terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Hilda Hilst em Poemas aos Homens de nosso tempo

X


Amada vida:


Que essa garra de ferro


Imensa


Que apunhala a palavra


Se afaste


Da boca dos poetas.


PÁSSARO-PALAVRA


LIVRE


VOLÚPIA DE SER ASA


NA MINHA BOCA.


Que essa garra de ferro


Imensa


Que me dilacera


Desapareça


Do ensolarado roteiro


Do poeta.


PÁSSARO-PALAVRA


LIVRE


VOLÚPIA DE SER ASA


NA MINHA BOCA.


Que essa garra de ferro


Calcinada


Se desfaça


Diante da luz


Intensa da palavra.


PALAVRA-LIVRE


Volúpia de ser pássaro


Amada vertiginosa.


Asa.


XI


Se o teu, o meu, nosso do tigre


Se fizesse livre, como seria?


Se convivesses unânime


Como as estrias do dorso


Desse tigre


Convivem com seu todo


Te farias mais garra?


Ou mais crueza? Ou nasceria


Em ti uma outra criatura


Límpida, solar, ígnea?


Tentarias a sorte de saltar


Em direção à Vega, Canópus?


Te chamarias tigre ou Homem?


Homem: reverso da compulsória


Fome do tigre.


Homem: alado e ocre


Pássaro da morte.



terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Conversa com Friedrich Nietzsche, de Adam Zagajewski, tradução de Marco Bruno

 CONVERSA COM FRIEDRICH NIETZSCHE


Excelentíssimo Senhor Friedrich,

tenho a impressão de estar a ver agora o senhor,

no terraço do sanatório, ao amanhecer,

com o nevoeiro a cair e o canto a rebentar

nas gargantas dos pássaros.


Não muito alto, a cabeça como um projéctil,

o senhor está a escrever um novo livro

e uma estranha energia flui de si:

parece que vejo os seus pensamentos como se fossem

grandes exércitos em parada


O senhor sabe que morreu a morena Anne Frank

e os seus colegas de escola e amigos, rapazes e raparigas,

os coetâneos, e as amigas dos seus amigos

e os seus primos.


Quero perguntar-lhe o que é que são as palavras, o que é

a claridade, porque é que as palavras continuam a queimar

passados cem anos, embora a terra

seja tão pesada.


É óbvio que não existe nexo entre a iluminação

e a obscura dor da crueldade.

Existem pelo menos dois reinos,

mas é possível que haja ainda mais.


No caso, porém, de não haver Deus e de nenhuma força

estabelecer conexões entre elementos antagónicos,

o que é que são então as palavras e qual é a origem

da sua luz interior?


E qual a origem da alegria? E qual o destino do nada?

Qual a morada do perdão?

Porque é que os sonhos pequenos se dissipam ao chegar do dia

enquanto os grandes continuam a crescer?



Via: opoemaensinaacair

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Meteoro, de Roberto Piva

 Eu direi as palavras mais terríveis esta noite

enquanto os ponteiros se dissolvem

contra o meu poder

contra o meu amor

no sobressalto da minha mente

meus olhos dançam

no alto da Lapa os mosquitos me sufocam

que me importa saber se as mulheres são

férteis se Deus caiu no mar se

Kierkegaard pede socorro numa montanha

da Dinamarca?


os telefones gritam

isoladas criaturas caem no nada

os órgãos de carne falam morte

morte doce carnaval de rua do

fim do mundo

eu não quero elegias mas sim os lírios

de ferro dos recintos

há uma epopéia nas roupas penduradas contra

o céu cinza

e os luminosos me fitam do espaço alucinado

quantos lindos garotos eu não vi sob esta luz?


