domingo, 29 de novembro de 2020

The Wandering Rats, ou Die Wanderratten, de Henrich Heine, translated by Cameron Shingleton

 The Wandering Rats


There are two kinds of rat:

The hungry and the fat.

The fat ones stay content at home,

The hungry ones though, they hungrily roam.


They roam for many a mile,

Relentlessly lacking in style,

Straight on along their miserable track,

No wind nor weather can hold them back.


They climb over mountain peaks,

They swim the murkiest lakes;

Many have broken their necks or drowned,

The living pass on without looking around.


Take a look at these louts

With their fearsome ugly snouts;

Heads shaven bare they're at physical peak -

Radical chic - ratty and sleek.


The radical rodent squad

Know nothing of Heaven or God.

Their whelps run unbaptised and free,

Their wives are common property.


The sensuous rats of the fleet

Want no more than to drink and to eat,

No thought while they gulp, slurp and chortle

That our souls were created immortal.


Such wild and savage rats

Have no fear of Hell or of cats;

They think though they haven't a cent to their name

To divide up the world so we all have the same.


The rats are a'roaming here too,

Coming to a suburb near you!

I hear their squeaks, straight on they press,

Their multitude is numberless.


Alas! By now its too late,

They're already at the gate!

The local council and the mayor

Are shaking their heads in brainless despair.


Good citizens ready to arm,

The church bells ring out in alarm.

In peril is something by which we set store,

Our property values, our whole rule of law


No tolling of bells, no pious old pleas,

No majestic parliamentary decrees,

No squadron of cannon, no hundred pounders

Will save your children, your statues of founders,


No help from the verbal poptarts

Of weary rhetorical arts.

You don't catch a rat with a logical trap

So spare me your fine-spun sophistical crap.


To the hungry inside of a rat in a group

Appeals only the logic of dumplings and soup,

Arguments smelling of pig on a spit

With a side-dish of porky political wit.


A taciturn cod stewed in butter for hours

Is what pleases the radical powers

Far better than any Mirabeau

Or all the orations since Cicero.

--------------------------------------------

Die Wanderratten


Es gibt zwei Sorten Ratten:

Die hungrigen und satten.

Die satten bleiben vergn ügt zu Haus,

Die hungrigen aber wandern aus.


Sie wandern viel tausend Meilen,

Ganz ohne Rasten und Weilen,

Gradaus in ihrem grimmigen Lauf,

Nicht Wind noch Wetter hält sie auf.



Sie klimmen wohl über die Hцhen,

Sie schwimmen wohl durch die Seen;

Gar manche ersäuft oder bricht das Genick,

Die lebenden lassen die Toten zurück.


Es haben diese Käuze

Gar fürchterliche Schnäuze;

Sie tragen die Köpfe geschoren egal,

Ganz radikal, ganz rattenkahl.


Die radikale Rotte

Weiß nichts von einem Gotte.

Sie lassen nicht taufen ihre Brut,

Die Weiber sind Gemeindegut.


Der sinnliche Rattenhaufen,

Er will nur fressen und saufen,

Er denkt nicht, während er säuft und frißt,

Daß unsre Seele unsterblich ist.


So eine wilde Ratze,

Die fürchtet nicht Hölle, nicht Katze;

Sie hat kein Gut, sie hat kein Geld

Und wünscht aufs neue zu teilen die Welt.


Die Wanderratten, o wehe!

Sie sind schon in der Nähe.

Sie rücken heran, ich höre schon

Ihr Pfeifen - die Zahl ist Legion


O wehe! wir sind verloren,

Sie sind schon vor den Toren!

Der Bürgermeister und Senat,

Sie schütteln die Köpfe, und keiner weiß Rat.


Die Bürgerschaft greift zu den Waffen,

Die Glocken läuten die Pfaffen.

Gefährdet ist das Palladium

Des sittlichen Staats, das Eigentum.


Nicht Glockengeläute, nicht Pfaffengebete,

Nicht hochwohlweise Senatsdekrete,

Auch nicht Kanonen, viel Hundertpfünder,

Sie helfen Euch heute, Ihr lieben Kinder!


Heut helfen Euch nicht die Wortgespinste

Der abgelebten Redekünste.

Man fängt nicht Ratten mit Syllogismen,

Sie springen über die feinsten Sophismen.


Im hungrigen Magen Eingang finden

Nur Suppenlogik mit Knödelgründen,

Nur Argumente von Rinderbraten,

Begleitet mit Göttinger Wurst-Zitaten.


Ein schweigender Stockfisch, in Butter gesotten,

Behaget den radikalen Rotten

Viel besser als ein Mirabeau

Und alle Redner seit Cicero.


POSTED BY CAMERON SHINGLETON 


source: http://cshingleton.blogspot.com/2010/02/translations-2-heine.html


citado no original em alemão em observações sobre o amor de transferência, de Freud

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Te Assombra o Raiar do Dia, de Ebba Hentze, trad por Luciano Dutra

 TE ASSOMBRA O RAIAR DO DIA


Te assombra o raiar do dia

e o vento

dias grises

em que todos os repastos são monocromáticos

e as tramazeiras se debatem contra as empenas

e a única embarcação no fiorde

é esse barco a remo

e o velho

que puxa a rede de pescar búzios

primeiro uma poita

depois a outra


(traduzido do feroês por Luciano Dutra)


[TÚ RÆÐIST GRÁLÝSIÐ]


Tú ræðist grálýsið

og vindin

gráar daga

tá øll verðin er einlitt

og roynitrøyni pínast móti skjøldrinum

og einasta farið á fjørðinum

er tristurin

og gamli maðurin

sum hálar kúvingalínuna inn

eitt høvd fyri

annað eftir


(Ebba Hentze)

sábado, 21 de novembro de 2020

No Second Troy, de Yeats, por Pedro Mohallem

 NENHUMA TROIA MAIS

(William Butler Yeats, trad. Pedro Mohallem)


Como culpá-la por encher meus dias

De angústia, ou por haver homens incultos

Incitado a violentas revelias,

E vielas contra ruas, em tumultos

A que bastassem o ímpeto e a coragem?

