Eu fui obrigada a conhecer o avesso do mundo. Pra sobreviver à dor de não entender o que tinha acontecido, à dor de te perder, tudo. Eu tive que nascer pra vida da cidade. Não a vida social, mas a vida da cidade e de seus cantos esquecidos. O lixo do lixo. Eu me perdia pela cidade, anônima, e esse anonimato era um vício. Eu não ter meu nome me absolvia de tudo. Eu me embebedava do desejo cego por qualquer um... E assim, eu me iniciei na solidão coletiva dos que não têm nada a perder. Mas, talvez, eu tenha até mais que os outros a tentação de corresponder ao bem. Uma tentação tão grande e absoluta, um desejo de corresponder de forma tão total, que paradoxalmente me tornou e me torna escrava cega de minha escuridão. E quando essa escuridão me possui, eu até a confundo com uma espécie de bem aventurança.
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
domingo, 23 de janeiro de 2011
Rayuela, Julio Cortázar, fim do capítulo 6
De acuerdo en que en ese terreno no lo estarían nunca, se citaban por ahí y casi siempre se encontraban. Los encuentros eran a veces tan increíbles que Oliveira se planteaba una vez más el problema de las probabilidades y le daba vueltas por todos lados, desconfiadamente. No podía ser que la Maga decidiera doblar en esa esquina de la rue de Vaugirard exactamente en el momento en que él, cinco cuadras más abajo, renunciaba a subir por la rue de Buci y se orientaba hacia la rue Monsieur le Prince sin razón alguna, dejándose llevar hasta distinguirla de golpe, parada delante de una vidriera, absorta en la contemplación de un mono embalsamado. Sentados en un café reconstruían minuciosamente los itinerarios, los bruscos cambios, procurando explicarlos telepáticamente, fracasando siempre, y sin embargo se habían encontrado en pleno laberinto de calles, casi siempre acababan por encontrarse y se reían como locos, seguros de un poder que los enriquecía. A Oliveira le fascinaban las sinrazones de la Maga, su tranquilo desprecio por los cálculos más elementales. Lo que para él había sido análisis de probabilidades, elección o simplemente confianza en la rabdomancia ambulatoria, se volvía para ella simple fatalidad. "¿Y si no me hubieras encontrado?", le preguntaba. "No sé, ya ves que estás aquí..." Inexplicablemente la respuesta invalidaba la pregunta, mostraba sus adocenados resortes lógicos. Después de eso Oliveira se sentía más capaz de luchar contra sus prejuicios bibliotecarios, y paradójicamente la Maga se rebelaba contra su desprecio hacia los conocimientos escolares. Así andaban, Punch and Judy, atrayéndose y rechazándose como hace falta si no se quiere que el amor termine en cromo o en romanza sin palabras. Pero el amor, esa palabra...
retirado de:
sábado, 1 de janeiro de 2011
O Rapaz No Jardim, René Schickele
Quero pousar minhas mãos nuas uma sobre a outra
e deixá-las afundar pesadamente,
como se fossem amantes, pois a noite cai.
Sinos de maio soam no crepúsculo
e brancos véus de odores baixam sobre nós,
que espreitamos juntos nossas flores.
Através do último brilho do dia reluzem tulipas,
os lilases gritam dos arbustos,
uma rosa clara dilui-se no chão...
Somos bons um para o outro.
Lá fora através da noite azul
escutamos o soar abafado das horas.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
O Abutre, duas traduções, de Kafka.
Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés. Tinha já dilacerado sapatos e meias e penetrava-me a carne. De vez em quando, inquieto, esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina. Passava por ali um senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu podia suportar o abutre.
- É que estou sem defesa – respondi – Ele veio e atacou-me. Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como vê, estão quase despedaçados.
- Mas deixar-se torturar dessa maneira! – disse o senhor – Basta um tiro e pronto!
- Acha que sim? – disse eu – Quer o senhor disparar o tiro?
