Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.
Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.
(...)
Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.
E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.
Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.
Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).
Publicado no livro O cão sem plumas (1950).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.114-116. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileirar
Via Lyanna
Site
https://www.escritas.org/pt/t/11962/iv-discurso-do-capibaribe
domingo, 24 de maio de 2020
quinta-feira, 21 de maio de 2020
Ritual de sacrifício, de Heloísa Gusmão
Bendita seja a faca no fruto do ventre
Da mãe do filho podre, do filho da puta;
Bendita seja a santa ira, porque dentre
Todos os deuses, perdoa a fúria da luta.
Nas tripas da maldade Ela se enfia e fere
A ferro e fogo e espalha a merda que, simbólica,
Alude ao fel que há na mente diabólica
Do desgoverno mal que no bem se interfere.
Por isso bebo sangue e peço que ma envie.
Que a faca eu desembanhe num só golpe certo;
Que a ira irrecusável me tome, inebrie.
Que o bode expiatório tenha o corpo aberto
Num ritual de remissão que desagrave
A Peste que nos mata (e sua morte nos salve).
_______
Pintura: Judith com a cabeça de Holofernes, Vincenzo Catena (1525)
via Kamilly no face
Da mãe do filho podre, do filho da puta;
Bendita seja a santa ira, porque dentre
Todos os deuses, perdoa a fúria da luta.
Nas tripas da maldade Ela se enfia e fere
A ferro e fogo e espalha a merda que, simbólica,
Alude ao fel que há na mente diabólica
Do desgoverno mal que no bem se interfere.
Por isso bebo sangue e peço que ma envie.
Que a faca eu desembanhe num só golpe certo;
Que a ira irrecusável me tome, inebrie.
Que o bode expiatório tenha o corpo aberto
Num ritual de remissão que desagrave
A Peste que nos mata (e sua morte nos salve).
_______
Pintura: Judith com a cabeça de Holofernes, Vincenzo Catena (1525)
via Kamilly no face
segunda-feira, 18 de maio de 2020
poesias de Beatriz Nascimento
BEATRIZ NASCIMENTO
(Aracaju, 1942 — Rio de Janeiro, 1995)
Antes tudo acontecesse como antes aconteceu
Não vindo como algo novo
Seduzindo o que não estava atento
Antes tudo acontecesse como o aviso do sinal
Atenção! “Está prestes a se concretizar”
E não como serpente silenciosa
Em seu silvar
Antes tudo acontecesse quando te sentisses forte
Capaz de reagir, que pudesses sangrar
Antes tudo acontecesse como se fosse o previsto
Visto de trás ou de longe
Antes que te atingisse de frente
Antes tudo acontecesse como acontecem as histórias
De encontros e rompimentos, num mergulho sem demora
Antes tudo se passasse como passa o arco-íris
Num momento luz, noutro bruma e crepúsculo.
*
Quantos caminhos percorro
A quantos choros recorro
Ao fim de cada cansaço
O que é aquela cama
Que daqui observo?
Vazia e desfeita como o acontecido?
Quantas perguntas me faço
Se certo ou errado, ou pura desatenção?
Se procedente ou contrário
Sem chegar à decisão
De abandonar de uma vez
Sonho há muito acumulado
O que é aquela cama no escuro?
Manchada de tantas culpas
Que caminham como víboras
E sugam aos poucos meu corpo?
Quem saltará sobre ela
Para ir em meu socorro?
Quantos caminhos vivi
Em quantas veredas sofri
A ânsia de ser feliz?
Como me encontro agora
Errantes como sempre foram
As sendas que escolhi.
*
À POTÊNCIA Z
Sendas abertas à força pesada
Movimento oscilante do conhecido
Irresoluto e precipitante
Como fundo falso.
No espelho véus justapostos
Ocultam o olhar como teias metálicas
Tornando o ser difuso.
Separando definitivamente o exterior do interior
Entrechocam-se e percutem fantasias antigas
Que não se miram como a um só pertencente.
E eis que surge na arena
Dançarino flamejante de intenções
Descabido como algo que desceu em terreno ocupado
Misterioso como dádiva encantada
De longínquas paragens.
Propiciador que ignorava capítulos de sua doutrina
Arrebatado qual luz da primeira hora.
