sábado, 2 de maio de 2015

Opuz Zero, de Hans Arp, tradução por Ricardo Domeneck

Eu sou o Grão-Istoaquilo
O rigoroso regimento
O oxigenoma Sine Qua Non
O anônimo 1%

O P.P.Tit. e dito cu
Culatra sem boca e buraco
O honorável talhercúleo
Capa nova em velho cardápio

Eu sou o pífio vitalício
O Sr. Dezembro em dúzia
O colecionável Filatelo
Em verniz vinil e fúcsia

O desabrochável semigual
O honoris causa Dr. Ômega
O brancomo berço d´ouro
O paparazzível Domine


fonte: http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2008/04/hans-arp-1887-1966.html

vamos lá mana cante a canção, de Harryette Mullen, tradução por Ricardo Domeneck e original

vamos lá mana cante a canção

vamos lá mana cante a canção
blond miss dona rubrosa
passou a manhã toda
ensaboando seu sudão

ela chega à linha de chegada
sozinha ou consigo
hei de esgoelar enquanto
você me dá o ritmo

não se canse diretoria
dê prática à sua teoria
ela pergunta se é coisa de homem
ou coisa de pronome

desejando a ele sorte
deu-lhe os limões que chupa
disse-lhe benzinho ao cangote
melhore sua embocadura

(tradução de Ricardo Domeneck)



[go on sister sing your song]
Harryette Mullen

go on sister sing your song
lady redbone señora rubia
took all day long
shampooing her nubia

she gets to the getting place
without or with him
must I holler when
you’re giving me rhythm

members don’t get weary
add some practice to your theory
she wants to know is it a men thing
or a him thing

wishing him luck
she gave him lemons to suck
told him please dear
improve your embouchure


fonte: http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2010/03/harryette-mullen.html

Por que eu não sou pintor, de Frank O'Hara, tradução por Ricardo Domeneck e original

Por que eu não sou pintor

Eu não sou pintor, sou poeta.
Por quê? Eu acho que preferiria ser
pintor, mas não sou. Bem,

por exemplo, Mike Goldberg
começa um quadro. Eu dou
uma passada. "Senta e bebe alguma coisa",
ele diz. Eu bebo; nós bebemos. Eu dou
uma olhada."Você pôs SARDINHAS neste."
"É, precisava de alguma coisa ali."
"Ah." Eu vou e os dias vão-se
e dou outra passada. O quadro
está indo, e eu vou, e os dias
vão-se. Dou uma passada. O quadro está
pronto. "Cadê SARDINHAS?"
Tudo o que sobrou são
letras, "Estava exagerado", diz Mike.

E eu? Um dia começo a pensar sobre
uma cor: laranja. Eu escrevo um verso
sobre laranja. Não demora a tornar-se
uma página inteira de palavras, não de versos.
Então, mais uma página. Deveria ter
tantas coisas mais, não de laranja, de
palavras, de como laranja é horrível,
e a vida. Dias vão-se. É assim mesmo
em prosa, eu sou poeta de verdade. Meu poema
está pronto e eu ainda não mencionei
laranja. São doze poemas, eu chamo de
LARANJAS. E um dia numa galeria
eu vejo o quadro de Mike, chamado SARDINHAS.


(tradução de Ricardo Domeneck)

:

Why I am Not A Painter

I am not a painter, I am a poet.
Why? I think I would rather be
a painter, but I am not. Well,

for instance, Mike Goldberg
is starting a painting. I drop in.
"Sit down and have a drink" he
says. I drink; we drink. I look
up. "You have SARDINES in it."
"Yes, it needed something there."
"Oh." I go and the days go by
and I drop in again. The painting
is going on, and I go, and the days
go by. I drop in. The painting is
finished. "Where's SARDINES?"
All that's left is just
letters, "It was too much," Mike says.

