segunda-feira, 24 de agosto de 2020

EU DIGO SIM ATÉ DIZER NÃO, de Ricardo Domeneck

 Ricardo Domeneck, in  'Carta aos anfíbios' (2005)


EU DIGO SIM ATÉ DIZER NÃO


as circunvoluções

             e caprichos

        da atenção:

erguer a cabeça

e perder o sono


            sopro

                    vento

             em que

                  uma primeira esfera

          de ar impele

                        outra ao movimento


          ou em alto-mar

temendo menos a ausência

                  de resgate na superfície

que a povoação alheia

              e por isso informe, abaixo

n’água, invisível, mas parte

integrante das estruturas

do dia real


    só a lucidez abre caminho

                  para o imaginário


                            mas a carne insiste

                  no contínuo


onde as pedras são comestíveis

           e exige-se a fome;

                           durante a transfiguração

             em que anjos e bandejas

        circulam seu jardim

                                é fácil salmodiar

providências e entregas; mas

         é com o linho enfaixando toda a 

                    pele e a pedra

       separando esta caverna

da saúde do ar

            que se espera um Lázaro!

            Lázaro! e um segundo

         antes da asfixia

crer ainda

       que seja este o meu 

               nome, seja ESTE o MEU

                             nome


                    se cada folha parece

           percutir o sol hoje

e não se debruça do estame

                                              para o vazio 


                                  o mundo 

                    é tão simpático


           da montanha que fala resta

                  a mímica, da presença

o ventríloquo, de sua boca

o mapa que reconduz à porta


               mão em mão com passos lentos


    mas foi Isaque a carregar a lenha

                   nas costas, tomar o fogo e o cutelo

          na mão; e caminhou junto de seu pai


     todo sacrifício é aparente e inútil,


                              nenhuma

                árvore camufla 

                            suas frutas:

                    as expõe

            ao pássaro, ao

                            chão, ao suco

                     na garganta, à recusa

                        do estômago


            por 

                          tanto


         percorro os andaimes

                       de equilíbrio precário

                            :

                 ferro oxidável

                             saudoso

               de água


              e a alegria de quem, na

obrigação de abater um novilho,

       espera que seu corpo, de repente

                   forte, sobreviva ao sacrifício,


como uma garganta

enrijece-se rápida

para resistir à faca


– Ricardo Domeneck, in 'Carta aos anfíbios' (2005)

sábado, 6 de junho de 2020

Sala Provisória, de Inês Lourenço

Nunca se sabe
quando estamos num lugar
pela última vez. Numa casa
que vai ser demolida, numa sala
provisória que vai encerrar, num velho
café que mudará de ramo, como
página virada jamais reaberta, como
canção demasiada gasta, como
abraço tornado irrepetível, numa
porta a que não voltaremos.



via opoemaensinaacair

Sá de Miranda Carneiro, de Alexandre O'Neill

comigo me desavim
                                          eu não sou eu nem sou o outro
sou posto em todo perigo
                                          sou qualquer coisa de intermédio
não posso viver comigo
                                          pilar da ponte de tédio
não posso viver sem mim
                                          que vai de mim para o Outro



via opoemaensinaacair

sábado, 30 de maio de 2020

Não aquele que diz, de Mary Oliver, tradução de Jorge Sousa Braga

Não aquele que diz “Vou ser
cauteloso e inteligente em matéria de amor”
Não aquele que diz ”Vou escolher lentamente”
mas aqueles que não escolheram
e foram escolhidos
por algo invisível e poderoso e incontrolável
e belo e possivelmente mesmo
inadequado—
aqueles que sabem do que falo
quando falo de amor


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quarta-feira, 27 de maio de 2020

Manifesto, de Nicanor Parra, Tradução de Joana Barossi e Cide Piquet

Senhoras e senhores
Esta é nossa última palavra
- Nossa primeira e última palavra -
Os poetas baixaram do Olimpo.

