domingo, 8 de agosto de 2021

CARTA AO PAI, de Ricardo Domeneck

Agora que o senhor

mais assemelha pedaço

de carne com dois olhos

dirigidos ao teto escuro

no leito em que provável

só não há-de morrer só

porque nem a própria

saliva poderá engolir

por si na companhia

somente desta sonda

que o alimenta

me pergunto se ainda

em validade a proibição

da mãe em confessar

ao senhor os hábitos

amorosos das mucosas

que são minhas

e se deveras me amaria

tanto menos soubesse

quanta fricção já tiveram

que não lhes cabia

biológica ou religiosa

-mente e se também

pediria para sua filhoa

a morte que desejou

a tantos de minha laia

quando surgiam na tela

da Globo da Record

da Manchete do SBT

que sempre constituíram

seu cordão umbilical

com a tradição

e se deveras faria

sobrevir sobre eles

grande destruição

pela violência

com que urrava

seus xingamentos

típicos de macho

nascido no interior

desse país de machos

interiores e quebrados

em seus orgulhos falhos

de crer que o pai

é o que abarrota

geladeiras e não deixa

que falte à mesa

o alimento que nutre

as mesmas mucosas

em que corre

o seu sangue

mas não seu Deus

e ora neste leito partido

o cérebro em veias

como riachos insistentes

em correr

fora das margens

se o senhor

soubesse o dolo

com que manchei

a mesa

de todos os patriarcas

ainda pergunto-me

se me receberia

com a mansidão

que aceita na testa

o beijo desta sua filhoa

que nada mais é

que a sua imagem

e semelhança invertidas

tal espelho

que refletisse opostos

de gênero e religião

ou o desenho

animado na infância

de uma Sala de Justiça

onde numa tela

podia-se observar

um mundo ao avesso

e se o Pai e o pai

odeiam deveras

o gerado nas normas

da Biologia e Religião

mais tarde porém geridos

na transgressão das leis

que o Pai e o pai

impõem-nos na ciência

de sermos todos falhos

nessa Terra onde procriar

é tão frequente

que gere prazer

nenhum e olho

o senhor

com essas pupilas

que talvez jamais

reflitam o Pai

mas ora veem o pai

eu

mesmo pedaço

de carne

com dois olhos

peço perdão

em silêncio

pois sequer posso

dizer que não

mais há tempo

e mesmo assim

e porém

e no entanto

e contudo

pelo medo adversativo

de talvez abalar

uma sistema rudimentar

de alicerces

sob a casa

sob o quarto

sob esta cama

de hospital

emprestada

escolho

uma vez mais

o silêncio


*


in 'Medir com as próprias mãos a febre' (Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2015).



no FB do autor

domingo, 1 de agosto de 2021

Landscape with a Hundred Turns, de Yanyi


When you turned into a hundred rooms,

I returned each month as a door

that opened only one.


When you turned into a hundred rooms

the wind flung through

each of them wailing


and left a hundred songs

in hopes you would return for it

and me and


once, finding a doe locked up,

the trees blued up

the mountain pass, I understood


you had transformed into your multiple,

as the rain is different

each step from the moon. Sleeping


in a hundred rooms, a hundred dreams

of you appear—though by day

your voice has frozen into standing stones.


When you turned into a hundred rooms,

I met with a mirror in each eye

your growing absence.


When I moved, the shadows without you

followed me. In the hundred rooms,

I cannot pick one,


for each combines into the other

where I piece-by-piece the shadows

you have ceased


to remember. As the rain

is different each day of the year,

when I turned for you


and hoped you’d return to me,

was it I who left

and you who remained the same?


For when you changed,

I changed

the furniture in the rooms.


A hundred birds flew over a hundred fields.

A mountain flowed into a hundred rivers

then ended.





via Chris de Gel


In a hundred rooms,

I turned and turned,

hoping to return to you.


O, the chrysanthemums grew

in the hundred rooms!


Far in the past and far in the future

were those numinous and echoing stars.

domingo, 18 de julho de 2021

CARTA A UMA MENINA QUE QUERIA SER POETA, de Ana Hatherly

 

A Matilde Rosa Araújo


Quando quiseres fazer um poema

não procures imitar ninguém 

nenhum autor

cujas obras tenhas conhecido

ou mesmo

qualquer cantiga popular

cujo autor desconheças.


Não.

Não faças isso.


Quando quiseres fazer um poema

a única coisa de que precisas

é sentir essa vontade e depois

- só depois - 

decidires-te.


Um poema pode ter muitas formas:

pode ser feito com palavras

muito bonitas

ou muito engraçadas

muito bem escritas e alinhadas

numa linda folha de papel

mas também pode ser rabiscado

ou com figuras.