eu urrava meio louco meio estarrado meio fendido

narcóticos santos ó gato azul da minha mente

Oh Antonin Artaud

Oh Garcia Lorca

com seus olhos de aborto reduzidos

a retratos


almas

almas

como icebergs

como velas

como manequins mecânicos

e o clímax fraudulento dos sanduíches almoços

sorvetes controles ansiedades

eu preciso cortar os cabelos da minha alma

eu preciso tomar colheradas de

Morte Absoluta

eu não enxergo mais nada

meu crânio diz que estou embriagado

suplícios genuflexões neuroses

psicanalistas espetando meu pobre

esqueleto em férias


eu apertava uma árvore contra meu peito

como se fosse um anjo

meus amores começam crescer

passam cadillacs sem sangue os helicópteros

mugem

minha alma minha canção bolsos abertos

da minha mente

eu sou uma alucinação na ponta de teus olhos


,

via Abigail no feice, nesse dia, em 2017

domingo, 29 de novembro de 2020

The Wandering Rats, ou Die Wanderratten, de Henrich Heine, translated by Cameron Shingleton

 The Wandering Rats


There are two kinds of rat:

The hungry and the fat.

The fat ones stay content at home,

The hungry ones though, they hungrily roam.


They roam for many a mile,

Relentlessly lacking in style,

Straight on along their miserable track,

No wind nor weather can hold them back.


They climb over mountain peaks,

They swim the murkiest lakes;

Many have broken their necks or drowned,

The living pass on without looking around.


Take a look at these louts

With their fearsome ugly snouts;

Heads shaven bare they're at physical peak -

Radical chic - ratty and sleek.


The radical rodent squad

Know nothing of Heaven or God.

Their whelps run unbaptised and free,

Their wives are common property.


The sensuous rats of the fleet

Want no more than to drink and to eat,

No thought while they gulp, slurp and chortle

That our souls were created immortal.


Such wild and savage rats

Have no fear of Hell or of cats;

They think though they haven't a cent to their name

To divide up the world so we all have the same.


The rats are a'roaming here too,

Coming to a suburb near you!

I hear their squeaks, straight on they press,

Their multitude is numberless.


Alas! By now its too late,

They're already at the gate!

The local council and the mayor

Are shaking their heads in brainless despair.


Good citizens ready to arm,

The church bells ring out in alarm.

In peril is something by which we set store,

Our property values, our whole rule of law


No tolling of bells, no pious old pleas,

No majestic parliamentary decrees,

No squadron of cannon, no hundred pounders

Will save your children, your statues of founders,


No help from the verbal poptarts

Of weary rhetorical arts.

You don't catch a rat with a logical trap

So spare me your fine-spun sophistical crap.


To the hungry inside of a rat in a group

Appeals only the logic of dumplings and soup,

Arguments smelling of pig on a spit

With a side-dish of porky political wit.


A taciturn cod stewed in butter for hours

Is what pleases the radical powers

Far better than any Mirabeau

Or all the orations since Cicero.

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Die Wanderratten


Es gibt zwei Sorten Ratten:

Die hungrigen und satten.

Die satten bleiben vergn ügt zu Haus,

Die hungrigen aber wandern aus.


Sie wandern viel tausend Meilen,

Ganz ohne Rasten und Weilen,

Gradaus in ihrem grimmigen Lauf,

Nicht Wind noch Wetter hält sie auf.



Sie klimmen wohl über die Hцhen,

Sie schwimmen wohl durch die Seen;

Gar manche ersäuft oder bricht das Genick,

Die lebenden lassen die Toten zurück.


Es haben diese Käuze

Gar fürchterliche Schnäuze;

Sie tragen die Köpfe geschoren egal,

Ganz radikal, ganz rattenkahl.


Die radikale Rotte

Weiß nichts von einem Gotte.

Sie lassen nicht taufen ihre Brut,

Die Weiber sind Gemeindegut.


Der sinnliche Rattenhaufen,

Er will nur fressen und saufen,

Er denkt nicht, während er säuft und frißt,

Daß unsre Seele unsterblich ist.