- Certamente – disse o senhor – É só ir a casa buscar a espingarda. Consegue aguentar meia hora?
- Não sei lhe dizer. – respondi.
Mas sentindo uma dor pavorosa, acrescentei:
- De qualquer modo, vá, peço-lhe.
- Bem – disse o senhor – Vou o mais depressa possivel.
O abutre escutara tranquilamente a conversa, fitando-nos alternadamente. Vi então que ele percebera tudo. Elevou-se com um bater de asas e depois, empinando-se para tomar impulso, como um lançador de dardo, enfiou-me o bico pela boca até ao mais profundo do meu ser. Ao cair senti, com que alívio, que o abutre se engolfava impiedosamente nos abismos infinitos do meu sangue.
(fonte: http://conselheiroacacio.wordpress.com/2008/08/11/o-abutre-franz-kafka/)
------------------------------------------------------------------------------------------
Um abutre golpeava-me os pés com o bico. Já tinha rasgado e despedaçado as minhas botas e meias e agora ia debicando os meus pés. Investia contra eles repentinamente, depois voava em círculos, irrequieto, à minha volta, para depois regressar e continuar o trabalho. Passou então por mim um cavalheiro, observou a cena durante uns instantes, depois perguntou-me porque razão eu suportava aqueles truques. "Não consigo defender-me", respondi. "Quando o abutre veio e me começou a atacar, claro que tentei enxotá-lo, tentei mesmo estrangulá-lo, mas estes animais são muito fortes, ele estava prestes a investir contra a minha cara, por isso preferi sacrificar os pés. Agora estão quase feitos em pedaços". "Imagine-se uma pessoa deixar-se torturar assim!", disse o senhor. "Basta um tiro e é o fim do abutre." "A sério?", perguntei eu. "E o senhor faria isso?" "Com prazer, replicou o cavalheiro. "Tenho apenas de ir a casa buscar a minha arma. Seria capaz de esperar mais meia hora?" "Não tenho a certeza se consigo, disse eu, e levantei-me por um momento, hirto de dor. Acrescentei então: "Em todo o caso tente, por favor." "Muito bem, disse o cavalheiro." Vou o mais depressa que puder." Durante esta conversa o abutre tinha estado calmamente à escuta, passeando o olhar entre mim e o cavalheiro. Apercebi-me agora que ele compreendera tudo. Levantou então voo, afastou-se bastante para ganhar ímpeto e depois, como um lançador de dardo, mergulhou o bico na minha boca, pela garganta abaixo, penetrando fundo no meu corpo. Caindo para trás, fiquei aliviado quando senti que a ave se afogava irrecuperavelmente no meu sangue, sangue que enchia todas as profundezas e inundava todas as terras.
(fonte: http://queridobestiario.blogspot.com/2009/06/o-abutre-fanz-kafka.html)
- É que estou sem defesa – respondi – Ele veio e atacou-me. Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como vê, estão quase despedaçados.
- Mas deixar-se torturar dessa maneira! – disse o senhor – Basta um tiro e pronto!
- Acha que sim? – disse eu – Quer o senhor disparar o tiro?
- Certamente – disse o senhor – É só ir a casa buscar a espingarda. Consegue aguentar meia hora?
- Não sei lhe dizer. – respondi.
Mas sentindo uma dor pavorosa, acrescentei:
- De qualquer modo, vá, peço-lhe.
- Bem – disse o senhor – Vou o mais depressa possivel.
O abutre escutara tranquilamente a conversa, fitando-nos alternadamente. Vi então que ele percebera tudo. Elevou-se com um bater de asas e depois, empinando-se para tomar impulso, como um lançador de dardo, enfiou-me o bico pela boca até ao mais profundo do meu ser. Ao cair senti, com que alívio, que o abutre se engolfava impiedosamente nos abismos infinitos do meu sangue.
