domingo, 28 de agosto de 2011
outro trecho de Mundos de Vidro, de Alessandro Baricco
No enterro de Pekisch, com uma certa lógica, o povo de Quinnipak decidiu não tocar uma única nota. Em meio a uma silêncio maravilhoso, o caixão de madeira atravessou a cidade e subiu até o cemitério, levado nos ombros da oitava mais grave do humanofono. "A terra te seja leve, como foste para ela" recitou o padre Obry. E a terra respondeu: "Assim seja."
domingo, 14 de agosto de 2011
spring is like perhaps a hand, de e. e. cummings
III
Spring is like a perhaps hand
(which comes carefully
out of Nowhere)arranging
a window,into which people look(while
people stare
arranging and changing placing
carefully there a strange
thing and a known thing here)and
changing everything carefully
spring is like a perhaps
Hand in a window
(carefully to
and fro moving New and
Old things,while
people stare carefully
moving a perhaps
fraction of flower here placing
an inch of air there)and
without breaking anything.
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Que este amor não me cegue nem me siga, Hilda Hilst
I
Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.
In Cantares do Sem Nome e de Partidas (1995)
Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.
In Cantares do Sem Nome e de Partidas (1995)
quinta-feira, 28 de julho de 2011
trecho de Mundos de Vidro, de Alessandro Baricco
Ele os via partir: via o instante em que a massa informe de cavalos e cavaleiros se comprimia como uma mola pressionada ao máximo para, em seguida, soltar-se com toda a força possível, em um tropel sem direção e hierarquia, um amontoado de corpos e rostos e patas, tudo no ventre de uma nuvem de pó que se erguia, impregnada de gritos e rodeada de um silêncio total, um instante de exasperante nada, antes que a badalada do sino, lá em cima do campanário, liberasse tudo e todos daquela já oprimente hesitação e rompesse os diques da espera, para soltar a frenética maré que era a corrida propriamente.
(do capítulo 1 da terceira parte)
trecho de A Morte do Príncipe, de Fernando Pessoa
[PRÍNCIPE] – Todo este universo é um livro em que cada um de nós é uma frase. Nenhum de nós, por si mesmo, faz mais que um pequeno sentido, ou uma parte de sentido; só no conjunto do que se diz se percebe o que cada um verdadeiramente quer dizer. Uns são frases que como se erguem do texto a determinar o sentido de todo um capítulo, ou de toda uma intenção, e a esses denominamos génios; outros são simples palavras, contendo uma frase em si mesmas, ou adjectivos definindo grandemente, destacadas aqui ou ali, mas sem dizer o que importa ao conjunto, e são esses os homens de talento; uns são as frases de pergunta e resposta, pelas quais se forma a vida do diálogo, e esses são os homens de acção; outros são frases que aliviam o diálogo, tornando-o lento para depois se sentir mais rápido, pontuações verbais do discurso, e esses são os homens de inteligência. A maioria são as frases feitas, quase iguais umas às outras, sem cor nem relevo, que servem todavia de ligar as intenções das metáforas, de estabelecer a continuidade do discurso, de permitir que os relevos tenham relevo, existindo, aparentemente, só para que esses possam existir. De resto, não somos nós feitos, como a frase, de palavras comuns (e estas de sílabas simples) de substância constante, diversamente misturada, da humanidade vulgar? Não é o nosso amor o amor de todos e o nosso choro as lágrimas em si mesmas? Mas cada um de nós ama e chora ele, que não outro: há um objectivo de dentro que o indefine (dissolve) e determina.
Isto que te estou dizendo é sem dúvida delírio, porque não sei por que te o digo; mas, porque o digo sem saber, é também sem dúvida verdade.
E as figuras de xadrez e as das cartas de jogar ou advinhar — seremos nós mais que elas onde a vida é vida?
(Texto integral: http://arquivopessoa.net/textos/4166)
(Texto integral: http://arquivopessoa.net/textos/4166)
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Ver, de Kandínski
o Azul, o Azul se alçava, se alçava e caía.
O Agudo, o Fino assobiava e penetrava, mas não saía.
De todos os lados ressoava.
O Marrondenso como que suspenso para sempre.
Penso. Penso.
Abre ainda mais amplo os braços.
Amplo. Amplo.
Cobre o teu rosto com um lenço vermelho.
E pode ser que nada se tenha ainda movido:
só você se moveu.
O branco salto após o branco salto.
E após o branco salto ainda um branco salto.
E neste branco salto um branco salto. Em cada
branco salto um branco salto.
E este é o mal, é que não vês o turvo.
no turvo é que ele está.
É aí que tudo começa..............................................
............................................Rompeu-se ................
retirado de Poesia Russa Moderna, organizado por Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman.
terça-feira, 19 de julho de 2011
trecho de Carta sobre Emília, de Adolfo Bioy Casares (em Histórias de amor)
"Quantas mulheres passarem pelo estúdio! Esqueceu-se de Irene, senhor Grinberg? Era alta, pálida, compridas tranças loiras, e quando se punha de costas para que eu a desenhasse, seus pés caíam em ângulo admirável. O senhor a observava com fauces de lobo esfaimado. Esqueceu-se também da nossa Antoninha, famosa por aquele desvio de um olho, que o senhor chamava sua loucura particular? Penso em todas elas com alguma saudade, mas se as recordo em separado eu me julgo um sujeito de sorte por estarem longe."
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