Como abrandar a mente que a nobreza

Fez simples como a chama, e o corpo à imagem

De um arco sempre teso, uma beleza

Estranha a tempos como o nosso, um ser

De altivo, austero e solitário ar?

Sendo quem é, que pôde ela fazer?

Havia Troias mais para incendiar?


______


NO SECOND TROY


Why should I blame her that she filled my days

With misery, or that she would of late

Have taught to ignorant men most violent ways,

Or hurled the little streets upon the great,

Had they but courage equal to desire?

What could have made her peaceful with a mind

That nobleness made simple as a fire,

With beauty like a tightened bow, a kind

That is not natural in an age like this,

Being high and solitary and most stern?

Why, what could she have done, being what she is?

Was there another Troy for her to burn?



Via facebook do autor

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

ESFINGE, de Orides Fontela

 ESFINGE


Não há perguntas. Selvagem

o silêncio cresce, difícil.


— Orides Fontela (1940–1998)




Via fb Ricardo Domeneck

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

O dilema de Telêmaco + Ítaca, de Louise Glück, tradução de Pedro Gonzaga

 O dilema de Telêmaco  

Nunca consigo decidir
o que escrever
nas lápides de meus pais. Sei
o que ele quer: ele quer
amado, o que por certo
vai direto ao ponto, particularmente
se contarmos todas
as mulheres. Mas
isso deixa minha mãe
a descoberto. Ela me diz
que isto não lhe importa
para nada; ela prefere
ser representada por
suas próprias conquistas. Parece
pura falta de tato lembrar aos dois
que alguém não
honra aos mortos perpetuando
suas vaidades, suas
projeções sobre si mesmos.
Meu próprio gosto dita
precisão sem
tagarelice; eles são
meus pais, consequentemente
eu os vejo juntos,
às vezes inclinado a
marido e mulher, outras a
forças opostas.

,,,

Ítaca

O ser amado não
precisa viver. O ser amado
vive na cabeça. O tear
é para os pretendentes, suspenso
como uma harpa de brancos filamentos.

Ele era duas pessoas.
Era corpo e voz, o fácil
magnetismo de um homem vivo, e então
o sonho revelado ou a imagem
formada pela mulher manejando o tear,
ali sentada num salão cheio
de homens de mentes literais.

Se te causa pena
o mar enganado que tentou
levá-lo para sempre
e devolveu apenas o primeiro,
o verdadeiro marido, deverias
sentir pena desses homens: eles não sabem
para o que estão olhando;
eles não sabem que quando alguém ama dessa maneira
o manto se torna um vestido de casamento.

,,,,

Ítaca foi camile que me mostrou, mas sem saber quem traduziu, busquei mais e cheguei aqui:

https://veja.abril.com.br/cultura/poetisa-louise-gluck-conquista-o-nobel-de-literatura-em-2020

"A íris selvagem", de Louise Glück, tradução de Camila Assad

 "No final do meu sofrimento

havia uma saída.

Me ouça bem: aquilo que você chama de morte
eu me recordo.

Mais acima, ruídos, ramos de um pinheiro se movendo.
Então, nada. O sol fraco
cintilando sobre a superfície seca.


É terrível sobreviver
como consciência,
enterrada na terra escura.

Então tudo acabou: aquilo que você teme,
se tornando
uma alma e incapaz
de falar, encerrando abruptamente, a terra dura
se inclinando um pouco. E o que pensei serem
pássaros lançando-se em arbustos baixos.

Você que não se lembra
da passagem de outro mundo
eu te digo poderia repetir: aquilo que
retorna do esquecimento retorna
para encontrar uma voz:

do centro de minha vida veio
uma vasta fonte, azul profundo
sombras na água do mar azul. "



Via camile via https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2020/10/08/leia-poemas-traduzidos-de-louise-gluck-vencedora-do-premio-nobel-de-literatura-2020.ghtml




Erva-de-bruxa, de Louise Glück, tradução de Margarida Vale de Gato

 ERVA-DE-BRUXA


Uma coisa 

malvinda aparece no mundo

a clamar desordem, desordem –

 

Se me odeias assim tanto

não te incomodes a dar-me

nome: ou precisas

de mais um insulto 

na tua língua, outra

forma de culpabilizar

uma tribo por tudo –

 

como sabemos ambos,

quando se adora

um deus, é só preciso

Um inimigo –

 

Eu não sou o inimigo.

Apenas um esquema para tapar

o que vês a acontecer

aqui nesta cama de terra,

um pequeno paradigma

de falhar. Uma das tuas flores preciosas

morre aqui quase todos os dias

e tu não vais descansar até

atacares a causa, ou seja

tudo o que restar, tudo

o que por acaso vinga

mais do que a tua paixão pessoal —

 

Não era seu destino

durar para sempre no mundo real.

Mas para quê admiti-lo, se podes continuar 

a fazer o que sempre fazes,

a carpir e a culpabilizar,

as duas coisas sempre juntas.


Eu não preciso dos teus elogios

para sobreviver. Já aqui estava antes

de cá chegares, antes de alguma vez

teres plantado um jardim.

E aqui estarei quando só o sol e a lua

restarem, e o mar, e o campo aberto.

 

Eu formarei o campo.



via camille via opoemaensinaacair