sábado, 27 de março de 2021

O Poema Ensina a Cair, de Luiza Jorge Neto

O poema ensina a cair

sobre vários solos

desde perder o chão repentino sob os pés

como se perde os sentidos numa

queda de amor,ao encontro

do cabo onde a terra abate e

a fecunda ausência excede

até à queda vinda

da lenta volúpia de cair,

quando a face antige o solo

numa curva delgada subtil

uma vénia a ninguém de especial

ou especialmente a nós uma homenagem

póstuma.



via: https://www.escritas.org/pt/t/3300/o-poema-ensina-a-cair 

quinta-feira, 25 de março de 2021

A Fábrica do Poema, de Waly Salomão

 (In memoriam Donna Lina Bo Bardi)

sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa palavra por
palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das britas
e leite das pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-se os dedos estarrecidos.

sinédoques, catacreses,
metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão-chave é:
sob que máscara retornará o recalcado?

(mas eu figuro meu vulto
caminhando até a escrivaninha
e abrindo o caderno de rascunho
onde já se encontra escrito
que a palavra “recalcado” é uma expressão
por demais definida, de sintomatologia cerrada:
assim numa operação de supressão mágica
vou rasurá-la daqui do poema.)

pois a questão-chave é:
sob que máscara retornará?

(de “O mel do melhor”, Rocco, 2001)



Via

revistamacondo


https://revistamacondo.wordpress.com/2013/07/05/poema-fabrica-do-poema-waly-salomao/


terça-feira, 16 de março de 2021

Morte no Avião, de Carlos Drummond de Andrade

 Acordo para a morte.

Barbeio-me, visto-me, calço-me.
É meu último dia: um dia
cortado de nenhum pressentimento.
Tudo funciona como sempre.
Saio para a rua. Vou morrer.
Não morrerei agora. Um dia
inteiro se desata à minha frente.
Um dia como é longo. Quantos passos
na rua, que atravesso. E quantas coisas
no tempo, acumuladas. Sem reparar,
sigo meu caminho. Muitas faces
comprimem-se no caderno de notas.
Visito o banco. Para que
esse dinheiro azul se algumas horas
mais, vem a polícia retirá-lo
do que foi meu peito e está aberto?
Mas não me vejo cortado e ensangüentado.
Estou limpo, claro, nítido, estival.
Não obstante caminho para a morte.
Passo nos escritórios. Nos espelhos,
nas mãos que apertam, nos olhos míopes, nas bocas
que sorriem ou simplesmente falam eu desfilo.
Não me despeço, de nada sei, não temo:
a morte dissimula
seu bafo e sua tática.


Almoço. Para quê? Almoço um peixe em outro e creme.
É meu último peixe em meu último
garfo. A boca distingue, escolhe, julga,
absorve. Passa música no doce, um arrepio
de violino ou vento, não sei. Não é a morte.
É o sol. Os bondes cheios. O trabalho.
Estou na cidade grande e sou um homem
na engrenagem. Tenho pressa. Vou morrer.
Peço passagem aos lentos. Não olho os cafés
que retinem xícaras e anedotas,
como não olho o muro de velho hospital em sombra.
Nem os cartazes. Tenho pressa. Compro um jornal. É pressa,
embora vá morrer.


O dia na sua metade já rota não me avisa
que começo também a acabar. Estou cansado.
Queria dormir, mas os preparativos. O telefone.
A fatura. A carta. Faço mil coisas
que criarão outras mil, aqui, além, nos Estados Unidos.
Comprometo-me ao extremo, combino encontros
a que nunca irei, prununcio palavras vãs,
minto dizendo: até amanhã. Pois não haverá.
Declino a tarde, minha cabeça dói, defendo-me,
a mão estende um comprimido: a água
afoga a menos que dor, a mosca,
o zumbido... Disso não morrerei: a morte engana,
como um jogador de futebol a morte engana,
como os caixeiros escolhe
meticulosa, entre doenças e desastres.


Ainda não é a morte, é a sombra
sobre edifícios fatigados, pausa
entre duas corridas. Desfale o comércio de atacado,
vão repousar os engenheiros, os funcionários, os pedreiros.
Mas continuam vigilantes os motoristas, os garçons,
mil outras profissões noturnas. A cidade
muda de mão, num golpe.


