domingo, 12 de abril de 2020

Cartomante, de Luiza Mussnich

tomar decisões
é a melhor forma
de prever o futuro


via opoemaensinaacair

[te invento], Clarice Lispector

Eu te invento, ó realidade!


via filoeliteratu

[entreabrir o longe], de Daniel Maia-Pinto Rodrigues

Hoje vou entreabrir o longe,
ficarei a olhar o regato.



via opoemaensinaacair

Tempo, de Daniel Maia-Pinto Rodrigues

Dia após dia o sol passa
pelas fotografias. Vejo-o passar
nos sorrisos felizes que fizemos um dia.




via opoemaensinaacair

Fim de tarde em S. Lázaro, de Eugénio de Andrade

Estou sozinho. Nas estantes, restos
da minha vida. É quase
no livro sobre os telhados.
No livro abandonado nas mãos
corre um rio: à deriva,
duas ou três coisas que foram
minhas: um punhado de amoras,
a porosa delícia do barro,
essas nuvens, essas
aves num céu branco de trigo,
um sorriso
que também era um copo de água.


via opoemaensinaacair

[Homens que são], de Daniel Faria

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios foras dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens agitados sem bússola onde repouse.

Homens que são como froteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são sítios desviados
Do lugar



via opoemaensinaacair

Medo, de Raymond Carver


Medo de ver um carro da polícia estacionar no passeio.
Medo de adormecer à noite.
Medo de não adormecer.
Medo de que o passado acorde.
Medo de que o presente levante voo.
Medo de que o telefone toque na calada da noite.
Medo de tempestades elétricas.
Medo da mulher da limpeza que tem uma mancha no rosto!
Medo dos cães que me asseveraram que não mordem.
Medo da ansiedade!
Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.
Medo de ficar sem dinheiro.
Medo de ter muito e as pessoas não acreditarem nisso.
Medo de perfis psicológicos.
Medo de chegar atrasado e medo de chegar antes de toda a gente.
Medo da letra dos meus filhos em envelopes.
Medo de que eles morram antes de mim e que me vá sentir culpado.
Medo de ter que viver com a minha mãe na sua velhice e na minha.
Medo da confusão.
Medo de que este dia termine com uma nota infeliz.
Medo de acordar e descobrir que te foste embora.
Medo de não amar e medo de não amar o bastante.
Medo de que aquilo que amo se torne letal para aqueles que amo.
Medo da morte.
Medo de viver muito tempo.
Medo da morte.

Eu já disse isso.







Raymon Carver, USA (1938-1988)
Carver morreu aos 50 anos, vítima de cancro. A sua sepultura em Port Angeles (Washington), tem a seguinte inscrição:
“E conseguiste o que querias da vida, mesmo assim?”
“Consegui.”
“E o que querias?”
“Saber que sou amado, sentir-me amado aqui na terra.”

(Via Jorge Sousa Braga)

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