So eine wilde Ratze,

Die fürchtet nicht Hölle, nicht Katze;

Sie hat kein Gut, sie hat kein Geld

Und wünscht aufs neue zu teilen die Welt.


Die Wanderratten, o wehe!

Sie sind schon in der Nähe.

Sie rücken heran, ich höre schon

Ihr Pfeifen - die Zahl ist Legion


O wehe! wir sind verloren,

Sie sind schon vor den Toren!

Der Bürgermeister und Senat,

Sie schütteln die Köpfe, und keiner weiß Rat.


Die Bürgerschaft greift zu den Waffen,

Die Glocken läuten die Pfaffen.

Gefährdet ist das Palladium

Des sittlichen Staats, das Eigentum.


Nicht Glockengeläute, nicht Pfaffengebete,

Nicht hochwohlweise Senatsdekrete,

Auch nicht Kanonen, viel Hundertpfünder,

Sie helfen Euch heute, Ihr lieben Kinder!


Heut helfen Euch nicht die Wortgespinste

Der abgelebten Redekünste.

Man fängt nicht Ratten mit Syllogismen,

Sie springen über die feinsten Sophismen.


Im hungrigen Magen Eingang finden

Nur Suppenlogik mit Knödelgründen,

Nur Argumente von Rinderbraten,

Begleitet mit Göttinger Wurst-Zitaten.


Ein schweigender Stockfisch, in Butter gesotten,

Behaget den radikalen Rotten

Viel besser als ein Mirabeau

Und alle Redner seit Cicero.


POSTED BY CAMERON SHINGLETON 


source: http://cshingleton.blogspot.com/2010/02/translations-2-heine.html


citado no original em alemão em observações sobre o amor de transferência, de Freud

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Te Assombra o Raiar do Dia, de Ebba Hentze, trad por Luciano Dutra

 TE ASSOMBRA O RAIAR DO DIA


Te assombra o raiar do dia

e o vento

dias grises

em que todos os repastos são monocromáticos

e as tramazeiras se debatem contra as empenas

e a única embarcação no fiorde

é esse barco a remo

e o velho

que puxa a rede de pescar búzios

primeiro uma poita

depois a outra


(traduzido do feroês por Luciano Dutra)


[TÚ RÆÐIST GRÁLÝSIÐ]


Tú ræðist grálýsið

og vindin

gráar daga

tá øll verðin er einlitt

og roynitrøyni pínast móti skjøldrinum

og einasta farið á fjørðinum

er tristurin

og gamli maðurin

sum hálar kúvingalínuna inn

eitt høvd fyri

annað eftir


(Ebba Hentze)

sábado, 21 de novembro de 2020

No Second Troy, de Yeats, por Pedro Mohallem

 NENHUMA TROIA MAIS

(William Butler Yeats, trad. Pedro Mohallem)


Como culpá-la por encher meus dias

De angústia, ou por haver homens incultos

Incitado a violentas revelias,

E vielas contra ruas, em tumultos

A que bastassem o ímpeto e a coragem?

Como abrandar a mente que a nobreza

Fez simples como a chama, e o corpo à imagem

De um arco sempre teso, uma beleza

Estranha a tempos como o nosso, um ser

De altivo, austero e solitário ar?

Sendo quem é, que pôde ela fazer?

Havia Troias mais para incendiar?


______


NO SECOND TROY


Why should I blame her that she filled my days

With misery, or that she would of late

Have taught to ignorant men most violent ways,

Or hurled the little streets upon the great,

Had they but courage equal to desire?

What could have made her peaceful with a mind

That nobleness made simple as a fire,

With beauty like a tightened bow, a kind

That is not natural in an age like this,

Being high and solitary and most stern?

Why, what could she have done, being what she is?

Was there another Troy for her to burn?



Via facebook do autor

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

ESFINGE, de Orides Fontela

 ESFINGE


Não há perguntas. Selvagem

o silêncio cresce, difícil.


— Orides Fontela (1940–1998)




Via fb Ricardo Domeneck