Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-las para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui
fonte: http://ricardo-domeneck.blogspot.com/2011/10/poemas-que-continuam-salvando-minha.html
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Lady Lazarus, por Sylvia Plath
I have done it again.
One year in every ten
I manage it----
A sort of walking miracle, my skin
Bright as a Nazi lampshade,
My right foot
A paperweight,
My face a featureless, fine
Jew linen.
Peel off the napkin
0 my enemy.
Do I terrify?----
The nose, the eye pits, the full set of teeth?
The sour breath
Will vanish in a day.
Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on me
And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.
This is Number Three.
What a trash
To annihilate each decade.
What a million filaments.
The peanut-crunching crowd
Shoves in to see
Them unwrap me hand and foot
The big strip tease.
Gentlemen, ladies
These are my hands
My knees.
I may be skin and bone,
Nevertheless, I am the same, identical woman.
The first time it happened I was ten.
It was an accident.
The second time I meant
To last it out and not come back at all.
I rocked shut
As a seashell.
They had to call and call
And pick the worms off me like sticky pearls.
Dying
Is an art, like everything else,
I do it exceptionally well.
I do it so it feels like hell.
I do it so it feels real.
I guess you could say I've a call.
It's easy enough to do it in a cell.
It's easy enough to do it and stay put.
It's the theatrical
Comeback in broad day
To the same place, the same face, the same brute
Amused shout:
'A miracle!'
That knocks me out.
There is a charge
For the eyeing of my scars, there is a charge
For the hearing of my heart----
It really goes.
And there is a charge, a very large charge
For a word or a touch
Or a bit of blood
Or a piece of my hair or my clothes.
So, so, Herr Doktor.
So, Herr Enemy.
I am your opus,
I am your valuable,
The pure gold baby
That melts to a shriek.
I turn and burn.
Do not think I underestimate your great concern.
Ash, ash ---
You poke and stir.
Flesh, bone, there is nothing there----
A cake of soap,
A wedding ring,
A gold filling.
Herr God, Herr Lucifer
Beware
Beware.
Out of the ash
I rise with my red hair
And I eat men like air.
One year in every ten
I manage it----
A sort of walking miracle, my skin
Bright as a Nazi lampshade,
My right foot
A paperweight,
My face a featureless, fine
Jew linen.
Peel off the napkin
0 my enemy.
Do I terrify?----
The nose, the eye pits, the full set of teeth?
The sour breath
Will vanish in a day.
Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on me
And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.
This is Number Three.
What a trash
To annihilate each decade.
What a million filaments.
The peanut-crunching crowd
Shoves in to see
Them unwrap me hand and foot
The big strip tease.
Gentlemen, ladies
These are my hands
My knees.
I may be skin and bone,
Nevertheless, I am the same, identical woman.
The first time it happened I was ten.
It was an accident.
The second time I meant
To last it out and not come back at all.
I rocked shut
As a seashell.
They had to call and call
And pick the worms off me like sticky pearls.
Dying
Is an art, like everything else,
I do it exceptionally well.
I do it so it feels like hell.
I do it so it feels real.
I guess you could say I've a call.
It's easy enough to do it in a cell.
It's easy enough to do it and stay put.
It's the theatrical
Comeback in broad day
To the same place, the same face, the same brute
Amused shout:
'A miracle!'
That knocks me out.
There is a charge
For the eyeing of my scars, there is a charge
For the hearing of my heart----
It really goes.
And there is a charge, a very large charge
For a word or a touch
Or a bit of blood
Or a piece of my hair or my clothes.
So, so, Herr Doktor.
So, Herr Enemy.
I am your opus,
I am your valuable,
The pure gold baby
That melts to a shriek.
I turn and burn.
Do not think I underestimate your great concern.
Ash, ash ---
You poke and stir.
Flesh, bone, there is nothing there----
A cake of soap,
A wedding ring,
A gold filling.
Herr God, Herr Lucifer
Beware
Beware.
Out of the ash
I rise with my red hair
And I eat men like air.
A Senhora Lázaro, por Sylvia Plath, tradução de Mário Avelar
Voltei a fazê-lo.
Uma vez em cada dez anos
Consigo-o –
uma espécie de milagre ambulante, a minha pele
Brilhante qual quebra-luz nazi,
o meu pé direito
um pisa-papéis,
o meu rosto, um fino e incolor
linho judeu.
Afasto o guardanapo
inimigo meu.
Meto medo?
O nariz,as cavidades dos olhos, os dentes todos?
O hálito acre
desaparecerá daqui a um dia.
Em breve, em breve, a carne
devorada pela caverna tumular sentir-se-á
em casa sem mim
E eu serei uma mulher sorridente.
Tenho trinta anos apenas.
E tal como o gato, tenho sete vidas.
Esta é a Número Três.
Que desperdício
alienar cada década.
Que milhão de filamentos.
A multidão mastigando amendoins
empurra-se para entrar e para os ver
desembrulhar o meu corpo, pés e mãos –
o grande strip tease.
Senhoras e senhores,
eis as minhas mãos,
os meus joelhos.
Posso ser só pele e osso,
apesar disso, sou a mesma, exactamente a mesma mulher.
Da primeira vez que aconteceu, tinha dez anos.
Foi um acidente.
Da segunda, quis
que fosse a sério e que esse caminho não tivesse retorno.
Fechei-me
como uma concha.
Tiveram que chamar por mim, chamar,
e arrancar os vermes de mim como se fossem pérolas pegajosas.
Morrer
é uma arte, como tudo o mais.
Faço-o excepcionalmente bem.
Faço-o com um gozo imenso.
Faço-o como se fosse real.
Talvez se possa considerar uma vocação.
É fácil fazê-lo numa cela.
É fácil fazê-lo e ficar no mesmo sítio.
É a faceta teatral
de um regresso à luz do dia
ao mesmo lugar, ao mesmo rosto, ao mesmo
grito divertido e estúpido:
«Um milagre!».
Isso dá cabo de mim.
Há um preço
para ver as minhas cicatrizes, há um preço
para ouvir o bater do meu coração –
ele persiste.
E há um preço, um preço muito elevado,
para uma palavra ou para um toque
ou para uma gota de sangue
ou para um pedaço do meu cabelo ou das minhas roupas.
Então, então, Herr Doktor.
Então, Herr Inimigo.
Sou a vossa obra,
sou o vosso valioso objecto,
o puro bebé de oiro
que se dissolve num grito.
Viro-me e ardo.
Não penseis que subestimo a vossa profunda atençaõ.
