quinta-feira, 11 de março de 2021

O Divisor, de Edwin Morgan

 Continuo pensando em você - o que é ridículo. 

Estes anos entre nós como um mar.

E a dignidade que veio com o tempo 

impediria meu lápis sobre o papel.

O som estava ligado; você pediu pelos Stones; 

conseguiu, conseguiu café fresco, conversa.

As cortinas cerradas guardavam uma noite selvagem. 

Continuo pensando nos seus olhos, suas mãos.

Não há razão para isto, nenhuma.

Você diria que não posso ser o que não sou, 

mesmo que eu não possa ser o que sou.

Onde isso nos leva? O que podemos fazer?

O silêncio após Jagger foi como uma capa 

que eu teria jogado sobre você - havia apenas 

o vento, e o relógio batia enquanto você bebia, 

agarrando a caneca verde entre as mãos.

Não olhe para cima assim de repente!

Como é duro não olhar você.

Chegamos ao ponto de não falar 

e não se preocupar, e aquilo 

foi quase feliz. Então, mais tarde,

quando você deitou sobre o cotovelo no carpete 

não senti nada além de uma punhalada 

de dor me dizendo o que era, 

e não posso dizer para você, nem uma palavra.


[In Edwin Morgan - Poetas do Mundo, seleção, tradução e introdução de Virna Teixeira, Brasília, Ed. UNB, 2006, pp. 29-31]. 


via: http://www.banquetepoetico.com.br/2013/11/edwin-morgan.html?m=1

domingo, 7 de março de 2021

trecho de Utopia de um homem que está cansado, de Jorge Luís Borges, tradução de Davi Arrigucci Jr.

 — Trata-se de uma citação? — perguntei.

— Com certeza. Só nos restam citações. A língua é um sistema de citações.

In : Utopia de um homem que está cansado - Jorge Luís Borges

Cantares, de Antonio Machado

Tudo passa e tudo fica

porém o nosso é passar,

passar fazendo caminhos

caminhos sobre o mar


Nunca persegui a glória

nem deixar na memória

dos homens minha canção

eu amo os mundos sutis

leves e gentis,

como bolhas de sabão


Gosto de ver-los pintar-se

de sol e grená, voar

abaixo o céu azul, tremer

subitamente e quebrar-se…


Nunca persegui a glória


Caminhante, são tuas pegadas

o caminho e nada mais;

caminhante, não há caminho,

se faz caminho ao andar


Ao andar se faz caminho

e ao voltar a vista atrás

se vê a senda que nunca

se há de voltar a pisar


Caminhante não há caminho

senão há marcas no mar…


Faz algum tempo neste lugar

onde hoje os bosques se vestem de espinhos

se ouviu a voz de um poeta gritar

“Caminhante não há caminho,

se faz caminho ao andar”…


Golpe a golpe, verso a verso…


Morreu o poeta longe do lar

cobre-lhe o pó de um país vizinho.

Ao afastar-se lhe viram chorar

“Caminhante não há caminho,

se faz caminho ao andar…”


Golpe a golpe, verso a verso…


Quando o pintassilgo não pode cantar.

Quando o poeta é um peregrino.

Quando de nada nos serve rezar.

“Caminhante não há caminho,

se faz caminho ao andar…”


Golpe a golpe, verso a verso.


(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

quinta-feira, 4 de março de 2021

Cântico Negro, de José Régio

 Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui!"

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali...


A minha glória é esta:

Criar desumanidades!

Não acompanhar ninguém.

— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe


Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde

Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí...


Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.


Como, pois, sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?...

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tetos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...


Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou,

É uma onda que se alevantou,

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

Sei que não vou por aí!




via: Arthur M. C.

via: https://www.culturagenial.com/poema-cantico-negro-de-jose-regio/

terça-feira, 2 de março de 2021

Psicologia da Composição, de João Cabral de Melo Neto

 1.


Saio de meu poema

como quem lava as mãos.


Algumas conchas tornaram-se,

que o sol da atenção

cristalizou; alguma palavra

que desabrochei, como a um pássaro.


Talvez alguma concha

dessas (ou pássaro) lembre,

côncava, o corpo do gesto

extinto que o ar já preencheu;


talvez, como a camisa

vazia, que despi.


2.


Esta folha branca

me proscreve o sonho,

me incita ao verso

nítido e preciso.


Eu me refugio

nesta praia pura

onde nada existe

em que a noite pouse.


Como não há noite

cessa toda fonte;

como não há fonte

cessa toda fuga;


como não há fuga

nada lembra o fluir

de meu tempo, ao vento

que nele sopra o tempo.


3.


Neste papel

pode teu sal

virar cinza;


pode o limão

virar pedra;

o sol da pele,

o trigo do corpo

virar cinza.


(Teme, por isso,

a jovem manhã

sobre as flores

da véspera.)


Neste papel

logo fenecem

as roxas, mornas


flores morais;

todas as fluidas

flores da pressa;

todas as úmidas

flores do sonho.