But me? One day I am thinking of
a color: orange. I write a line
about orange. Pretty soon it is a
whole page of words, not lines.
Then another page. There should be
so much more, not of orange, of
words, of how terrible orange is
and life. Days go by. It is even in
prose, I am a real poet. My poem
is finished and I haven't mentioned
orange yet. It's twelve poems, I call
it ORANGES. And one day in a gallery
I see Mike's painting, called SARDINES.


fonte: http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2008/04/frank-ohara-1926-1966.html

sábado, 25 de abril de 2015

Zona de Conforto, por Ruy Proença

se você
viu um prego
em minha testa

e acha
que isso faz
todo o sentido

então viver
é menos perigoso
do que eu imaginava

vamos
pendure
um quadro



Eutomia, Recife, 14 (1): 603-614, Dez. 2014

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

I have not lain with beauty all my life, Lawrence Ferlinghetti, tradução de Eduardo Bueno

I have not lain with beauty all my life
telling over to myself
its most rife charms

I have not lain with beauty all my life
and lied with it as well
telling over to myself
how beauty never dies
but lies apart
among the aborigines
of art
and far above the battlefields
of love

It is above all that
oh yes
It sits upon the choicest of
Church seats
up there where art directors meet
to choose the things for immortality
And they have lain with beauty
all their lives
And they have fed on honeydew
and drunk the wines of Paradise
so that they know exactly how
a thing of beauty is a joy
forever and forever
and how it never never
quite can fade
into a money-losing nothingness

Oh no I have not lain
on Beauty Rests like this
afraid to rise at night
for fear that I might somehow miss
some movement beauty might have made

Yet I have slept with beauty
in my own weird way
and I have made a hungry scene or two
with beauty in my bed
and so spilled out another poem or two
and so spilled out another poem or two
upon the Bosch-like world
fonte: http://www.readin.com/blog/?k=book:author:ferlinghetti&o=a


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Em toda a minha vida jamais deitei com a beleza
                          confidenciando a mim mesmo
                                         seus encantos exuberantes

Jamais deitei com a beleza em toda a minha vida
                                           e tampouco menti junto a ela
                          confidenciando a mim mesmo
                                    como a beleza jamais morre
                          mas jaz afastada
                                    entre os aborígenes
                                                                      da arte
                    e paira muito acima dos campos de batalha
                                                                       do amor

                          Ela está acima disto tudo
                                           oh sim
         Está sentada no mais seleto dos
                                                            bancos do templo
lá onde os diretores de arte encontram-se
para escolher o que há de ficar eterno
                              E eles sim deitaram-se com a beleza
                    suas vidas inteiras
                                      E deliciaram-se com a ambrosia
         e sorveram os vinhos do Paraíso
                                            Portanto sabem com precisão
        como algo belo é uma jóia
                           rara rara
                                         e como nunca nunca
          poderá desvanecer-se
                                      num investimento sem tostão
Oh não jamais deitei
                          em Regaços da Beleza como esses
         receoso de levantar-me à noite
                           com medo de perder de alguma forma
algum movimento que a beleza pudesse esboçar

         No entanto dormi com a beleza
                              da minha própria e bizarra maneira
e aprontei uma ou duas cenas muito loucas
                                       com a beleza em minha cama
e daí transbordou um poema ou dois
        e daí transbordou um poema ou dois
                        para esse mundo que parece o de Bosch

fonte: http://www.culturapara.art.br/opoema/lawrenceferlinghetti/ferlinghetti.html

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Uma espécie de perda, de Ingeborg Bachmann, duas traduções

Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma
cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados,
gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por
Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma
cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta-
mento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor
mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.

tradução de Judite Berkemeier e João Barrento

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De uso comum: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as xícaras de chá, a cesta de pão, lençóis de linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados, gastos.
Uma ordem doméstica respeitada. Dito. Feito. E sempre a mão estendida.
Apaixonei-me por invernos, por um septeto vienense e por verões.
Por mapas, por um canto na montanha, por uma praia e por uma cama.
Mantive um culto a datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei um algo e fui devota de um nada,

(- do jornal dobrado, das cinzas frias, do papel com uma anotação)
sem temer a religião, pois a igreja era essa cama.

Minha inesgotável pintura surgiu de olhar o mar.
Da varanda saudava os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, meus cabelos tinham sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme para minha alegria.

Não foste tu que perdi,
mas o mundo.

tradução de Claudia Cavalcanti