Cinza, cinza –
Agitais, inflamai.
Carne, osso, não há nada aí –
Um sabonete,
uma aliança de casamento,
a coroa de oiro de um dente.
Herr Deus, Herr Lúcifer
Acautelai-vos
Acautelai-vos.
Ergo-me das
cinzas com meus cabelos ruivos
e devoro homens tão facilmente como respiro.
Uma vez em cada dez anos
Consigo-o –
uma espécie de milagre ambulante, a minha pele
Brilhante qual quebra-luz nazi,
o meu pé direito
um pisa-papéis,
o meu rosto, um fino e incolor
linho judeu.
Afasto o guardanapo
inimigo meu.
Meto medo?
O nariz,as cavidades dos olhos, os dentes todos?
O hálito acre
desaparecerá daqui a um dia.
Em breve, em breve, a carne
devorada pela caverna tumular sentir-se-á
em casa sem mim
E eu serei uma mulher sorridente.
Tenho trinta anos apenas.
E tal como o gato, tenho sete vidas.
Esta é a Número Três.
Que desperdício
alienar cada década.
Que milhão de filamentos.
A multidão mastigando amendoins
empurra-se para entrar e para os ver
desembrulhar o meu corpo, pés e mãos –
o grande strip tease.
Senhoras e senhores,
eis as minhas mãos,
os meus joelhos.
Posso ser só pele e osso,
apesar disso, sou a mesma, exactamente a mesma mulher.
Da primeira vez que aconteceu, tinha dez anos.
Foi um acidente.
Da segunda, quis
que fosse a sério e que esse caminho não tivesse retorno.
Fechei-me
como uma concha.
Tiveram que chamar por mim, chamar,
e arrancar os vermes de mim como se fossem pérolas pegajosas.
Morrer
é uma arte, como tudo o mais.
Faço-o excepcionalmente bem.
Faço-o com um gozo imenso.
Faço-o como se fosse real.
Talvez se possa considerar uma vocação.
É fácil fazê-lo numa cela.
É fácil fazê-lo e ficar no mesmo sítio.
É a faceta teatral
de um regresso à luz do dia
ao mesmo lugar, ao mesmo rosto, ao mesmo
grito divertido e estúpido:
«Um milagre!».
Isso dá cabo de mim.
Há um preço
para ver as minhas cicatrizes, há um preço
para ouvir o bater do meu coração –
ele persiste.
E há um preço, um preço muito elevado,
para uma palavra ou para um toque
ou para uma gota de sangue
ou para um pedaço do meu cabelo ou das minhas roupas.
Então, então, Herr Doktor.
Então, Herr Inimigo.
Sou a vossa obra,
sou o vosso valioso objecto,
o puro bebé de oiro
que se dissolve num grito.
Viro-me e ardo.
Não penseis que subestimo a vossa profunda atençaõ.
Cinza, cinza –
Agitais, inflamai.
Carne, osso, não há nada aí –
Um sabonete,
uma aliança de casamento,
a coroa de oiro de um dente.
Herr Deus, Herr Lúcifer
Acautelai-vos
Acautelai-vos.
Ergo-me das
cinzas com meus cabelos ruivos
e devoro homens tão facilmente como respiro.
A Senhora Lázaro, por Sylvia Plath, tradução de Maria Fernanda Borges
Voltei a fazê-lo.
Uma vez em cada dez anos
Lá consigo -
Uma espécie de milagre ambulante, a minha pele
Brilhante como a de um candeeiro nazi,
O meu pé direito
Um pisa papéis,
O meu rosto vulgar, fino
E de judia cepa.
Apaga-me da toalha
Oh inimigo meu.
Meto medo a alguém?
O nariz, as covas dos olhos, os dentes todos?
O hálito acre
Desaparecerá um dia.
Daqui a pouco, daqui a pouco a carne
Que a sepultura comeu ficará
À vontade comigo como se em sua casa.
Mas eu sou uma mulher optimista.
Só tenho trinta anos.
E como os gatos tenho sete vidas para viver.
Esta é a Número Três.
Que porcaria de vida
A aniquilar todos os dez anos.
Quantos milhões de filamentos.
Uma multidão a roer amendoins
Empurra-se para ver
Sôfregos a despirem-me-
Que fantástico strip tease.
Meus senhores, minhas senhoras
Estas são as minhas mãos
Os meus joelhos.
Talvez eu seja apenas pele e osso,
Contudo, sou precisamente a mesma mulher.
A primeira vez foi aos dez anos.
Foi um acidente.
Da segunda vez eu quis mesmo
Ir até ao fim e nunca mais regressar
Voltei fechada
Como uma concha.
Tiveram de me chamar e voltar a chamar
E arrancar de mim os vermes como se pérolas pegajosas.
Morrer,
É uma arte, como outra coisa qualquer.
E eu executo-a excepcionalmente bem.
Executo-a de forma a parecer-se com o inferno.
Executo-a de forma a parecer real.
Acho que se podia dizer que tenho um dom.
É bastante fácil executá-la numa cela.
É bastante fácil executá-la e ficar como se nada fosse.
É cena de teatro
Regressar em pleno dia
Ao mesmo lugar, ao mesmo rosto, ao mesmo brutal
E divertido grito:
-
Um milagre!
Que me põe K.O.
Há que pagar.
Para ver as minha cicatrizes,há que pagar
Para ouvir o meu coração -
É assim mesmo.
Há que pagar, e pagar bem.
Por uma palavra ou um toque
Ou uma gota de sangue
Ou por um bocado do meu cabelo ou da minha roupa
Vá lá então, então, Herr Doktor.
Então Herr inimigo.
Sou o seu opus,
Sou a sua jóia de estimação,
Um bébé todo em ouro
Que se funde como um grito.
Volto-me e ardo.
Não pense que subestimo as suas grandes preocupações.
Cinza, cinza -
Mexe e atiça.
Carne, osso, nada mais ali existe -
Um pedaço de sabonete,
Uma aliança de casamento,
A coroa em ouro de um dente.
Herr Deus, Herr Lúcifer
Tende cuidado
muito cuidado.
Renasço das cinzas
Com o meu cabelo fulvo
E devoro homens como faço ao ar.
Uma vez em cada dez anos
Lá consigo -
Uma espécie de milagre ambulante, a minha pele
Brilhante como a de um candeeiro nazi,
O meu pé direito
Um pisa papéis,
O meu rosto vulgar, fino
E de judia cepa.
Apaga-me da toalha
Oh inimigo meu.
Meto medo a alguém?
O nariz, as covas dos olhos, os dentes todos?