Entre trevas e lusco-fusco
Ninguém saberia dizer sua “Eternia”.
De que matéria se constituía
A que missão se destinava.
Nas cores que esbanjava
A perplexidade das combinações
Sufocava os gritos de dor
Inibia os brados de alegria.
Chamejando como picantes chicotes
A volúpia luminosa impedia os sons.
Quem era aquele viajante de tantos confins?
Confinado em seus próprios gases?
*
ESPERA
Aquilo mesmo que busco
Como saída, me interrompe
Num tempo de esquecimento
Em suspenso
Suspense. Ânsia edificada no ar
Não tenho a oferecer ao outro
A não ser uma vida concluída.
A terminar. Um exílio forçado,
Não-voluntário.
Um susto, muitos riscos
Uma eterna ascensão
Um lugar não tombado
Nenhum traço de união
Só uma obra de arte
O espaço que ocupo
Completo, não despojado
Dos meus receios e temores
Dos meus ódios e amores
Do olhar dessemelhante
De qualquer ângulo em que estás.
via face, selecionadas por Ricardo Domeneck
Autora negra
(Aracaju, 1942 — Rio de Janeiro, 1995)
Antes tudo acontecesse como antes aconteceu
Não vindo como algo novo
Seduzindo o que não estava atento
Antes tudo acontecesse como o aviso do sinal
Atenção! “Está prestes a se concretizar”
E não como serpente silenciosa
Em seu silvar
Antes tudo acontecesse quando te sentisses forte
Capaz de reagir, que pudesses sangrar
Antes tudo acontecesse como se fosse o previsto
Visto de trás ou de longe
Antes que te atingisse de frente
Antes tudo acontecesse como acontecem as histórias
De encontros e rompimentos, num mergulho sem demora
Antes tudo se passasse como passa o arco-íris
Num momento luz, noutro bruma e crepúsculo.
*
Quantos caminhos percorro
A quantos choros recorro
Ao fim de cada cansaço
O que é aquela cama
Que daqui observo?
Vazia e desfeita como o acontecido?
Quantas perguntas me faço
Se certo ou errado, ou pura desatenção?
Se procedente ou contrário
Sem chegar à decisão
De abandonar de uma vez
Sonho há muito acumulado
O que é aquela cama no escuro?
Manchada de tantas culpas
Que caminham como víboras
E sugam aos poucos meu corpo?
Quem saltará sobre ela
Para ir em meu socorro?
Quantos caminhos vivi
Em quantas veredas sofri
A ânsia de ser feliz?
Como me encontro agora
Errantes como sempre foram
As sendas que escolhi.
*
À POTÊNCIA Z
Sendas abertas à força pesada
Movimento oscilante do conhecido
Irresoluto e precipitante
Como fundo falso.
No espelho véus justapostos
Ocultam o olhar como teias metálicas
Tornando o ser difuso.
Separando definitivamente o exterior do interior
Entrechocam-se e percutem fantasias antigas
Que não se miram como a um só pertencente.
E eis que surge na arena
Dançarino flamejante de intenções
Descabido como algo que desceu em terreno ocupado
Misterioso como dádiva encantada
De longínquas paragens.
Propiciador que ignorava capítulos de sua doutrina
Arrebatado qual luz da primeira hora.
Entre trevas e lusco-fusco
Ninguém saberia dizer sua “Eternia”.
De que matéria se constituía
A que missão se destinava.
Nas cores que esbanjava
A perplexidade das combinações
Sufocava os gritos de dor
Inibia os brados de alegria.
Chamejando como picantes chicotes
A volúpia luminosa impedia os sons.
Quem era aquele viajante de tantos confins?
Confinado em seus próprios gases?
*
ESPERA
Aquilo mesmo que busco
Como saída, me interrompe
Num tempo de esquecimento
Em suspenso
Suspense. Ânsia edificada no ar
Não tenho a oferecer ao outro
A não ser uma vida concluída.
A terminar. Um exílio forçado,
Não-voluntário.
