Brasil
''adjetivo de dois gêneros
1.
relativo a brasa.''
[Natália Correia nasceu a 13 de Setembro de 1923]
Senhores jurados sou um
poeta um multipétalo uivo um defeito e ando com
uma camisa de vento ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis de
armazenado espanto e por fim com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim Sou em código o azul
de todos (curtido couro de cicatrizes) uma
avaria cantante na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade o vosso enfarte
serei não há cidade sem o parque do sono que
vos roubei Senhores professores que puseste
a prémio minha rara edição de raptar-me em
crianças que salvo do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho de em pó volverdes
sois os reis sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis Senhores
heróis até aos dentes puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos umas estrofes mais
além Senhores três quatro cinco e sete que
medo vos pôs na ordem ? que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ? Senhores
juízes que não molhais a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro sem que ele cante
minha defesa Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever ó
subalimentados do sonho ! a poesia é para comer.
Via opoemaensinaacair
“Imagine um olho não governado por leis de perspectiva criadas por homens, um olho não influenciado por lógica de composição, um olho que não responde ao nome de tudo mas que deve conhecer cada objeto encontrado na vida através da aventura da percepção. Quantas cores há num campo gramado para o bebê que engatinha, ainda não consciente do ‘Verde’? Quantos arcos-íris a luz pode criar para um olho desprovido de tutela? Imagine um mundo vivo povoado de objetos incompreensíveis e cintilando ao longo de uma gama infinita de movimentos e de inúmeras gradações de cor. Imagine um mundo ‘anterior ao conhecimento, antes de a palavra ser.’”
via Deusimar
Retirado do vol XIV das Obras Completas – Ed. Imago.
Não faz muito tempo empreendi, num dia de verão, uma caminhada através de campos sorridentes na companhia de um amigo taciturno e de um poeta jovem mas já famoso. O poeta admirava a beleza do cenário à nossa volta, mas não extraía disso qualquer alegria. Perturbava-o o pensamento de que toda aquela beleza estava fadada à extinção, de que desapareceria quando sobreviesse o inverno, como toda a beleza humana e toda a beleza e esplendor que os homens criaram ou poderão criar. Tudo aquilo que, em outra circunstância, ele teria amado e admirado, pareceu-lhe despojado de seu valor por estar fadado à transitoriedade.
Lá vem o lança-chamas
Pega a garrafa de gasolina
Atira
Eles querem matar todo amor
Corromper o pólo
Estancar a sede que eu tenho doutro ser
Vem de flanco, de lado
Por cima, por trás
Atira
Atira
Resiste
Defende
De pé
De pé
De pé
O futuro será de toda humanidade
Ricardo Domeneck, in 'Carta aos anfíbios' (2005)
EU DIGO SIM ATÉ DIZER NÃO
as circunvoluções
e caprichos
da atenção:
erguer a cabeça
e perder o sono
sopro
vento
em que
uma primeira esfera
de ar impele
outra ao movimento
ou em alto-mar
temendo menos a ausência
de resgate na superfície
que a povoação alheia
e por isso informe, abaixo
n’água, invisível, mas parte
integrante das estruturas
do dia real
só a lucidez abre caminho
para o imaginário
mas a carne insiste
no contínuo
onde as pedras são comestíveis
e exige-se a fome;
durante a transfiguração
em que anjos e bandejas
circulam seu jardim
é fácil salmodiar
providências e entregas; mas
é com o linho enfaixando toda a
pele e a pedra
separando esta caverna
da saúde do ar
que se espera um Lázaro!
Lázaro! e um segundo
antes da asfixia
crer ainda
que seja este o meu
nome, seja ESTE o MEU
nome
se cada folha parece
percutir o sol hoje
e não se debruça do estame
para o vazio
o mundo
é tão simpático
da montanha que fala resta
a mímica, da presença
o ventríloquo, de sua boca
o mapa que reconduz à porta
mão em mão com passos lentos
mas foi Isaque a carregar a lenha
nas costas, tomar o fogo e o cutelo
na mão; e caminhou junto de seu pai
todo sacrifício é aparente e inútil,
nenhuma
árvore camufla
suas frutas:
as expõe
ao pássaro, ao
chão, ao suco
na garganta, à recusa
do estômago
por
tanto
percorro os andaimes
de equilíbrio precário
:
ferro oxidável
saudoso
de água
e a alegria de quem, na
obrigação de abater um novilho,
espera que seu corpo, de repente
forte, sobreviva ao sacrifício,
como uma garganta
enrijece-se rápida
para resistir à faca
– Ricardo Domeneck, in 'Carta aos anfíbios' (2005)