O hálito acre
Desaparecerá um dia.
Daqui a pouco, daqui a pouco a carne
Que a sepultura comeu ficará
À vontade comigo como se em sua casa.
Mas eu sou uma mulher optimista.
Só tenho trinta anos.
E como os gatos tenho sete vidas para viver.
Esta é a Número Três.
Que porcaria de vida
A aniquilar todos os dez anos.
Quantos milhões de filamentos.
Uma multidão a roer amendoins
Empurra-se para ver
Sôfregos a despirem-me-
Que fantástico strip tease.
Meus senhores, minhas senhoras
Estas são as minhas mãos
Os meus joelhos.
Talvez eu seja apenas pele e osso,
Contudo, sou precisamente a mesma mulher.
A primeira vez foi aos dez anos.
Foi um acidente.
Da segunda vez eu quis mesmo
Ir até ao fim e nunca mais regressar
Voltei fechada
Como uma concha.
Tiveram de me chamar e voltar a chamar
E arrancar de mim os vermes como se pérolas pegajosas.
Morrer,
É uma arte, como outra coisa qualquer.
E eu executo-a excepcionalmente bem.
Executo-a de forma a parecer-se com o inferno.
Executo-a de forma a parecer real.
Acho que se podia dizer que tenho um dom.
É bastante fácil executá-la numa cela.
É bastante fácil executá-la e ficar como se nada fosse.
É cena de teatro
Regressar em pleno dia
Ao mesmo lugar, ao mesmo rosto, ao mesmo brutal
E divertido grito:
-
Um milagre!
Que me põe K.O.
Há que pagar.
Para ver as minha cicatrizes,há que pagar
Para ouvir o meu coração -
É assim mesmo.
Há que pagar, e pagar bem.
Por uma palavra ou um toque
Ou uma gota de sangue
Ou por um bocado do meu cabelo ou da minha roupa
Vá lá então, então, Herr Doktor.
Então Herr inimigo.
Sou o seu opus,
Sou a sua jóia de estimação,
Um bébé todo em ouro
Que se funde como um grito.
Volto-me e ardo.
Não pense que subestimo as suas grandes preocupações.
Cinza, cinza -
Mexe e atiça.
Carne, osso, nada mais ali existe -
Um pedaço de sabonete,
Uma aliança de casamento,
A coroa em ouro de um dente.
Herr Deus, Herr Lúcifer
Tende cuidado
muito cuidado.
Renasço das cinzas
Com o meu cabelo fulvo
E devoro homens como faço ao ar.
Lady Lázaro, por Sylvia Plath, tradução de Mariana Ruggieri
Eu o fiz de novo
Um ano em cada dez
Eu agüento
Um tipo de milagre ambulante, minha pele
Brilhante tal qual um abajur nazista
Meu pé direito
Um peso de papel,
Minha face, como um pano inexpressivo, delicado
Em linho judeu.
Tire o lenço
Ó, meu inimigo
Eu te assusto?
O nariz, o orifício ocular, a dentição plena?
O hálito azedo
Se esvairá em um dia.
Logo, logo a carne
Que a gruta do túmulo comeu se sentirá
Em casa sobre mim
E eu, uma mulher sorridente.
Eu, com apenas trinta anos.
E como o gato tenho nove vezes para morrer
Esta é o número três.
Que lixo
Aniquilar a cada década.
Que milhões de filamentos.
A multidão vulgar
Se acotovela para ver
Eles me desembrulharem mão e pé.
O grande strip tease.
Senhores, senhoras
Eis as minhas mãos
Eis os meus joelhos.
Posso ser pele e osso
Contudo, sou a mesma, idêntica mulher.
Na primeira vez que aconteceu eu tinha dez anos.
Foi um acidente.
Na segunda vez eu pretendi
Agüentar e nem sequer voltar.
Eu fechei em pedra
Como uma concha do mar.
Eles tiveram que chamar e chamar
E arrancar de mim os vermes, pérolas grudentas.
Morrer
É uma arte como todo o resto.
Eu o faço excepcionalmente bem.
Eu o faço para saber o inferno.
Eu o faço para saber a real.
Eu suponho que se possa dizer que eu tenho um chamado.
É fácil fazê-lo em uma cela.
É fácil fazê-lo e permanecer estático.
É o teátrico
Retorno, em plena luz do dia
Ao mesmo lugar, ao mesmo rosto, aos mesmos brutos
Entretidos gritando
“um milagre!”
Isso me estarrece.
Há um custo
Para ver as minhas cicatrizes, há um custo
Para sentir o meu coração
Ele realmente pulsa.
E há um custo, um grande custo
Por uma palavra, ou um toque
Ou um pouco de sangue
Ou um pedaço do meu cabelo ou um pedaço da minha roupa.
Então, então, Herr Doktor.
Então, Herr Inimigo.
Eu sou sua composição
Eu sou seu pertence
O bebê de ouro puro
Que derrete a um grito estridente.
Eu me viro e ardo.
Não pense que eu subestimo sua grande preocupação.
Cinzas, cinzas
Você cutuca e revolve.
Carne, osso, não há nada lá.
Um sabonete,
Uma aliança,
Um dente de ouro.
Herr Deus, Herr Lúcifer
Cuidado
Cuidado.
De dentro das cinzas
Eu desponto, meu cabelo em fogo
E devoro homens como ar.
Um ano em cada dez
Eu agüento
Um tipo de milagre ambulante, minha pele
Brilhante tal qual um abajur nazista
Meu pé direito
Um peso de papel,
Minha face, como um pano inexpressivo, delicado
Em linho judeu.
Tire o lenço
Ó, meu inimigo
Eu te assusto?
O nariz, o orifício ocular, a dentição plena?
O hálito azedo
Se esvairá em um dia.
Logo, logo a carne
Que a gruta do túmulo comeu se sentirá
Em casa sobre mim
E eu, uma mulher sorridente.
Eu, com apenas trinta anos.
E como o gato tenho nove vezes para morrer
Esta é o número três.
Que lixo
Aniquilar a cada década.
Que milhões de filamentos.
A multidão vulgar
Se acotovela para ver
Eles me desembrulharem mão e pé.
O grande strip tease.
Senhores, senhoras
Eis as minhas mãos
Eis os meus joelhos.
Posso ser pele e osso
Contudo, sou a mesma, idêntica mulher.
Na primeira vez que aconteceu eu tinha dez anos.
Foi um acidente.
Na segunda vez eu pretendi
Agüentar e nem sequer voltar.
Eu fechei em pedra
Como uma concha do mar.