(fonte: http://conselheiroacacio.wordpress.com/2008/08/11/o-abutre-franz-kafka/)
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Um abutre golpeava-me os pés com o bico. Já tinha rasgado e despedaçado as minhas botas e meias e agora ia debicando os meus pés. Investia contra eles repentinamente, depois voava em círculos, irrequieto, à minha volta, para depois regressar e continuar o trabalho. Passou então por mim um cavalheiro, observou a cena durante uns instantes, depois perguntou-me porque razão eu suportava aqueles truques. "Não consigo defender-me", respondi. "Quando o abutre veio e me começou a atacar, claro que tentei enxotá-lo, tentei mesmo estrangulá-lo, mas estes animais são muito fortes, ele estava prestes a investir contra a minha cara, por isso preferi sacrificar os pés. Agora estão quase feitos em pedaços". "Imagine-se uma pessoa deixar-se torturar assim!", disse o senhor. "Basta um tiro e é o fim do abutre." "A sério?", perguntei eu. "E o senhor faria isso?" "Com prazer, replicou o cavalheiro. "Tenho apenas de ir a casa buscar a minha arma. Seria capaz de esperar mais meia hora?" "Não tenho a certeza se consigo, disse eu, e levantei-me por um momento, hirto de dor. Acrescentei então: "Em todo o caso tente, por favor." "Muito bem, disse o cavalheiro." Vou o mais depressa que puder." Durante esta conversa o abutre tinha estado calmamente à escuta, passeando o olhar entre mim e o cavalheiro. Apercebi-me agora que ele compreendera tudo. Levantou então voo, afastou-se bastante para ganhar ímpeto e depois, como um lançador de dardo, mergulhou o bico na minha boca, pela garganta abaixo, penetrando fundo no meu corpo. Caindo para trás, fiquei aliviado quando senti que a ave se afogava irrecuperavelmente no meu sangue, sangue que enchia todas as profundezas e inundava todas as terras.
(fonte: http://queridobestiario.blogspot.com/2009/06/o-abutre-fanz-kafka.html)
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
O Passeio, de Alfred Lichtenstein, 2
Tu, esses quartos
Fixos e as áridas ruas
E o rubro sol das casas,
A infame repugnância de todos
Os livros há muito já folheados –
Não os agüento mais.
Vem, precisamos sair da cidade
Para muito longe.
Vamos deitar-nos em
Suave gramado.
Ameaçadores e tão abandonados,
Contra o absurdamente grande,
Mortalmente azul, brilhante céu,
Levantaremos mãos choradas
E encantados,
Descarnados, apáticos olhos.
(tradução de Claudia Cavalcanti)
(fonte: http://albumzutico.blogspot.com/2008_01_29_archive.html)
Fixos e as áridas ruas
E o rubro sol das casas,
A infame repugnância de todos
Os livros há muito já folheados –
Não os agüento mais.
Vem, precisamos sair da cidade
Para muito longe.
Vamos deitar-nos em
Suave gramado.
Ameaçadores e tão abandonados,
Contra o absurdamente grande,
Mortalmente azul, brilhante céu,
Levantaremos mãos choradas
E encantados,
Descarnados, apáticos olhos.
(tradução de Claudia Cavalcanti)
(fonte: http://albumzutico.blogspot.com/2008_01_29_archive.html)
O Passeio, de Alfred Lichtenstein, 1
Tu, não aguento mais
esses quartos imóveis e as áridas ruas,
e o rubro sol das casas,
a infame repugnância de todos
os livros há muito folheados.
Vem, precisamos sair da cidade
para bem longe.
Vamos deitar-nos na
grama suave.
Vamos, ameaçados e sem ajuda,
contra o absurdamente grande,
mortalmente azul, brilhante céu,
levantar olhos encovados e apáticos,
desencantadas e desgastadas mãos.
(tentei descobrir o tradutor, não consegui)
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Rainer Maria Rilke, Cartas a Um Jovem Poeta, 12 de agosto de 1904, trechos
"Quanto mais tranqüilos, pacientes e receptivos formos quando estamos tristes, tanto mais profundo e mais firme o modo como o novo entra em nós, tanto mais fazemos por merecê-lo, tanto mais ele se torna o nosso destino."