Volto à casa. De novo me limpo.
Que os cabelos se apresentem ordenados
e as unhas não lembrem a antiga criança rebelde.
A roupa sem pó. A mala sintética.
Fecho meu quarto. Fecho minha vida.
O elevador me fecha. Estou sereno.


Pela última vez miro a cidade.
Ainda posso decidir, adiar a morte,
não tomar esse carro. Não seguir para.
Posso voltar, dizer: amigos,
esqueci um papel, não há viagem,
ir ao cassino, ler um livro.


Mas tomo o carro. Indico o lugar
onde algo espera. O campo. Refletores.
Passo entre mármores, vidro, aço cromado.
Subo uma escada. Curvo-me. Penetro
no interior da morte.


A morte dispôs poltronas para o conforto
da espera. Aqui se encontram
os que vão morrer e não sabem.
Jornais, café, chicletes, algodão para o ouvido,
pequenos serviços cercam de delicadeza
nossos corpos amarrados.
Vamos morrer, já não é apenas
meu fim particular e limitado,
somos vinte a ser destruídos,
morreremos vinte,
vinte nos espatifaremos, é agora.


Ou quase. Primeiro a morte particular,
restrita, silenciosa, do indivíduo.
Morro secretamente e sem dor,
para viver apenas como pedaço de vinte,
e me incorporo todos os pedaços
dos que igualmente vão parecendo calados.
Somos um em vinte, ramalhete
dos sopros robustos prestes a desfazer-se.


E pairamos,
frigidamente pairamos sobre os negócios
e os amores da região.
Ruas de brinquedo se desmancham,
luzes se abafam; apenas
colchão de nuvens, morres se dissolvem,
apenas
um tubo de frio roça meus ouvidos,
um tubo que se obtura: e dentro
da caixa iluminada e tépida vivemos
em conforto e solidão e calma e nada.


Vivo
meu instante final e é como
se vivesse há muitos anos
antes e depois de hoje,
uma contínua vida irrefrável,
onde não houvesse pausas, sonos,
tão macia na noite é esta máquina e tão facilmente ela corta
blocos cade vaz maiores de ar.
Sou vinte na máquina
que suavemente respira,
entre placas estelares e remotos sopros de terra,
sinto-me natural a milhares de metro de altura,
nem ave nem mito,
guardo consciência de meus poderes,
e sem mistificação eu vôo,
sou um corpo voante e conservo bolsos, relógios, unhas,
ligado à terra pela memória e pelo costume dos músculos,
carne em breve explodindo.


Ó brancura, serenidade sob a violência
da morte sem aviso prévio,
cautelosa, não obstante irreprimível aproximação de um perigo atmosférico
golpe vibrado no ar, lâmina de vento
no pescoço, raio
choque estrondo fulguração
rolamos pulverizados
caio verticalmente e me transformo em notícia.




recebido de um participante da oficina de criação poética

DINOSAURIA, WE, de Charles Bukowski

nascido assim

nisso


como o giz de faces sorridentes

como a Sra. Morte às gargalhadas

como as paisagens políticas dissolvidas

como o peixe oleoso cuspido

fora de sua oleosa vítima.