Eles tiveram que chamar e chamar
E arrancar de mim os vermes, pérolas grudentas.
Morrer
É uma arte como todo o resto.
Eu o faço excepcionalmente bem.
Eu o faço para saber o inferno.
Eu o faço para saber a real.
Eu suponho que se possa dizer que eu tenho um chamado.
É fácil fazê-lo em uma cela.
É fácil fazê-lo e permanecer estático.
É o teátrico
Retorno, em plena luz do dia
Ao mesmo lugar, ao mesmo rosto, aos mesmos brutos
Entretidos gritando
“um milagre!”
Isso me estarrece.
Há um custo
Para ver as minhas cicatrizes, há um custo
Para sentir o meu coração
Ele realmente pulsa.
E há um custo, um grande custo
Por uma palavra, ou um toque
Ou um pouco de sangue
Ou um pedaço do meu cabelo ou um pedaço da minha roupa.
Então, então, Herr Doktor.
Então, Herr Inimigo.
Eu sou sua composição
Eu sou seu pertence
O bebê de ouro puro
Que derrete a um grito estridente.
Eu me viro e ardo.
Não pense que eu subestimo sua grande preocupação.
Cinzas, cinzas
Você cutuca e revolve.
Carne, osso, não há nada lá.
Um sabonete,
Uma aliança,
Um dente de ouro.
Herr Deus, Herr Lúcifer
Cuidado
Cuidado.
De dentro das cinzas
Eu desponto, meu cabelo em fogo
E devoro homens como ar.
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
14º dos 17 Haiku, de Jorge Luis Borges
¿Es un imperio
esa luz que se apaga
o una luciérnaga?
os dezessete:
http://catedral.weblog.com.pt/arquivo/162433
esa luz que se apaga
o una luciérnaga?
os dezessete:
http://catedral.weblog.com.pt/arquivo/162433
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
XLIII dos Cantares de Perda e Predileção, de Hilda Hilst
Ai que distância
Meu ódio-amor
Que dores
Que cintilâncias
De pena.
Tão a meu lado
Te penso
No entanto
Tão afastado
Como se a água ficasse
A um dedo da minha boca
E todo o deserto à volta
Me segurasse.
Tão triste e tão à vontade
Neste meu sol de martírios
Como se o corpo soubesse
Desses caminhos da sede
Porque nasceu conhecendo
Da paixão seu descaminho.
E brilhos no teu sadismo
E perdição na minha cara.
Que coloridos espinhos
Terás
Para a tua dura saudade.
Que tempestades de sede
Nos areais da procura
Quando saíres à caça
De quem te amou. De mim.
À caça do NUNCA MAIS.
Meu ódio-amor
Que dores
Que cintilâncias
De pena.
Tão a meu lado
Te penso
No entanto
Tão afastado
Como se a água ficasse
A um dedo da minha boca
E todo o deserto à volta
Me segurasse.
Tão triste e tão à vontade
Neste meu sol de martírios
Como se o corpo soubesse
Desses caminhos da sede
Porque nasceu conhecendo
Da paixão seu descaminho.
E brilhos no teu sadismo
E perdição na minha cara.
Que coloridos espinhos
Terás
Para a tua dura saudade.
Que tempestades de sede
Nos areais da procura
Quando saíres à caça
De quem te amou. De mim.
À caça do NUNCA MAIS.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
El Desdichado, Gérard de Nerval
Je suis le ténébreux, - le veuf, - l'inconsolé,
Le prince d'Aquitaine à la tour abolie
Ma seule étoile est morte, - et mon luth constellé
Porte le soleil noir de la Mélancolie.
Dans la nuit du tombeau, toi qui m'as consolé,
Rends-moi le Pausilippe et la mer d'Italie,
La fleur qui plaisait tant à mon coeur désolé,
Et la treille où le pampre à la rose s'allie.
Suis-je Amour ou Phébus ? ... Lusignan ou Biron ?
Mon front est rouge encor du baiser de la reine ;
J'ai rêvé dans la grotte où nage la sirène...
Et j'ai deux fois vainqueur traversé l'Achéron ;
Modulant tout à tour sur la lyre d'Orphée
Les soupirs de la sainte et les cris de la fée.
Le prince d'Aquitaine à la tour abolie
Ma seule étoile est morte, - et mon luth constellé
Porte le soleil noir de la Mélancolie.
Dans la nuit du tombeau, toi qui m'as consolé,
Rends-moi le Pausilippe et la mer d'Italie,
La fleur qui plaisait tant à mon coeur désolé,
Et la treille où le pampre à la rose s'allie.
Suis-je Amour ou Phébus ? ... Lusignan ou Biron ?
Mon front est rouge encor du baiser de la reine ;
J'ai rêvé dans la grotte où nage la sirène...
Et j'ai deux fois vainqueur traversé l'Achéron ;
Modulant tout à tour sur la lyre d'Orphée
Les soupirs de la sainte et les cris de la fée.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
El Desdichado, Nerval traduzido por Bandeira
Eu sou o tenebroso, - o viúvo, - o inconsolado
Príncipe d'Aquitânia, em triste rebeldia:
É morta a minha estrêla, - e no meu constelado
Ataúde há o negror, sol da melancolia.
Na noite tumular, em que me hás consolado,
O pausílipo, a Itália, o mar, a onda bravia,
Dá-me outra vez, - e dá-me a flor do meu agrado
E a ramada em que a rosa ao pâmpano se alia...
Sou Byron? Lusignan? Febo? O Amor? Advinha!
As faces me esbraseia o beijo da rainha:
Cismo e sonho na gruta em que a sereia nada...
Duas vêzes o Aqueronte, - é o grande feito meu, -
Transpus a modular, nesta lira de Orfeu,
Os suspiros da santa e os clamores da fada...
Príncipe d'Aquitânia, em triste rebeldia:
É morta a minha estrêla, - e no meu constelado
Ataúde há o negror, sol da melancolia.
Na noite tumular, em que me hás consolado,
O pausílipo, a Itália, o mar, a onda bravia,
Dá-me outra vez, - e dá-me a flor do meu agrado
E a ramada em que a rosa ao pâmpano se alia...
Sou Byron? Lusignan? Febo? O Amor? Advinha!
As faces me esbraseia o beijo da rainha:
Cismo e sonho na gruta em que a sereia nada...
Duas vêzes o Aqueronte, - é o grande feito meu, -
Transpus a modular, nesta lira de Orfeu,
Os suspiros da santa e os clamores da fada...