Pode ser a preto e branco

ou a cores 

pode ser a tinta

a lápis

a esferográfica

a ponta de feltro

sobre papel

plástico

lousa

pedras

sei lá

até pode ser de areia

de pano

de folhas

pode ser só feito com a voz 

falado

cantado

murmurado

dito

só dentro da cabeça da gente 

ou então representado no palco 

com gestos 

caretas várias

aos saltos

cambalhotas

ou imovelmente.


Um poema pode ser tudo isso

pode ter essas formas todas 

porque a poesia está 

onde a soubermos encontrar

ou colocar.


A poesia é uma coisa que está 

ou tem de estar 

dentro de nós

e que nós 

por isso

podemos projectar em tudo.


A poesia não é só uma arte 

é um princípio

quer dizer 

uma lei da nossa sensibilidade. 

O que a poesia exige de nós

é só uma coisa: 

liberdade

porque a liberdade

é a lei mais importante da criação

a lei mais importante da felicidade.


A poesia é um acto livre

tem de ser um acto livre. 

Mas também é um jogo

um conjunto de regras

que a nós próprios impomos 

para com elas praticarmos 

um acto que nos torna felizes.


Todas as formas de arte

nascem dessa liberdade

dessa iniciativa 

que nos leva a criar 

coisas

casas

livros

palavras.


A poesia é para sermos felizes

e comunicarmos 

essa felicidade. 

Quando a poesia 

trata de assuntos tristes

está a queixar-se 

da falta de alegria 

dos momentos infelizes do mundo

que não deixam criar 

realidades belas

novas

generosas.


No entanto

quando um poeta cria 

um poema 

um objecto

uma coisa qualquer 

nesse momento exacto 

não pensa em nada disso: 

vive simplesmente um impulso

a que ele se entrega 

e depois entrega ao mundo.


Por isso

se tudo o que te apetece

é simplesmente 

deitares-te no chão 

e olhar o céu 

podes crer

também isso é poesia

e basta.


Ana Hatherly, ITINERÁRIOS, ed. Quasi



Via: opoemaensinaacair

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Trecho do conto "O Espelho", de Guimarães Rosa

 Sendo assim, necessitava eu de transverberar o embuço, a travisagem daquela máscara, a fito de devassar o núcleo dessa nebulosa — a minha vera forma. Tinha de haver um jeito. Meditei-o. Assistiram-me seguras inspirações.

Concluí que, interpenetrando-se no disfarce do rosto externo diversas componentes, meu problema seria o de submetê-las a um bloqueio “visual” ou anulamento perceptivo, a suspensão de uma por uma, desde as mais rudimentares, grosseiras, ou de inferior significado. Tomei o elemento animal, para começo.

Parecer-se cada um de nós com determinado bicho, relembrar seu facies, é fato. Constato-o, apenas; longe de mim puxar à bimbalha temas de metempsicose ou teorias biogenéticas. De um mestre, aliás, na ciência de Lavater, eu me inteirara no assunto. Que acha? Com caras e cabeças ovinas ou eqüinas, por exemplo, basta- lhe relancear a multidão ou atentar nos conhecidos, para reconhecer que os há, muitos. Meu sósia inferior na escala era, porém — a onça. Confirmei-me disso. E, então, eu teria que, após dissociá-los meticulosamente, aprender a não ver, no espelho, os traços que em mim recordavam o grande felino. Atirei-me a tanto.    




Via Lidia L

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Poemas de Maria do Carmo Ferreira

 


A QUEM INTERESSAR POSSA


Um pessoa

do sexo

feminino

38 anos

1,65

66 kg

sem lar

sem filhos

sem família

sem negócios

sem esperança

com 108 contos

na poupança.


Garante que possui

matéria-prima

para literatura

teatro

baby-sitter

trabalhos manuais.

Gosta de música.

Chega a tocar

de ouvido.

Conhece inglês

e línguas neo-latinas.

É boa datilógrafa.

Cozinha o trivial.

Prefere a natureza

à vida na cidade.

Amor, quase não faz

porém se adapta sem-

pre ao item men-

cionado.


Falta-lhe alma

um sopro que a reanime.

Se veleidades tem

é de sentir-se real.

Vive

por força

de viver

mas corre o risco

de se deixar morrer

sem que se dê


POR ISSO

oferece-se a quem

interessar possa

uma coisa

uma causa

uma pessoa

alguém

um problema social:

o caso dessa moça.


*


AUTO-RETRATO


Nasci no rame-rame das abóboras.

Meu plano é horizontal. Vivo de cócoras.


Se me ergo, me espatifo. A gravidade

colou meu ser ao chão: cresço à vontade.