nós nascemos assim

nisso


nos hospitais que são tão caros

que são baratos para morrer

com advogados que cobram muito

é mais barato pleitear a culpa

num país onde as cadeias estão cheias

e os hospícios estão fechados

num lugar onde as massas elevam a heróis

os idiotas ricos


nascido nisso

andando e vivendo nisso

morrendo por causa disso

castrado

corrompido

deserdado

por causa disso


os dedos se estenderam para um deus irresponsável

os dedos alcançaram a garrafa

a pílula

o poder


nós nascemos nessa triste linha da morte

nascemos em um governo em débito há 60 anos

incapaz de se interessar em pagar esse débito

e os bancos vão se queimar

o dinheiro será inútil

estará aberto e impunível o assassinato nas ruas

serão armas e multidões passageiras

a terra será inútil

a comida terá um retorno mínimo

o poder nuclear será tomado por muitos

as explosões continuarão balançando o mundo

os ricos e escolhidos olharão

das plataformas do espaço

o inferno de Dante será feito para olhar

como um campo de jogos de crianças

o sol não será visto e será sempre noite

as árvores morrerão

toda a vegetação morrerá

homens radioativos comerão

a carne dos homens radioativos

o mar será envenenado

os lagos e rios desaparecerão

a chuva será ouro novo

os corpos apodrecidos do homem

e dos animais vão feder

os últimos sobreviventes serão alcançados

por doenças novas e medonhas

e as plataformas do espaço

serão destruídas pelo seu atrito

com materiais do lado de fora

efeito natural da deterioração

e lá estará um bonito silêncio

nunca ouvido


Nascido fora disso

o sol estará à espera

do próximo capítulo.


Referência:

BUKOWSKI, Charles. Dinosauria, We. The Last Night of the Earth Poems. 1992.

via: http://www.chacomletras.com.br/2017/02/a-visao-apocaliptica-de-bukowski/



recebido de uma participante da oficina de criação poética

sábado, 13 de março de 2021

Destruidor de Lares, de Ocean Vuong, tradução de Rogério Gallindo

 & nós dançávamos assim: vestidos brancos das mães

que transbordavam nossos pés, o fim de agosto

colorindo as nossas mãos de um rubro escuro. & nos amávamos assim:
com vodka & uma tarde no ático, os teus dedos

entre os meus cabelos — os meus cabelos em fogo. Cobríamos
o ouvido e o chilique do teu pai se transformava

em pulsações. Quando os nossos lábios se tocavam o dia se encerrava
num caixão. No museu do coração

há duas pessoas sem cabeça construindo uma casa em chamas.
A espingarda esteve sempre lá sobre a

lareira. Sempre uma outra hora para matar — só para implorar
a um deus que nos devolva. Senão o ático, o carro. Senão

o carro, o sonho. Senão o menino, as suas roupas. Se não vive,
desligue o telefone. Porque o ano é uma distância

que viajamos em círculos. O que quer dizer: nós dançávamos
assim: sozinhos em corpos que dormem. O que quer dizer:

nós nos amávamos assim: uma faca na língua se transformando
em uma língua.



via: https://www.plural.jor.br/noticias/cultura/tres-poemas-de-ocean-vuong/

Limiar, de Ocean Vuong, tradução de Rogério Galindo

 No corpo, onde tudo tem seu preço,

              eu era um mendigo. Ajoelhado,

olhava, pela fechadura, não
              o homem no banho, mas a chuva

a atravessar seu corpo: cordas de guitarra a
                estalar sobre ombros em forma de globo.

Ele cantava, e é por isso
             que eu lembro. Sua voz

me preenchia até a medula
             como um esqueleto. Até mesmo meu nome

se ajoelhava dentro de mim, pedindo
                para ser poupado.

Ele cantava. É tudo que lembro.
                Pois no corpo, onde tudo tem seu preço,

eu estava vivo. Eu não sabia
                que havia motivo melhor.

Que certa manhã meu pai ia parar
                — potro negro em tempestade —

& tentar escutar minha respiração contida
                atrás da porta. Eu não sabia que o custo

de entrar numa canção — era perder
                o caminho de volta.

Por isso entrei. Por isso perdi.
                Perdi tudo com meus olhos

bem abertos.



via: https://www.plural.jor.br/noticias/cultura/tres-poemas-de-ocean-vuong/

sexta-feira, 12 de março de 2021

Sete Poemas do Pássaro, de Orides Fontela

 I

O pássaro é definitivo

por isso não o procuremos:

ele nos elegerá.


II

Se for esta a hora do pássaro

abre-te e saberás

o instante eterno.


III

Nunca será mais a mesma

nossa atmosfera

pois sustentamos o vôo

que nos sustenta.


IV

O pássaro é lúcido

e nos retalha.

Sangramos. Nunca haverá

cicatrização possível

para este rumo.


V

Este pássaro é reto;

arquiteta o real e é o real mesmo.


VI

Nunca saberemos

tanta pureza:

pássaro devorando-nos

enquanto o cantamos.


VII

Na luz do vôo profundo

existiremos neste pássaro:

ele nos vive.




via Alda Alexandre

fonte: https://oescriba.org/2018/07/17/sete-poemas-do-passaro-orides-fontela-umpoemapordia/