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
trecho de Os 120 Dias de Sodoma, Marquês de Sade
"Estou sozinho aqui, estou no fim do mundo, longe de todos os olhares e sem que nenhuma criatura possa chegar até mim; nada mais de freios, nada mais de barreiras."
domingo, 28 de agosto de 2011
outro trecho de Mundos de Vidro, de Alessandro Baricco
No enterro de Pekisch, com uma certa lógica, o povo de Quinnipak decidiu não tocar uma única nota. Em meio a uma silêncio maravilhoso, o caixão de madeira atravessou a cidade e subiu até o cemitério, levado nos ombros da oitava mais grave do humanofono. "A terra te seja leve, como foste para ela" recitou o padre Obry. E a terra respondeu: "Assim seja."
domingo, 14 de agosto de 2011
spring is like perhaps a hand, de e. e. cummings
III
Spring is like a perhaps hand
(which comes carefully
out of Nowhere)arranging
a window,into which people look(while
people stare
arranging and changing placing
carefully there a strange
thing and a known thing here)and
changing everything carefully
spring is like a perhaps
Hand in a window
(carefully to
and fro moving New and
Old things,while
people stare carefully
moving a perhaps
fraction of flower here placing
an inch of air there)and
without breaking anything.
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Que este amor não me cegue nem me siga, Hilda Hilst
I
Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.
In Cantares do Sem Nome e de Partidas (1995)
Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.
In Cantares do Sem Nome e de Partidas (1995)
quinta-feira, 28 de julho de 2011
trecho de Mundos de Vidro, de Alessandro Baricco
Ele os via partir: via o instante em que a massa informe de cavalos e cavaleiros se comprimia como uma mola pressionada ao máximo para, em seguida, soltar-se com toda a força possível, em um tropel sem direção e hierarquia, um amontoado de corpos e rostos e patas, tudo no ventre de uma nuvem de pó que se erguia, impregnada de gritos e rodeada de um silêncio total, um instante de exasperante nada, antes que a badalada do sino, lá em cima do campanário, liberasse tudo e todos daquela já oprimente hesitação e rompesse os diques da espera, para soltar a frenética maré que era a corrida propriamente.
(do capítulo 1 da terceira parte)
trecho de A Morte do Príncipe, de Fernando Pessoa
[PRÍNCIPE] – Todo este universo é um livro em que cada um de nós é uma frase. Nenhum de nós, por si mesmo, faz mais que um pequeno sentido, ou uma parte de sentido; só no conjunto do que se diz se percebe o que cada um verdadeiramente quer dizer. Uns são frases que como se erguem do texto a determinar o sentido de todo um capítulo, ou de toda uma intenção, e a esses denominamos génios; outros são simples palavras, contendo uma frase em si mesmas, ou adjectivos definindo grandemente, destacadas aqui ou ali, mas sem dizer o que importa ao conjunto, e são esses os homens de talento; uns são as frases de pergunta e resposta, pelas quais se forma a vida do diálogo, e esses são os homens de acção; outros são frases que aliviam o diálogo, tornando-o lento para depois se sentir mais rápido, pontuações verbais do discurso, e esses são os homens de inteligência. A maioria são as frases feitas, quase iguais umas às outras, sem cor nem relevo, que servem todavia de ligar as intenções das metáforas, de estabelecer a continuidade do discurso, de permitir que os relevos tenham relevo, existindo, aparentemente, só para que esses possam existir. De resto, não somos nós feitos, como a frase, de palavras comuns (e estas de sílabas simples) de substância constante, diversamente misturada, da humanidade vulgar? Não é o nosso amor o amor de todos e o nosso choro as lágrimas em si mesmas? Mas cada um de nós ama e chora ele, que não outro: há um objectivo de dentro que o indefine (dissolve) e determina.
Isto que te estou dizendo é sem dúvida delírio, porque não sei por que te o digo; mas, porque o digo sem saber, é também sem dúvida verdade.
E as figuras de xadrez e as das cartas de jogar ou advinhar — seremos nós mais que elas onde a vida é vida?
(Texto integral: http://arquivopessoa.net/textos/4166)
(Texto integral: http://arquivopessoa.net/textos/4166)
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Ver, de Kandínski
o Azul, o Azul se alçava, se alçava e caía.
O Agudo, o Fino assobiava e penetrava, mas não saía.
De todos os lados ressoava.
O Marrondenso como que suspenso para sempre.
Penso. Penso.
Abre ainda mais amplo os braços.
Amplo. Amplo.
Cobre o teu rosto com um lenço vermelho.
E pode ser que nada se tenha ainda movido:
só você se moveu.
O branco salto após o branco salto.
E após o branco salto ainda um branco salto.
E neste branco salto um branco salto. Em cada
branco salto um branco salto.
E este é o mal, é que não vês o turvo.
no turvo é que ele está.
É aí que tudo começa..............................................
............................................Rompeu-se ................
retirado de Poesia Russa Moderna, organizado por Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman.
terça-feira, 19 de julho de 2011
trecho de Carta sobre Emília, de Adolfo Bioy Casares (em Histórias de amor)
"Quantas mulheres passarem pelo estúdio! Esqueceu-se de Irene, senhor Grinberg? Era alta, pálida, compridas tranças loiras, e quando se punha de costas para que eu a desenhasse, seus pés caíam em ângulo admirável. O senhor a observava com fauces de lobo esfaimado. Esqueceu-se também da nossa Antoninha, famosa por aquele desvio de um olho, que o senhor chamava sua loucura particular? Penso em todas elas com alguma saudade, mas se as recordo em separado eu me julgo um sujeito de sorte por estarem longe."
sábado, 18 de junho de 2011
Bonne pensée du matin, de Artur Rimbaud, tradução de Janer Cristaldo
Quatro horas da manhã estival,
O sono de amor ainda persiste.
Nos arbustos já não mais existe
Noturnos odores de festival.
Lá ao longe, ao sol das Hespérides,
Em seus imensos canteiros
Já se movem — em mangas de camisa —
Os Carpinteiros.
Em seus Desertos de espuma, tranqüilos
Preparam preciosas molduras
Onde a cidade
Pintará céus de impostura.
Ó, por estes Obreiros fascinantes
Quem um rei de Babilônia têm atados,
Vênus! Abandona teus amantes
cujos espíritos tens escravizados.
A todos eles, Rainha dos Pastores,
a aguardente tens de levar
Que estejam mansos os trabalhadores
Quando ao meio-dia se banhem no mar.
(Fonte: http://www.jornaleco.net/Rimbaud/temporada.htm)
O sono de amor ainda persiste.