"Voltando ao assunto da solidão, fica cada vez mais claro que no fundo ela não é nada que se possa escolher ou abandonar. Somos solitários. É possível iludir-se a esse respeito e agir como se não fôssemos. É tudo. Muito melhor, porém, é perceber que somos solitários, e partir exatamente daí. Com certeza acontecerá de sentirmos vertigens, pois todos os pontos em que nossos olhos costumavam descansar nos são tirados, não há mais nada próximo, e toda distância é uma distância infinita. Quem fosse retirado de seu quarto, quase sem preparação ou transição, e posto nas alturas de uma grande montanha, necessariamente sentiria algo semelhante: uma insegurança, um abandono ao inominável quase o aniquilariam. Ele pensaria estar caindo ou sendo arrastado pelos ares ou destroçado em mil pedaços. Seu cérebro precisaria inventar uma mentira enorme para captar e esclarecer a situação de seus sentidos."
"Voltando ao assunto da solidão, fica cada vez mais claro que no fundo ela não é nada que se possa escolher ou abandonar. Somos solitários. É possível iludir-se a esse respeito e agir como se não fôssemos. É tudo. Muito melhor, porém, é perceber que somos solitários, e partir exatamente daí. Com certeza acontecerá de sentirmos vertigens, pois todos os pontos em que nossos olhos costumavam descansar nos são tirados, não há mais nada próximo, e toda distância é uma distância infinita. Quem fosse retirado de seu quarto, quase sem preparação ou transição, e posto nas alturas de uma grande montanha, necessariamente sentiria algo semelhante: uma insegurança, um abandono ao inominável quase o aniquilariam. Ele pensaria estar caindo ou sendo arrastado pelos ares ou destroçado em mil pedaços. Seu cérebro precisaria inventar uma mentira enorme para captar e esclarecer a situação de seus sentidos."
"No fundo é esta a única coragem que se exige em nós: sermos corajosos diante do que é estranho, mais maravilhoso e mais inexplicável entre tudo com que nos deparamos."
"Contudo, é muito mais humana do que essa segurança aquela incerteza, cheia de perigos, que leva os prisioneiros dos contos de Poe a tatearem as formas de seus cárceres aterrorizantes e a não serem alheios aos horrores indizíveis de sua permanência ali."
"E no entanto nós não somos prisioneiros. Não há armadilhas e emboscadas armadas em torno de nós, nada que nos devesse angustiar ou perturbar. Estamos lançados na vida como no elemento ao qual correspondemos melhor, além disso nos tornamos, por meio de uma adaptação de milhares de anos, tão semelhantes a essa vida que, por um mimetismo afortunado, se nos mantivermos quietos, quase não nos diferenciaremos daquilo que nos cerca. Não temos motivo algum para desconfiar de nosso mundo, pois ele não está contra nós. Caso possua terrores, são nossos terrores; caso surjam abismos, esses abismos pertencem a nós; caso existam perigos, então precisamos aprender a amá-los."
"Como poderíamos esquecer aqueles antigos mitos que se encontram nos primórdios de todos os povos, os mitos sobre os dragões que, no último momento, transformam-se em princesas; talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas, que só esperam nos ver um dia belos e corajosos."
"É preciso ter paciência como um doente e ter confiança como um convalescente, pois talvez o senhor seja ambas as coisas. Mais ainda: o senhor também é o médico que tem de tratar de si mesmo. Mas em toda doença há muitos dias em que o médico não pode fazer nada além de esperar. E é isso, mais do que qualquer coisa, que o senhor, por ser seu próprio médico, precisa fazer agora."
"Em geral, é preciso ter muito cuidado com os nomes; muitas vezes é o nome de um crime que destrói uma vida, e não a própria ação, pessoal e inominada, que talvez fosse uma necessidade muito determinada dessa vida e pudesse ser acolhida sem esforço por ela."
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