Para os mais velhos
A poesia foi um objeto de luxo
Mas para nós
É um artigo de primeira necessidade:
Não podemos viver sem poesia.

Diferentemente dos mais velhos
- E digo isso com todo respeito -
Nós sustentamos
Que o poeta não é um alquimista
O poeta é um homem qualquer
Um pedreiro que constrói seu muro:
Um construtor de portas e janelas.

Nós conversamos
Na linguagem do dia a dia
Não acreditamos em signos cabalísticos.

E tem mais:
O poeta está aí
Para que a árvore não cresça torta.

Esta é a nossa mensagem.
Nós denunciamos o poeta demiurgo
O poeta Barata
O poeta Rato de Biblioteca.

Todos esses senhores
- E digo isso com muito respeito -
Devem ser processados e julgados
Por construir castelos no ar
Por desperdiçar espaço e tempo
Escrevendo sonetos à lua
Por agrupar palavras ao acaso
À última moda de Paris.
Para nós, não:
O pensamento não nasce na boca
Nasce no coração do coração.

Nós repudiamos
A poesia de óculos escuros
A poesia de capa e espada
A poesia de chapéu de aba larga.
Por outro lado, propiciamos
A poesia de olhos abertos
A poesia de peito aberto
A poesia de cabeça descoberta.

Não acreditamos em ninfas nem tritões.
A poesia tem que ser isto:
Uma garota rodeada de espigas
Ou não ser absolutamente nada.

Agora sim, no plano político
Eles, nossos avós imediatos,
Nossos bons avós imediatos!
Se refrataram e se dispersaram
Ao passar pelo prisma de cristal.
Uns poucos se tornaram comunistas.
Bom, não sei se o foram de fato.
Suponhamos que foram comunistas
O que sei é o seguinte:
Não foram poetas populares
Foram veneráveis poetas burgueses.

Há que dizer as coisas como são:
Apenas um ou outro
Soube chegar ao coração do povo.
Cada vez que puderam
Se declararam em palavras e ações
Contra a poesia engajada
Contra a poesia do presente
Contra a poesia proletária.

Aceitemos que foram comunistas
Mas a poesia foi um desastre
Surrealismo de segunda mão
Decadentismo de terceira mão
Tábuas velhas devolvidas pelo mar.
Poesia adjetiva
Poesia nasal e gutural
Poesia arbitrária
Poesia copiada dos livros
Poesia baseada
Na revolução da palavra
Quando deveria se fundar
Na revolução das ideias.
Poesia de círculo vicioso
Para meia dúzia de eleitos:
“Liberdade absoluta de expressão”.

Hoje nos persignamos perguntando
Para que escreveriam essas coisas -
Para assustar o pequeno-burguês?
Tempo perdido miseravelmente!
O pequeno-burguês não reage
Senão quando se trata do estômago.

Como vão assustá-lo com poesias!

A situação é esta:
Enquanto eles defendiam
Uma poesia do crepúsculo
Uma poesia da noite
Nós propugnamos
A poesia do amanhecer.
Esta é a nossa mensagem
Os resplendores da poesia
Devem chegar a todos igualmente
A poesia é bastante para todos.

É isso, companheiros
Nós condenamos
- E isto, sim, digo com respeito -
A poesia de pequeno deus
A poesia de vaca sagrada
A poesia de touro furioso.

Contra a poesia das nuvens
Nós opomos
A poesia da terra firme
- Cabeça fria, coração quente
Somos terrafirmistas convictos -
Contra a poesia dos cafés
A poesia da natureza
Contra a poesia de salão
A poesia da praça pública
A poesia de protesto social.

Os poetas baixaram do Olimpo.

[Prometi a mim mesmo], excerto de Ron Padgett

Prometi a mim mesmo
explorar o meu vazio
o espaço que ocupo
e não ocuparei
mas continuo à espera

à espera



via opoemaensinaacair

Poema de Amor, de Jorge Sousa Braga

Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que não
             te coubesse no dedo





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