Nos arbustos já não mais existe
Noturnos odores de festival.
Lá ao longe, ao sol das Hespérides,
Em seus imensos canteiros
Já se movem — em mangas de camisa —
Os Carpinteiros.
Em seus Desertos de espuma, tranqüilos
Preparam preciosas molduras
Onde a cidade
Pintará céus de impostura.
Ó, por estes Obreiros fascinantes
Quem um rei de Babilônia têm atados,
Vênus! Abandona teus amantes
cujos espíritos tens escravizados.
A todos eles, Rainha dos Pastores,
a aguardente tens de levar
Que estejam mansos os trabalhadores
Quando ao meio-dia se banhem no mar.
(Fonte: http://www.jornaleco.net/Rimbaud/temporada.htm)
Bonne pensée du matin, de Artur Rimbaud
À quatre heures du matin, l'été,
Le sommeil d'amour dure encore.
Sous les bocages s'évapore
L'odeur du soir fêté.
Là-bas, dans leur vaste chantier,
Au soleil des Hespérides,
Déjà s'agitent - en bras de chemise -
Les Charpentiers.
Dans leurs Déserts de mousse, tranquilles,
Ils préparent les lambris précieux
Où la ville
Peindra de faux cieux
O, pour ces Ouvriers charmants
Sujets d'un roi de Babylone,
Vénus ! quitte un instant les Amants
Dont l'âme est en couronne.
O Reine des Bergers,
Porte aux travailleurs l'eau-de-vie,
Que leurs forces soient en paix
En attendant le bain dans la mer à midi
(Essas cinco estrofes são um trecho de um grupo de poesias que se chama "Alchimie du Verbe" em Délires II
sexta-feira, 17 de junho de 2011
trechos de Roosevelt Depois da Posse, (em Cartas do Yage, de Ginsberg e Burroughs)
"Um drag queen, conhecida como 'Eddie a Dama', encabeçou a Comissão de Energia Nuclear e convocou os físicos para um coral masculino que se apresentava como 'Os Garotos Atômicos'."
"Uma travesti gostosona recebeu o posto de bibliotecária do Congresso. Imediatamente mandou barrar o sexo masculino das premissas - um professor de filologia de renome mundial saiu com o maxilar quebrado por uma sapatão brutamondes quando tentou entrar na biblioteca. A biblioteca virou local de orgias lésbicas, que ela chamou de Ritual das Virgens Vestais."
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Não: não digas nada!, por Fernando Pessoa
Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já
É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.
És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já
É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.
És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.
Há doenças piores que as doenças, por Fernando Pessoa
Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.
Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
trecho do capítulo 66 de O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar
A página contém uma só frase: "No fundo, já sabia que não se pode ir mais além, porque não existe." A frase repete-se ao longo de toda a página, dando a impressão de um muro, de um impedimento. Não tem pontos, nem vírgulas, nem margens. Trata-se, de fato, de um muro de palavras ilustrando o sentido da frase, o choque contra uma barreira por trás da qual nada existe. Todavia, embaixo, à direita, numa das frases, falta a palavra "existe", um olho sensível depressa pode descobrir o vazio entre os ladrilhos, a luz que passa.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
trecho do capítulo 65 de O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar
Tendências a se vestir de de preto, de cinza, de pardo. Nunca foi visto com um terno completo. Há quem diga que tem três, mas que combina, invariavelmente, as calças de um com o paletó de outro. Não seria difícil verificar isso.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
He Wishes for the Cloths of Heaven, de W.B. Yeats
Had I the heavens' embroidered cloths,
Enwrought with the golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and half-light,
I would spread the cloths under your feet
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams beneath your feet;
Tread softly because you tread on my dreams...
Enwrought with the golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and half-light,
I would spread the cloths under your feet
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams beneath your feet;
Tread softly because you tread on my dreams...
sexta-feira, 3 de junho de 2011
dois trechos de: Duas notas, segunda nota: A arte de injuriar, HISTÓRIA DA ETERNIDADE, J L Borges
Cabe aqui certa réplica varonil a que alude De Quincey (Writings, tomo XI, p. 226). Numa discussão teológica ou literária, lançaram um copo de vinho ao rosto de um cavalheiro. O agredido não se alterou e disse ao ofensor: "Isto, senhor, é uma digressão; aguardo seu argumento". (O protagonista dessa réplica, um tal doutor Henderson, faleceu em Oxford por volta de 1787, sem deixar-nos nenhuma lembrança a não ser essas exatas palavras: suficiente e bela imortalidade.)
---
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Vinte e cinco pauzinhos
Tem uma cadeira.
Queres que a quebre
Nas tuas costelas?
(uma quadra da Andaluzia)
segunda-feira, 30 de maio de 2011
início da Quinta Elegia das Elegias de Duíno, R.M. Rilke
Mas quem são eles, dizei-me, os saltimbancos, um pouco
mais efêmeros que nós mesmos, desde a infância
por alguém torcidos — por amor
de que vontade jamais saciada? Entretanto ela os torce,
curva-os, entretece-os, vibra-os,
atira-os e os toma de volta!
Do ar untado
e mais liso, eles resvalam
sobre o tapete gasto (adelgaçado
pelo eterno salto), esse tapete
perdido no universo.
Emplastro aderido lá, onde o céu
do subúrbio feriu a terra.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
A Confissão de um Vagabundo, de Siérguei Iessiênin
Nem todos sabem cantar
Não é dado a todos ser maçã
Para cair aos pés dos outros.
Esta é a maior confissão
Que jamais fez um vagabundo.
Não é à toa que eu ando despenteado,
Cabeça como lâmpada de querosene sobre os ombros.
Me agrada iluminar na escuridão
O outono sem folhas de vossas almas,
Me agrada, quando as pedras dos insultos
Voam sobre mim, granizo vomitado pelo vento.
Então limito-me a apertar mais com as mãos
A bolha oscilante dos cabelos.
Como eu me lembro bem então
Do lago cheio de erva e do som rouco do amieiro
E que nalgum lugar vivem meu pai e minha mãe,
Que pouco se importam com meus versos,
Que me amam como a um campo, como a um corpo,
Como à chuva que na primavera amolece o capim.
Eles, com seus forcados, viriam aferrar-vos
A cada injúria lançada contra mim.
Pobres, pobres camponeses,
Por certo, estão velhos e feios,
E ainda temem a Deus e aos espíritos do pântano.
Ah, se pudessem compreender
Que o seu filho é, em toda a Rússia,
O seu melhor poeta!