(Espera, por isso,

que a jovem manhã

te venha revelar

as flores da véspera.)


4.


O poema, com seus cavalos,

quer explodir

teu tempo claro; rompendo

seu branco fio, seu cimento

mudo e fresco.


(O descuido ficara aberto

de par em par;

um sonho passou, deixando

fiapos, logo árvores instantâneas

coagulando a preguiça.)


5.


Vivo com certas palavras,

abelhas domésticas.


Do dia aberto

(branco guarda-sol)

esses lúcidos fusos retiram

o fio de mel

(do dia que abriu

também como flor)


que na noite

(poço onde vai tombar

a aérea flor)

persistirá: louro

sabor, e ácido

contra o açúcar do podre.


6.


Não a forma encontrada

como uma concha, perdida

nos frouxos areais

como cabelos;


não a forma obtida

em lance santo ou raro,

tiro nas lebres de vidro

do invisível;


mas a forma atingida

como a ponta do novelo

que a atenção, lenta,

desenrola,


aranha; como o mais extremo

desse fio frágil, que se rompe

ao peso, sempre, das mãos

enormes.


7.

É mineral o papel

onde escrever

o verso; o verso

que é possível não fazer.


São minerais

as flores e as plantas,

as frutas, os bichos

quando em estado de palavra.


É mineral

a linha do horizonte,

nossos nomes, essas coisas

feitas de palavras.


É mineral, por fim,

qualquer livro:

que é mineral a palavra

escrita, a fria natureza


da palavra escrita.


8.


Cultivar o deserto

como um pomar às avessas.


(A árvore destila

a terra, gota a gota;

a terra completa

caiu, fruto!


Enquanto na ordem

de outro pomar

a atenção destila

palavras maduras.)


Cultivar o deserto

como um pomar às avessas:


então, nada mais

destila; evapora;

onde foi maçã

resta uma fome;


onde foi palavra

(potros ou touros

contidos) resta a severa

forma do vazio.



Paisagem pelo Telefone, de João Cabral de Mello Neto

PAISAGEM PELO TELEFONE

Sempre que no telefone

me falavas, eu diria

que falavas de uma sala

toda de luz invadida,


sala que pelas janelas,

duzentas, se oferecia

a alguma manhã de praia,

mais manhã porque marinha,


a alguma manhã de praia

no prumo do meio-dia,

meio-dia mineral

de uma praia nordestina,


Nordeste de Pernambuco,

onde as manhãs são mais limpas,

Pernambuco do Recife,

de Piedade, de Olinda,


sempre povoado de velas,

brancas, ao sol estendidas,

de jangadas, que são velas

mais brancas porque salinas,


que, como muros caiados

possuem luz intestina,

pois não é o sol que as veste

e tampouco as ilumina,


mais bem, somente as desveste

de toda sombra ou neblina,

deixando que livres brilhem

os cristais que dentro tinham.


Pois, assim, no telefone

tua voz me parecia

como se de tal manhã

estivesse envolvida,


fresca e clara, como se

telefonasses despida,

ou, se vestida, somente

de roupa de banho, mínima,


e que por mínima, pouco

de tua luz própria tira,

e até mais, quando falavas

no telefone, eu diria


que estavas de todo nua,

só de teu banho vestida,

que é quando tu estás mais clara

pois a água nada embacia,


sim, como o sol sobre a cal

seis estrofes mais acima,

a água clara não te acende:

libera a luz que já tinhas.



Publicado no livro Quaderna (1960).


In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Org. Marly de Oliveira.

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.225-227.

(Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)


via: https://www.escritas.org/pt/t/11506/paisagem-pelo-telefone

indicação de: ayrton b.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Hilda Hilst em Poemas aos Homens de nosso tempo

X


Amada vida:


Que essa garra de ferro


Imensa


Que apunhala a palavra


Se afaste


Da boca dos poetas.


PÁSSARO-PALAVRA


LIVRE


VOLÚPIA DE SER ASA


NA MINHA BOCA.


Que essa garra de ferro


Imensa


Que me dilacera


Desapareça


Do ensolarado roteiro


Do poeta.


PÁSSARO-PALAVRA


LIVRE


VOLÚPIA DE SER ASA


NA MINHA BOCA.


Que essa garra de ferro


Calcinada


Se desfaça


Diante da luz


Intensa da palavra.


PALAVRA-LIVRE


Volúpia de ser pássaro


Amada vertiginosa.


Asa.


XI


Se o teu, o meu, nosso do tigre


Se fizesse livre, como seria?


Se convivesses unânime


Como as estrias do dorso


Desse tigre


Convivem com seu todo


Te farias mais garra?


Ou mais crueza? Ou nasceria


Em ti uma outra criatura


Límpida, solar, ígnea?


Tentarias a sorte de saltar


Em direção à Vega, Canópus?


Te chamarias tigre ou Homem?


Homem: reverso da compulsória


Fome do tigre.


Homem: alado e ocre


Pássaro da morte.