A crosta é dura. No corpo volumoso

a polpa é só fartura e paga o esforço


de rastejar como uma tartaruga

e refletir ao sol minha armadura.


Uma fome objetiva me devora

como a dos porcos que não comem pérolas


ou a dos pobres que não comem porcos.

Com ou sem sal, metáfora ou pletora


viro alimento no momento justo.

Ao fogo brando e lento mais me aguço.


Não sinto a tentação das ramas altas:

maracujá, chuchu, nada me exalta.


Nem mesmo a solidão das uvas verdes

quando o desdém dos homens as prescreve.


No ventre universal ocupo um espaço.

A vida faz-se em mim. Vegeto, e passo.




,,,,,

Via Ricardo Domeneck

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Todas íbamos a ser reinas, de Gabriela Mistral


 Todas íbamos a ser reinas,

de cuatro reinos sobre el mar: 

Rosalía con Efigenia 

y Lucila con Soledad.

En el valle de Elqui, ceñido
de cien montañas o de más,
que como ofrendas o tributos
arden en rojo y azafrán.

Lo decíamos embriagadas,
y lo tuvimos por verdad,
que seríamos todas reinas
y llegaríamos al mar.

Con las trenzas de los siete años,
y batas claras de percal,
persiguiendo tordos huidos
en la sombra del higueral.

De los cuatro reinos, decíamos,
indudables como el Korán,
que por grandes y por cabales
alcanzarían hasta el mar.

Cuatro esposos desposarían,
por el tiempo de desposar,
y eran reyes y cantadores
como David, rey de Judá.

Y de ser grandes nuestros reinos,
ellos tendrían, sin faltar,
mares verdes, mares de algas,
y el ave loca del faisán.

Y de tener todos los frutos,
árbol de leche, árbol del pan,
el guayacán no cortaríamos
ni morderíamos metal.

Todas íbamos a ser reinas,
y de verídico reinar;
pero ninguna ha sido reina
ni en Arauco ni en Copán...

Rosalía besó marino
ya desposado con el mar,
y al besador, en las Guaitecas,
se lo comió la tempestad.

Soledad crió siete hermanos
y su sangre dejó en su pan,
y sus ojos quedaron negros
de no haber visto nunca el mar.

En las viñas de Montegrande,
con su puro seno candeal,
mece los hijos de otras reinas
y los suyos nunca-jamás.

Efigenia cruzó extranjero
en las rutas, y sin hablar,
le siguió, sin saberle nombre,
porque el hombre parece el mar.

Y Lucila, que hablaba a río,
a montaña y cañaveral,
en las lunas de la locura
recibió reino de verdad.

En las nubes contó diez hijos
y en los salares su reinar,
en los ríos ha visto esposos
y su manto en la tempestad.

Pero en el valle de Elqui, donde
son cien montañas o son más,
cantan las otras que vinieron
y las que vienen cantarán:

-"En la tierra seremos reinas,
y de verídico reinar,
y siendo grandes nuestros reinos,
llegaremos todas al mar."


Lida por Patrícia Osses, esta noite, bebendo um reservado carmenere, pós um pesto, me sentindo plena com pessoas-amores

quinta-feira, 3 de junho de 2021

cristo na cruz, de jorge luis borges

Cristo na cruz. Os pés tocam a terra.

As três vigas são de igual altura.

Cristo não está no meio. É o terceiro.

A negra barba pende sobre o peito.

O rosto não é o rosto das lâminas.

E áspero e judeu. Não o vejo

e o seguirei buscando até o dia

último de meus passos pela terra.

O homem violado sofre e cala.

A coroa de espinhos o lastima.

Não o alcança o escárnio da plebe

que viu sua agonia tantas vezes.

A sua ou a de outro. Dá no mesmo.

Cristo na cruz. Desordenadamente

pensa no reino que talvez o espera,

pensa em uma mulher que não foi sua.

Não lhe é dado ver a teologia,

a indecifrável Trindade, os gnósticos,

as catedrais, a navalha de Occam,

a púrpura, a mitra, a liturgia,

a conversão de Guthrum pela espada,

a Inquisição, o sangue dos mártires,

as atrozes Cruzadas, Joana D’Arc,

o Vaticano que bendiz exércitos.

Sabe que não é um deus e que é um homem

que morre com o dia. Não lhe importa.

Lhe importa o duro ferro dos cravos.

Não é um romano. Não é um grego. Geme.

Nos deixou esplêndidas metáforas

e uma doutrina do perdão que pode

anular o passado. (Essa sentença

foi escrita por um irlandês em um cárcere.)

A alma busca o fim, com urgência.

Escureceu um pouco. Já morreu.

Anda uma mosca pela carne quieta.

Que pode me servir que aquele homem

tenha sofrido, se eu sofro agora?




via Rosa