Seus corações não temiam por ele
Quando molhava os pés nos charcos outonais?
Agora ele anda de cartola
E sapatos de verniz.
Mas sobrevive nele o antigo fogo
De aldeão travesso.
A cada vaca, no letreiro dos açougues,
Ele saúda à distância.
E quando cruza com um coche numa praça,
Lembrando o odor de esterco dos campos nativos,
Lhe dá vontade de suster o rabo dos cavalos
Como a cauda de um vestido de nooiva.
Amo a terra.
Amo demais a minha terra!
Embora a entristeça o mofo dos salgueiros,
Me agradam os focinhos sujos dos porcos
E, no silêncio das noites, a voz alta dos sapos.
Fico doente de ternura com as recordações da infância.
Sonho com a névoa e a umidade das tardes de abril,
Quando o nosso bordo se acocorava
Para aquecer os ossos no ocaso.
Ah, quantos ovos nos ninhos das gralhas,
Trepando nos seus galhos, não roubei!
Será ainda o mesmo, com a copa verde?
Sua casca será rija como antes?
E tu, meu caro
E fiel cachorro malhado?!
A velhice te fez cego e resmungão.
Cauda caída, vagueias no quintal,
Teu faro não distingue o estábulo da casa.
Como recordo as nossas travessuras,
Quando eu furtava o pão de minha mãe
E mordíamos, um de cada vez,
Sem nojo um do outro.
Sou sempre o mesmo.
Meu coração é sempre o mesmo.
Como as centáureas no trigo, florem no rosto os olhos.
Estendendo as esteiras douradas de meus versos
Quero falar-vos com ternura.
Boa noite!
Boa noite a todos!
Terminou de soar na relva a foice do crepúsculo...
Eu sinto hoje uma vontade louca
De mijar, da janela, para a lua.
Luz azul, luz tão azul!
Com tanto azul, até morrer é zero.
Que importa que eu tenha o ar de um cínico
Que pendurou uma lanterna no traseiro!
Velho, bravo Págaso exausto,
De que me serve o teu trote delicado?
Eu vim, um mestre rigoroso,
Para cantar e celebrar os ratos,
Minha cabeça, como agosto,
Verte o vinho espumante dos cabelos.
Eu quero ser a vela amarela
Rumo ao país para o qual navegamos.
(tradução de Augusto de Campos)
in: Poesia Russa Moderna
segunda-feira, 21 de março de 2011
às vezes nos reveses, de Angélica Freitas
penso em voltar para a england
dos deuses
mas até as inglesas sangram
todos os meses
e mandam her royal highness
à puta que a pariu.
digo: agüenta com altivez
segura o abacaxi com as duas mãos
doura tua tez
sob o sol dos trópicos e talvez
aprenderás a ser feliz
como as pombas da praça matriz
que voam alto
sagazes
e nos alvejam
com suas fezes
às vezes nos reveses
fonte: http://ricardo-domeneck.blogspot.com/2011/02/alguns-poemas-memoraveis-da-ultima_13.html
dos deuses
mas até as inglesas sangram
todos os meses
e mandam her royal highness
à puta que a pariu.
digo: agüenta com altivez
segura o abacaxi com as duas mãos
doura tua tez
sob o sol dos trópicos e talvez
aprenderás a ser feliz
como as pombas da praça matriz
que voam alto
sagazes
e nos alvejam
com suas fezes
às vezes nos reveses
fonte: http://ricardo-domeneck.blogspot.com/2011/02/alguns-poemas-memoraveis-da-ultima_13.html
sexta-feira, 18 de março de 2011
O duro cerne da beleza, de William Carlos Williams
O mais esplêndido não é
a beleza, por profunda que seja,
mas a clássica tentativa
de beleza,
em meio o charco: a
estrada interrompida, abandonada
quando a nova ponte finalmente entrou em uso.
Ali, de ambos os lados de uma entrada
cuja tinta, crestada pelo sol,
começa a descascar –
dois vasos de gerânios.
Pois entre: em uma das paredes,
pintadas numa placa ornamental,
romãs maduras.
– e, ao sair, repare lá
embaixo na estrada – numa unha,
numa unha de polegar se poderia esboçá-lo –
degraus de pedra subindo
pela fachada toda até, no
primeiro andar, um
minúsculo
pórtico
em bico como o palato
de uma criança! Deus nos dê de novo
igual intrepidez.
Há tufos
de roseiras dos dois lados
dessa entrada e ameixeiras
(uma seca) circundadas
na base por carcaças
de pneus velhos! sem outro propósito
senão a glória da Divindade
a qual fez aparecerem
ambos os seus ombros, sustentando
o enlameado lourejar
de suas tranças, acima
das ondas pacientes.
E nós? o vasto mundo inteiro abandonado
sem nenhuma razão, intacto,
o mundo perdido da simetria
e da graça: sacos de carvão
jeitosamente empilhados sob
o telheiro dos fundos, o
fosso bem atrás um passadiço
por entre a lama,
triunfante! ao prazer,
prazer; prazer de barco,
retirada vereda de um domingo
até o livre rio.
fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=36607&id_secao=11
a beleza, por profunda que seja,
mas a clássica tentativa
de beleza,
em meio o charco: a
estrada interrompida, abandonada
quando a nova ponte finalmente entrou em uso.
Ali, de ambos os lados de uma entrada
cuja tinta, crestada pelo sol,
começa a descascar –
dois vasos de gerânios.
Pois entre: em uma das paredes,
pintadas numa placa ornamental,
romãs maduras.
– e, ao sair, repare lá
embaixo na estrada – numa unha,
numa unha de polegar se poderia esboçá-lo –
degraus de pedra subindo
pela fachada toda até, no
primeiro andar, um
minúsculo
pórtico
em bico como o palato
de uma criança! Deus nos dê de novo
igual intrepidez.
Há tufos
de roseiras dos dois lados
dessa entrada e ameixeiras
(uma seca) circundadas
na base por carcaças
de pneus velhos! sem outro propósito
senão a glória da Divindade
a qual fez aparecerem
ambos os seus ombros, sustentando
o enlameado lourejar
de suas tranças, acima
das ondas pacientes.
E nós? o vasto mundo inteiro abandonado
sem nenhuma razão, intacto,
o mundo perdido da simetria
e da graça: sacos de carvão
jeitosamente empilhados sob
o telheiro dos fundos, o
fosso bem atrás um passadiço
por entre a lama,
triunfante! ao prazer,
prazer; prazer de barco,
retirada vereda de um domingo
até o livre rio.
fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=36607&id_secao=11
quarta-feira, 16 de março de 2011
Natureza Morta, de Patrícia Galvão
Os livros são dorsos de estantes distantes quebradas.