Um susto, muitos riscos
Uma eterna ascensão
Um lugar não tombado
Nenhum traço de união
Só uma obra de arte
O espaço que ocupo
Completo, não despojado
Dos meus receios e temores
Dos meus ódios e amores
Do olhar dessemelhante
De qualquer ângulo em que estás.
via face, selecionadas por Ricardo Domeneck
Autora negra
domingo, 17 de maio de 2020
mar becker
hoje: em memória de todos aqueles que estamos perdendo - mas que não se vão jamais
---
os mortos continuam morrendo
entre nós
passam-se dias, e ainda se veem fios de cabelos na escova
passam-se meses, até anos
e o pedaço de papel que foi deixado na gaveta reaparece
e pela caligrafia encontramos o pulso
e pelo pulso, o sangue
.
os mortos continuam morrendo
vão indo aos poucos, enquanto olhamos suas fotografias, seus verões passados
e vez ou outra lembramos que podemos tocar seus rostos com a ponta dos dedos
eles não se turvarão
não desaparecerão como se fossem reflexo na superfície da água
(hão de amarelar um dia, e então falaremos deles como sóis se pondo)
.
para que tenhamos onde descansar os olhos, por isso os mortos morrem assim, tão ternos
para que tenhamos altares
para que tenhamos lugares
em torno de onde
dizer alguma
palavra
---
mar becker
em: primeira versão do texto de abertura do caderno dos mortos, 2017/20
imagem: domenico a. coiro
via camile
---
os mortos continuam morrendo
entre nós
passam-se dias, e ainda se veem fios de cabelos na escova
passam-se meses, até anos
e o pedaço de papel que foi deixado na gaveta reaparece
e pela caligrafia encontramos o pulso
e pelo pulso, o sangue
.
os mortos continuam morrendo
vão indo aos poucos, enquanto olhamos suas fotografias, seus verões passados
e vez ou outra lembramos que podemos tocar seus rostos com a ponta dos dedos
eles não se turvarão
não desaparecerão como se fossem reflexo na superfície da água
(hão de amarelar um dia, e então falaremos deles como sóis se pondo)
.
para que tenhamos onde descansar os olhos, por isso os mortos morrem assim, tão ternos
para que tenhamos altares
para que tenhamos lugares
em torno de onde
dizer alguma
palavra
---
mar becker
em: primeira versão do texto de abertura do caderno dos mortos, 2017/20
imagem: domenico a. coiro
via camile
domingo, 10 de maio de 2020
trecho de A noite dos Assassinos, de José Triana
"A Sala não é a sala, a sala é a cozinha
O Quarto não é o Quarto, o quarto é o banheiro."
via Robson no FB
O Quarto não é o Quarto, o quarto é o banheiro."
via Robson no FB
Razões adicionais para os poetas mentirem, por Hans Magnus Enzensberger
Porque o momento
no qual a palavra feliz
é pronunciada,
jamais é o momento feliz.
Porque quem morre de sede
não pronuncia sua sede
Porque na boca da classe operária
não existe a palavra classe operária.
Porque quem desespera
não tem vontade de dizer:
“Sou um desesperado”.
Porque orgasmo e orgasmo
não são conciliáveis.
Porque o moribundo em vez de alegar:
“Estou morrendo”
só deixa perceber um ruído surdo
que não compreendemos.
Porque são os vivos
que chateiam os mortos
com suas notícias catastróficas.
Porque as palavras chegam tarde demais,
ou cedo demais
Porque, portanto, é sempre um outro,
sempre um outro
quem fala por aí,
e porque aquele
do qual se fala
se cala.
post de Aline no face em 10/05/2020
sexta-feira, 8 de maio de 2020
TO SOME I HAVE TALKED WITH BY THE FIRE, de w.b. yeats
WHILE I wrought out these fitful Danaan rhymes,
My heart would brim with dreams about the times
When we bent down above the fading coals
And talked of the dark folk who live in souls
Of passionate men, like bats in the dead trees;
And of the wayward twilight companies
Who sigh with mingled sorrow and content,
Because their blossoming dreams have never bent
Under the fruit of evil and of good:
And of the embattled flaming multitude
Who rise, wing above wing, flame above flame,
And, like a storm, cry the Ineffable Name,
And with the clashing of their sword-blades make
A rapturous music, till the morning break
And the white hush end all but the loud beat
Of their long wings, the flash of their white feet.
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