão roxa das jabuticabas
sentimentais
pisaremos as jabuticabas
descalços
as jabuticabas


via: Ricardo Domeneck no facebook

terça-feira, 9 de outubro de 2018

poesia de Aglaja Veteranyi

A Varanda

A menina envelheceu, cresce-lhe um caixão
no ventre.
Os seios caem sobre a mesa.
Os amantes já estão mortos há tanto tempo, que todos se chamam Robert.
Antes de dormir a menina dirige-se à varanda.
Lá aguarda a sombra. Lá aguarda a lua.
A lua brota.
Brotar é uma canção.
As gotas de pétalas da lua caem sobre os pés da menina.
A lua dança, diz a menina. Ela dança para nós.


*

Rosmarie

Meu tio A Viagem tem uma mala cheia de vozes. E uma mulher e um cão. E o cão se chama Rosmarie. E a tia tem outro nome. E o tio se chama A Viagem, embora nunca tenha estado no exterior. Ele passa diariamente 8 horas em seu quarto; ninguém sabe o que ele faz lá dentro. Quando alguém lhe pergunta, ele diz: eu me imagino sentado no quarto. À noite, ele vai ao restaurante italiano da esquina e come lesmas com limão.
Mas lesma nem é comida italiana, diz a sua mulher.
E o tio diz: e daí?
Após a grapa ele retorna e vê o dia na televisão.
Depois anda pela casa e faz uma cara.
Até hoje ninguém viu a mala cheia de vozes. E o tio conta cada vez uma história diferente: quando estou no quarto e me imagino sentado no quarto, tiro uma voz de dentro da mala e mando-a calar-se. As vozes na mala são como macacos, mal saem e já sobem pelas cortinas ou arrastam-se sob o tapete ou entram pelas pernas das minhas calças.
Então a tia vai para a cozinha e bebe vinho branco. O copo metade vazio ela sempre recoloca no armário. Frequentemente retorna à cozinha, e todas as vezes ouve-se ela abrir e fechar a porta do armário. À noite, os seus olhos estão boiando em vinho branco. E enquanto o tio A Viagem escuta o silêncio da sua mala de vozes, escuta-se a tia soluçando no banheiro.
No dia seguinte, o tio conta que, no sonho, ele morava em um refrigerador.
E a tia diz nada em voz alta.
E às vezes ela se enfia na cama em pleno dia.
E o tio sai para a rua em plena noite.
E a tia vai à igreja e acende uma vela.

E o tio conta ao vizinho que tem negócios no exterior, que se tornou criador de minhocas.
E a tia sorri.
E o tio pendura uma tabuleta na porta:
HOJE FECHADO
E o pior desta história é que ninguém se importa com o cãozinho Rosmarie.

*

via: http://www.suplementopernambuco.com.br/in%C3%A9ditos/1969-a-poesia-de-aglaja-veteranyi.html

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

um texto de Torquato Neto

Quando eu a recito ou quando eu a escrevo, uma palavra ― um mundo poluído ― explode comigo & logo os estilhaços desse corpo arrebentado, retalhado em lascas de corte & fogo & morte (como napalm), espalham imprevisíveis significados ao redor de mim: informação. Informação: há palavras que estão no dicionário & outras que eu posso inverter, inventar. Todas elas juntas & à minha disposição, aparentemente limpas, estão imundas & transformaram-se, tanto tempo, num amontoado de ciladas. Uma palavra é mais que uma palavra, além de uma cilada. Elas estão no mundo como está o mundo & portanto as palavras explodem, bombardeadas. Agora não se fala nada, um som é um gesto, cuidado. Vida Toda Linguagem, cf. Mário Faustino que era daqui e um dos maiores & quem quiser consulte. No princípio era o Verbo, existimos a partir da Linguagem, saca? Linguagem em crise igual a cultura e /ou civilização em crise ― e não reflexo da derrocada. O apocalipse, aqui, será apenas uma espécie de caos no interior tenebroso da semântica. Salve-se quem puder.


via: Li Pio

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Ao Leitor, de Charles Baudelaire

A tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez
Habitam nosso corpo e o espírito viciam,
E adoráveis remorsos sempre nos saciam,
Como o mendigo exibe a sua sordidez.

Fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça;
Impomos alto preço à infâmia confessada,
E alegres retornamos à lodosa estrada,
Na ilusão de que o pranto as nódoas nos desfaça.

Na almofada do mal é Satã Trismegisto
Quem docemente nosso espírito consola,
E o metal puro da vontade estão se evoca
Por obra deste sábio que age sem ser visto.

É o diabo que nos move e até nos manuseia!
Em tudo que repugna, uma jóia encontramos;
Dia após dia, para o Inferno caminhamos,
Sem medo algum, dentro da treva que nauseia.

Assim como um voraz devasso beija e suga
O seio murcho que lhe oferta uma vadia,
Furtamos ao acaso uma carícia esguia
Para espremê-la qual laranja que se enruga.

Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos,
Em nosso crânio um povo de demônios cresce,
E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce,
Rio invisível, com lamentos indistintos.

Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos,
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.

Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vício ancestrais,

Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo!
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;

É o Tédio! - O olhar esquivo à mínima emoção,
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu o conheces, leitor, ao monstro delicado
- Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão.


via: http://www.casadobruxo.com.br/poesia/c/leitor.htm 
ref em: Tars em http://ermiracultura.com.br/2018/03/26/a-musica-dissonante-da-modernidade/

segunda-feira, 25 de junho de 2018

A Flor e a Náusea, de Carlos Drummond de Andrade

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
E soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios, 
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.



via: https://www.mundovestibular.com.br/articles/192/2/A-ROSA-DO-POVO---Carlos-Drummond-de-Andrade--Resumo/Paacutegina2.html
via: Gabriel Fernando

quarta-feira, 20 de junho de 2018

NA BELEZA CRIADA PELOS OUTROS, de Adam Zagajewski, tradução de Marco Bruno

Só na beleza criada pelos outros
existe consolação, na música
e nos poemas dos outros
Só os outros podem nos salvar,
mesmo que a solidão tenha o sabor
do ópio. Não são o inferno, os outros,
se os espreitarmos de manhã, quando
têm a testa limpa, lavada pelos sonhos.
Por isso cismo sobre a palavra
que hei de usar, "ele" ou "tu". Cada "ele"
é uma traição a qualquer "tu", mas,
em troca, um poema de alguém fielmente
oferece uma fresca, moderada conversa.



via: facebook de Júlia de Carvalho Hansen