Estou dependurada na parede feita um quadro.
Ninguém me segurou pelos cabelos.
Puseram um prego em meu coração para que eu não me mova
Espetaram, hein? a ave na parede
Mas conservaram os meus olhos
É verdade que eles estão parados
Como os meus dedos, na mesma frase.
Espicharam-se em coágulos azuis.
Que monótono o mar!
Os meus pés não dão mais um passo.
O meu sangue chorando
As crianças gritando,
Os homens morrendo
O tempo andando
As luzes fulgindo,
As casas subindo,
O dinheiro circulando,
O dinheiro caindo.
Os namorados passando, passeando,
O lixo aumentando,
Que monótono o mar!
Procurei acender de novo o cigarro.
Por que o poeta não morre?
Por que o coração engorda?
Por que as crianças crescem?
Por que este mar idiota não cobre o telhado das casas?
Por que existem telhados e avenidas?
Por que se escrevem cartas e existe o jornal?
Que monótono o mar!
Estou espichada na tela como um monte de frutas apodrecendo.
Se eu ainda tivesse unhas
Enterraria os meus dedos nesse espaço branco
Vertem os meus olhos uma fumaça salgada
Este mar, este mar não escorre por minhas faces.
Estou com tanto frio, e não tenho ninguém ...
Nem a presença dos corvos.
fonte: http://ricardo-domeneck.blogspot.com/2011/03/patricia-galvao-desejosa-de-maremotos.html
Estou dependurada na parede feita um quadro.
Ninguém me segurou pelos cabelos.
Puseram um prego em meu coração para que eu não me mova
Espetaram, hein? a ave na parede
Mas conservaram os meus olhos
É verdade que eles estão parados
Como os meus dedos, na mesma frase.
Espicharam-se em coágulos azuis.
Que monótono o mar!
Os meus pés não dão mais um passo.
O meu sangue chorando
As crianças gritando,
Os homens morrendo
O tempo andando
As luzes fulgindo,
As casas subindo,
O dinheiro circulando,
O dinheiro caindo.
Os namorados passando, passeando,
O lixo aumentando,
Que monótono o mar!
Procurei acender de novo o cigarro.
Por que o poeta não morre?
Por que o coração engorda?
Por que as crianças crescem?
Por que este mar idiota não cobre o telhado das casas?
Por que existem telhados e avenidas?
Por que se escrevem cartas e existe o jornal?
Que monótono o mar!
Estou espichada na tela como um monte de frutas apodrecendo.
Se eu ainda tivesse unhas
Enterraria os meus dedos nesse espaço branco
Vertem os meus olhos uma fumaça salgada
Este mar, este mar não escorre por minhas faces.
Estou com tanto frio, e não tenho ninguém ...
Nem a presença dos corvos.
fonte: http://ricardo-domeneck.blogspot.com/2011/03/patricia-galvao-desejosa-de-maremotos.html
terça-feira, 8 de março de 2011
trecho de: Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso
pg 321, "Mas não é o amor uma série de probabilidades que emprestamos aos outros?"
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
fauzi arap, desconheço o título
Eu fui obrigada a conhecer o avesso do mundo. Pra sobreviver à dor de não entender o que tinha acontecido, à dor de te perder, tudo. Eu tive que nascer pra vida da cidade. Não a vida social, mas a vida da cidade e de seus cantos esquecidos. O lixo do lixo. Eu me perdia pela cidade, anônima, e esse anonimato era um vício. Eu não ter meu nome me absolvia de tudo. Eu me embebedava do desejo cego por qualquer um... E assim, eu me iniciei na solidão coletiva dos que não têm nada a perder. Mas, talvez, eu tenha até mais que os outros a tentação de corresponder ao bem. Uma tentação tão grande e absoluta, um desejo de corresponder de forma tão total, que paradoxalmente me tornou e me torna escrava cega de minha escuridão. E quando essa escuridão me possui, eu até a confundo com uma espécie de bem aventurança.
domingo, 23 de janeiro de 2011
Rayuela, Julio Cortázar, fim do capítulo 6
De acuerdo en que en ese terreno no lo estarían nunca, se citaban por ahí y casi siempre se encontraban. Los encuentros eran a veces tan increíbles que Oliveira se planteaba una vez más el problema de las probabilidades y le daba vueltas por todos lados, desconfiadamente. No podía ser que la Maga decidiera doblar en esa esquina de la rue de Vaugirard exactamente en el momento en que él, cinco cuadras más abajo, renunciaba a subir por la rue de Buci y se orientaba hacia la rue Monsieur le Prince sin razón alguna, dejándose llevar hasta distinguirla de golpe, parada delante de una vidriera, absorta en la contemplación de un mono embalsamado. Sentados en un café reconstruían minuciosamente los itinerarios, los bruscos cambios, procurando explicarlos telepáticamente, fracasando siempre, y sin embargo se habían encontrado en pleno laberinto de calles, casi siempre acababan por encontrarse y se reían como locos, seguros de un poder que los enriquecía. A Oliveira le fascinaban las sinrazones de la Maga, su tranquilo desprecio por los cálculos más elementales. Lo que para él había sido análisis de probabilidades, elección o simplemente confianza en la rabdomancia ambulatoria, se volvía para ella simple fatalidad. "¿Y si no me hubieras encontrado?", le preguntaba. "No sé, ya ves que estás aquí..." Inexplicablemente la respuesta invalidaba la pregunta, mostraba sus adocenados resortes lógicos. Después de eso Oliveira se sentía más capaz de luchar contra sus prejuicios bibliotecarios, y paradójicamente la Maga se rebelaba contra su desprecio hacia los conocimientos escolares. Así andaban, Punch and Judy, atrayéndose y rechazándose como hace falta si no se quiere que el amor termine en cromo o en romanza sin palabras. Pero el amor, esa palabra...
retirado de:
sábado, 1 de janeiro de 2011
O Rapaz No Jardim, René Schickele
Quero pousar minhas mãos nuas uma sobre a outra
e deixá-las afundar pesadamente,
como se fossem amantes, pois a noite cai.
Sinos de maio soam no crepúsculo
e brancos véus de odores baixam sobre nós,
que espreitamos juntos nossas flores.
Através do último brilho do dia reluzem tulipas,
os lilases gritam dos arbustos,
uma rosa clara dilui-se no chão...
Somos bons um para o outro.
Lá fora através da noite azul
escutamos o soar abafado das horas.
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